Brittainy Newman / The New York Times
Brittainy Newman / The New York Times

Com romance inusitado, cientista da vida selvagem vira escritora de sucesso

Delia Owens, de 70 anos, vendeu mas de quatro milhões e meio exemplares de seu romance, intitulado 'Um lugar longe daqui'

Alexandra Alter, The New York Time

08 de janeiro de 2020 | 06h00

No verão de 2018, foi lançado nos Estados Unidos um romance inusitado de uma bióloga (aposentada) da vida selvagem, Delia Owens. O título era estranho e não se enquadrava claramente no gênero, por isso o editor publicou apenas cerca de 28 mil exemplares. O número não foi suficiente.

Um ano e meio mais tarde, o romance Where the Crawdads Sing (Um lugar longe daqui, na tradução brasileira), a história de uma jovem que vive só nos pântanos da Carolina do Norte, vendeu mais de quatro milhões e meio de exemplares. Em uma trajetória surpreendente para qualquer romancista estreante, e muito mais para uma cientista de 70 anos que leva uma vida de reclusa. Suas obras publicadas anteriormente continham a crônica das dezenas de anos que ela passara nos desertos e vales de Botsuana e Zâmbia, onde estudava o comportamento de hienas, leões e elefantes.

Crawdads (Lagostins) vendeu mais cópias impressas do que qualquer outro título para leitores adultos nos Estados Unidos, no ano passado, segundo a NPD BooksScan. Os direitos de publicação foram vendidos para 41 países.

Analistas do setor procuraram explicar o poder permanente do romance. “Quando o livro decolou, se impôs por si próprio, e mostrou particularmente seu vigor”, justificou Kristen McLean, diretora executiva  de expansão de negócios do NPD Group. Parece que ninguém foi apanhado de surpresa pelo sucesso do livro mais do que a própria autora. “Nunca me relacionei com pessoas como está acontecendo agora com os meus leitores”, surpreendeu-se. “Não esperava isso."

Experiências pessoais

Delia começou a escrever o romance há dezenas de anos. Embora seja uma obra de ficção, a inspiração veio de suas experiências pessoais. “O livro fala de como tentar fazer alguma coisa em um lugar selvagem”, explicou.

Durante a maior parte da sua vida, ela viveu longe das pessoas e o mais perto que lhe foi permitido de animais selvagens. Em 1974, ela e o seu então marido, Mark Owens, partiram para a África para estudar a vida selvagem, e montaram um campo de pesquisa no Deserto de Kalahari, em Botsuana.

Mais tarde o casal se tornou conhecido  pelo trabalho de sua fundação na Zâmbia, onde a fundação providenciava treinamento, micro empréstimos, assistência médica e educação aos moradores. Mas os dois também provocaram controvérsias. Na tentativa de acabar com os caçadores furtivos, Mark Owens transformou o seu campo de base em um “centro de comando contra a caça ilegal”.

Em 1995, uma das suas missões acabou em tragédia quando um caçador suspeito, ao que tudo indica, foi assassinado. O casal Owens, que não estava presente no momento do atentado, deixou o país e nunca mais voltou.

Delia disse que não foi acusada de crime algum, mas não quis fornecer detalhes. Ela comparou esta amarga experiência às peripécias enfrentadas por sua heroína de ficção, Kya Clark, que cresce sozinha depois de ser abandonada pela família, e se torna uma exilada, posteriormente acusada de assassinar um jovem.

“É doloroso ter de se revelar, mas é o que Kya precisa fazer,  identificar-se”, destacou a autora. “Você precisa levantar a cabeça, ou abaixá-la, o que for, mas precisa seguir em frente e ser forte. Eu já fui perseguida por elefantes”, comparou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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