Bryan Denton para The New York Times
Bryan Denton para The New York Times

EUA cortam verba para programa de monitoramento de vírus

O Predict, um programa de pesquisa do governo, procurou identificar vírus de animais que podem infectar seres humanos e evitar novas pandemias

Donald G. McNeil Jr, The New York TImes

07 de novembro de 2019 | 06h00

Em uma manobra que preocupa muitos especialistas em saúde pública, os Estados Unidos estão encerrando um programa de monitoramento de perigosos vírus de animais que algum dia podem vir a infectar humanos. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que uma nova doença de animais que também pode infectar humanos é descoberta a cada quatro meses. O fim do programa americano, temem especialistas, deixará o mundo mais vulnerável a patógenos letais como ebola e mers, que causa a síndrome respiratória coronavírus do Oriente Médio.

O programa, conhecido como Predict (Prever, em tradução livre) e administrado pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, foi iniciado 10 anos atrás, e teve custo de aproximadamente US$ 207 milhões. A iniciativa descobriu mais de mil novos vírus, incluindo uma nova cepa de ebola. O Predict também capacitou cerca de cinco mil pessoas em 30 países africanos e asiáticos e construiu ou fortaleceu 60 laboratórios de pesquisa.

Dennis Carroll, que supervisionou o Predict, afirmou que o programa está sendo encerrado por causa da “ascensão de burocratas avessos a riscos”. Peter Daszak, presidente da Aliança EcoHealth, uma organização global de defesa da saúde que recebia financiamento do programa, afirmou que o Predict “era uma abordagem para evitar pandemias, em vez de não fazer nada e esperá-las emergir para se mobilizar. Isso custa caro”. 

“Os EUA gastaram US$ 5 bilhões combatendo o ebola na África Ocidental”, acrescentou ele. “Isso custa muito menos.” O objetivo do Predict era acelerar e organizar a caça às zoonoses - as doenças que podem ser transmitidas de animais para humanos. O ebola circula em morcegos e primatas, enquanto o coronavírus sars, causador da síndrome respiratória aguda grave, é encontrado em gatos selvagens mantidos em cativeiro na China.

No sul da Ásia, o vírus nipah contamina humanos por meio de porcos ou seiva de tamareiras infectadas por morcegos que carregam o vírus. Na Arábia Saudita, o mers também contamina morcegos; que contaminam camelos, que contaminam humanos. Essas descobertas conduziram a novas maneiras de evitar o alastramento de infecções para os humanos: fechar mercados em que animais selvagens eram abatidos e vendidos como comida; instalar proteções de bambu em torno dos recipientes coletores de seiva para manter morcegos afastados; ou confinar porcos e camelos.

As equipes do Predict investigaram surtos de doenças misteriosas em muitos países. Uma equipe provou que lontras ameaçadas de extinção mantidas em um zoológico do Camboja foram mortas por causa da contaminação da comida - galinhas cruas infestadas por gripe aviária. Um laboratório do Predict ajudou a identificar vírus de morcegos aos quais foram expostos os meninos do time de futebol que ficou semanas preso em uma caverna da Tailândia.

Deixar que o Predict acabe é “realmente lamentável - e o oposto do que queríamos”, afirmou Gro Harlem Brundtland, ex-primeira-ministra da Noruega e ex-diretora-geral da Organização Mundial da Saúde. “Os americanos têm de entender o quanto sua segurança sanitária depende de outros países, que frequentemente não têm capacidade de garanti-la sem ajuda.”

Ainda que a USAID esteja “orgulhosa e feliz com o trabalho realizado pelo Predict”, o programa está sendo encerrado porque chegou ao fim de um ciclo de financiamento, afirmou Irene Koek, administradora-assistente interina do escritório para saúde global da agência.

A USAID ainda apoia programas relativos a saúde como a iniciativa do presidente contra a malária e o plano de emergência do presidente para o combate à aids. Mas Carroll descreveu esses programas como “portfólios de recomendações”. A maneira de combater essas doenças é bem conhecida, explicou ele, de modo que a agência atua somente definindo orçamentos para medicamentos, kits de diagnóstico, inseticidas, mosquiteiros, preservativos e outras intervenções definidas há muito tempo.

O Predict colocava investigadores médicos em campo com maior frequência, treinando médicos locais, veterinários, guardas de reservas de vida selvagem e outros profissionais para coletar amostras de animais domésticos e selvagens. O programa financiou simulações para prever onde os surtos tinham mais probabilidade de ocorrer. Também buscou maneiras de evitar práticas como caça de animais selvagens para obter carne ou cruzamento de camelos de corrida, o que estimula a ocorrência de surtos.

Depois daquele surto de ebola na África Ocidental, os pesquisadores do Predict determinaram a exata espécie de morcego que carregava a cepa ebolavírus do Zaire, que causava a infestação. Uma outra equipe, em Serra Leoa, descobriu uma nova cepa do vírus, agora conhecida como ebolavírus Bombali.

A cepa do Zaire foi encontrada em uma espécie de morcego que habita cavernas e minas, afirmou Jonathan Epstein, veterinário da Aliança EcoHealth, e o Bombali foi encontrado em morcegos que habitam residências. Distinções como essa são importantes para informar às pessoas - especialmente aquelas que comem morcegos - quais espécies são perigosas.

“Produzimos um livro ilustrado mostrando como manter os morcegos fora das casas, instalando telas nas janelas ou revestimentos sob a palha de seus telhados”, afirmou ele. “O Predict pagava por esse tipo de ação. Estávamos chegando a um ponto de possuir força de trabalho treinada para poder colher amostras de animais e laboratórios com capacidade de detectar vírus desconhecidos, além dos conhecidos”. “Uma vez que isso for interrompido, será difícil manter tal nível de proficiência”, acrescentou ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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