Dmitry Kostyukov / The New York Times
Dmitry Kostyukov / The New York Times

Meio ambiente, o novo tema da extrema direita francesa

Recentemente, a líder da Reunião Nacional, Marine Le Pen, propôs tornar a Europa a 'maior civilização ecológica do mundo'

Norimitsu Onishi, The New York Times

27 de outubro de 2019 | 06h00

HÉNIN-BEAUMONT, FRANÇA — Todas as luzes das ruas da cidade e suas construções estão sendo substituídas pelas ecologicamente corretas lâmpadas de LED. Funcionários da prefeitura virão à sua casa plantar árvores, gratuitamente, como uma maneira natural de manter fresca a temperatura e combater as ondas de calor que recentemente têm varrido a Europa. Ovelhas pastam em um campo da municipalidade em um experimento de “eco-pastos”. “Menos poluição, menos ruído, menos produtos químicos”, diz um cartaz da prefeitura.

Não, esses programas não são fruto de uma câmara municipal ambientalista, dominada pelos verdes. São resultado do trabalho do partido de extrema direita francês Reunião Nacional, cuja duradoura e furiosa dedicação a um único tema, coibir a imigração, ajudou a torná-lo a principal legenda de oposição em seu país.

Há poucos anos, o partido mostrava pouco interesse no meio ambiente. Seu fundador, Jean-Marie Le Pen, negava a existência de uma mudança climática provocada pelo homem e desprezava a ecologia, qualificando-a como a “nova religião dos bobos”, adjetivo que, em francês, além de também significar “estúpidos”, é um acrônimo “para boêmios burgueses”.

Mas como esse tema tem prioridade entre as preocupações de eleitores de toda a Europa, a Reunião Nacional fez sua lição de casa, assim como outros grupos nacionalistas e populistas de extrema direita em outros pontos do continente.

Recentemente, a líder da Reunião Nacional, Marine Le Pen, propôs tornar a Europa a “maior civilização ecológica do mundo”. O partido está propagandeando cidades como Hénin-Beaumont, onde está no poder desde 2014, como exemplos de seu estilo próprio de ambientalismo.

Entre os partidos populistas de extrema direita na Europa, posições a respeito das mudanças climáticas vão do negacionismo ao reconhecimento da natureza global do problema, de acordo com um levantamento do Adelphi, grupo independente de estudos sobre o clima com sede em Berlim.

No meio-termo há os partidos (entre eles o Reunião Nacional) que promovem uma visão nacionalista do ambientalismo, com base identitária, ao mesmo tempo que rejeitam trabalhar o tema com outras nações. “Fundamentalmente, a ecologia trata de pessoas que vivem em um determinado território, que estão ligadas a ele e fazem planos a longo prazo”, afirmou Hervé Juvin, ensaísta eleito em maio para o Parlamento Europeu representando a Reunião Nacional.

Mudança climática

Os críticos da Reunião Nacional afirmam que o partido não leva a sério o enfrentamento das mudanças climáticas, já que rejeita de antemão a ideia de cooperar com outros países. Segundo eles, a mitigação de um problema global somente pode ser atingida por meio de uma diligente diplomacia.

Não faz sentido falar em qualidade do ar sem envolver no debate a vizinha Alemanha, afirmou Marine Tondelier, única integrante do Partido Verde na Câmara Municipal de Hénin-Beaumont. “Não podemos resolver esses problemas sem a Europa”, defendeu Marine.

Hénin-Beaumont fica em um norte da França que foi prejudicado com o fechamento de minas e fábricas — um fator que, juntamente com a presença dos imigrantes que tentam cruzar o Canal da Mancha ilegalmente para a Grã-Bretanha, alimentou a ascensão da Reunião Nacional.

Os socialistas controlaram por muito tempo Hénin-Beaumont e outras municipalidades na região. Mas um escândalo de corrupção que envolveu um prefeito socialista levou à vitória a Reunião Nacional na cidade de 27 mil habitantes.

Enquanto a região tenta resolver seu futuro, os verdes levaram o crédito por transformar duas cidades, Loos-en-Gohelle e Grande-Synthe em cidades sustentáveis. Agora, a Reunião Nacional está desafiando os verdes.

Em Hénin-Beaumont, a Reunião Nacional está colocando em prática muitos dos mesmos projetos dos verdes. Juvin não negou as intenções eleitoreiras. Um foco no ambiente poderá ampliar o espectro de seu partido para além da questão da imigração. “As pessoas acham que temos de nos descolar do fato de que nosso único assunto seja a imigração”, afirmou ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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