Al Drago para The New York Times
Al Drago para The New York Times

Será que a Europa pode confiar nos Estados Unidos?

À medida que os líderes ocidentais se reúnem em Londres nesta semana, você poderá detectar uma enorme ruptura abaixo da superfície

Ivan Krastev, The New York Times

14 de dezembro de 2019 | 06h00

Em 1991, cheguei a Detroit para minha primeira visita aos Estados Unidos. Meus anfitriões, da extinta Agência de Informações dos EUA, estavam determinados a mostrar a mim e a outros búlgaros do meu grupo não apenas o sonho americano, mas também o outro lado do país. Antes de passearmos pela cidade, recebemos instruções de como nos comportar em lugares supostamente perigosos.

Nossos anfitriões americanos disseram claramente que, se não quiséssemos nos tornar vítimas, não deveríamos nos comportar como vítimas. Andar no meio da rua olhando para os lados nervosamente à procura de um policial só aumentaria a probabilidade de sermos assaltados. Prestem atenção nos arredores e não se percam, eles disseram.

Desde a eleição do presidente Donald Trump, em 2016, nós, europeus, seguimos esse conselho em se tratando da política internacional. Estamos preocupados em não parecer vítimas, na esperança que isso nos poupe de um assalto em um mundo hoje abandonado pelo seu antigo xerife de confiança.

Conforme Trump insulta instituições internacionais e abandona aliados no mundo inteiro, da Síria à Península Coreana, os responsáveis pelas políticas do lado europeu do Atlântico se viram na difícil tentativa de trilhar um caminho estreito: por um lado, precisam se garantir contra o afastamento de Washington, que agora dá as costas à Europa; por outro precisam garantir que, ao fazê-lo, não afastem ainda mais o governo Trump.

Consequentemente, as políticas europeias em relação aos EUA têm oscilado entre a fanfarronice de quem acredita na própria capacidade de fazer tudo sozinho e o fingimento amedrontado de que tudo continua como antes. Como exemplo, vimos o presidente francês Emmanuel Macron declarar que a Otan se encontrava em um estado de “morte cerebral”, e a chanceler alemã Angela Merkel responder rapidamente com a insistência de que a “Otan continua sendo vital para nossa segurança".

Está emergindo um novo consenso europeu para as relações transatlânticas, e isso representa uma grande mudança. Até recentemente, a esperança da maioria dos líderes europeus estava atrelada ao resultado das eleições americanas. Eles acreditavam que, se Trump for derrotado em 2020, o mundo acabará voltando ao normal.

Tudo isso mudou. Ainda que governos europeus aliados a Trump, como Polônia e Hungria, ainda acompanhem as pesquisas eleitorais, torcendo para que Trump tenha mais quatro anos na presidência, os liberais europeus estão perdendo a esperança. Não que tenham perdido o interesse pela política americana: ao contrário, acompanham religiosamente as audiências do processo de impeachment no congresso e torcem pela derrota de Trump. Mas, finalmente, começaram a perceber que uma política externa da União Europeia não pode ter como base o ocupante da Casa Branca.

Como explicar essa mudança? É plausível que os liberais europeus não estejam convencidos diante da visão dos candidatos democratas para a política externa, detectando tendências isolacionistas também nesse partido. Os europeus ainda não conseguiram entender como Barack Obama - talvez o presidente americano de mentalidade mais europeia, e também o mais bem quisto pelos europeus - foi o presidente menos interessado na Europa (ao menos até a chegada de Trump).

Os europeus também temem a perspectiva de um embate ao estilo da Guerra Fria, dessa vez entre EUA e China. Uma pesquisa recente do Conselho Europeu das Relações Internacionais indicou que, nos conflitos entre EUA e China, a maioria dos eleitores europeus prefere a neutralidade, buscando um meio-termo entre as superpotências.

Há motivos sólidos para isso: a Europa continua ligada economicamente à China de maneiras que Washington parece não levar em consideração, como evidenciado pela recente disputa envolvendo os planos da gigante chinesa das telecomunicações Huawei, para a construção de redes 5G em todo o continente. Mas, deixando isso de lado, acredito que há uma mudança mais fundamental: os liberais europeus perceberam que a democracia americana não produz mais um consenso do qual decorre uma política externa previsível. 

A mudança de presidente não significa apenas um novo parceiro na Casa Branca, e sim um novo regime. Se os democratas triunfarem em 2020 e um presidente aliado da Europa assumir a Casa Branca, nada impede que, em 2024, os americanos elejam um presidente que, como Trump, enxergue a União Europeia como inimiga, buscando ativamente desestabilizar as relações com os europeus.

A autodestruição do consenso que formava a política externa americana foi demonstrada não somente durante as recentes audiências de impeachment, nas quais vimos a politização das relações com a Ucrânia, mas também pelo fato de o espectro da subversão russa não ter provocado uma reação alérgica em ambos os partidos. Quando os eleitores de Trump souberam que o presidente russo Vladimir Putin apoiava o candidato, sua reação foi admirar Putin em vez de abandonar Trump.

Nos 70 anos mais recentes, os europeus souberam que, independentemente de quem fosse o ocupante da Casa Branca, as prioridades da política externa dos EUA seriam consistentes. Hoje, ninguém mais arriscaria apostar nisso. Ainda que a maioria dos líderes europeus tenha recebido mal os comentários jocosos de Macron a respeito da Otan e dos EUA, muitos ainda concordam com ele ao perceber a necessidade de uma política externa europeia mais independente.

Querem desenvolver as próprias capacidades tecnológicas  e desenvolver a capacidade para operações militares desvinculadas da Otan. Ao fim da Guerra Fria, o então vice-presidente dos EUA, Dan Quayle, prometeu aos europeus que “o futuro será melhor amanhã". Ele estava enganado. Os líderes europeus começam a se dar conta de que, na verdade, o futuro era melhor antes.

Ivan Krastev é presidente do Centro de Estratégias Liberais, pesquisador permanente do Instituto de Ciências Humanas de Viena e coautor do recente The Light That Failed: A Reckoning. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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