Matthias Schrader/Associated Press
Matthias Schrader/Associated Press
Steven Erlanger e Katrin Bennhold, The New York Times

20 de fevereiro de 2019 | 06h00

MUNIQUE - Os líderes europeus há muito estão alarmados com a possibilidade de que as palavras do presidente Donald J. Trump e suas mensagens no Twitter comprometam a aliança atlântica que havia se tornado cada vez mais forte ao longo de 70 anos. E se agarravam à esperança de que estes vínculos resistissem à tensão. Mas nos últimos dias da conferência anual sobre segurança realizada em Munique este mês, o descontentamento se tornou aberto, concreto, entre sinais de revolta.

"Ninguém acredita mais que Trump esteja muito preocupado com os pontos de vista ou os interesses dos aliados. A aliança se rompeu", disse um funcionário de alto escalão alemão, que pediu para não ser identificado. O perigo mais imediato, alertaram os representantes, é que as rachaduras agora sejam exploradas pela Rússia e a China.

Os europeus não acreditam mais que Washington vá mudar, pelo menos enquanto Trump considerar os aliados rivais econômicos e a liderança uma imposição. Mas além do governo Trump, há um número cada vez maior de europeus que afirmam que as relações com os Estados Unidos nunca mais serão as mesmas.

"Dois anos de Trump, e a maioria dos franceses e dos alemães agora confia mais na Rússia e na China do que nos Estados Unidos", disse Karl Kaiser, respeitado analista das relações entre Alemanha e EUA.

Contudo foi possível perceber sinais de que nem todos os líderes americanos e europeus estão dispostos a renunciar à aliança tão facilmente.

Mais de 50 parlamentares americanos participaram da Conferência sobre Segurança em Munique. Eles vieram, como afirmou a senadora Jeanne Shaheen, democrata de New Hampshire, "para mostrar aos europeus que outra parte do governo apoia firmemente a Otan e a aliança transatlântica".

O recuo mais visível diante de Washington foi o da chanceler alemã Angela Merkel e de sua ministra da Defesa, Ursula von der Leyen. Elas falaram dos perigos representados por ações unilaterais dos principais parceiros sem uma discussão das consequências com os aliados. Elas também mencionaram o anúncio de Trump de que as tropas americanas sairão do norte da Síria e do Afeganistão, decisão que, segundo Merkel, só ajudaria a Rússia e o Irã, assim como a decisão de suspender a proibição dos mísseis balísticos de alcance intermediário. Tal decisão afeta a segurança europeia, sem que haja uma estratégia alternativa, afirmou a chanceler.

O vice-presidente Mike Pence, que falou depois de Merkel em Munique, foi recebido com um silêncio sepulcral quando tentou pressionar os aliados a se retirarem do acordo nuclear com o Irã, considerado vital para a segurança pelos europeus. Pence elogiou Trump e o que ele chamou de restauração da liderança americana no Ocidente. Mas os europeus não ficaram convencidos.

"É muito estranho falar de liderança americana da aliança quando foi Trump que provocou a crise", afirmou Marietje Schaake, a representante da Holanda no Parlamento Europeu. "Muitos europeus consideram o governo Trump o principal responsável pelas tensões e pelo enfraquecimento do Ocidente".

Nathalie Tocci, assessora sênior da alta representante da EU para política externa, Federica Mogherini, disse que para os europeus, a divisão atinge "a essência da nossa visão das relações internacionais e dos nossos interesses nacionais. Somos pequenos e precisamos compreensivelmente de parceiros dentro e fora da Europa, com a Otan", afirmou.

"Queremos acreditar que mais tarde tudo voltará a ficar bem, porque não temos alternativa". Significa que a dependência dos Estados Unidos continuará, ainda que os europeus busquem outras maneiras de não depender muito de Washington, afirmam os analistas. Eles também esperam mudanças na Casa Branca.

"Os europeus estão prendendo a respiração e achando que talvez faltem apenas dois anos", disse Victoria Nuland, uma ex-funcionária americana.

Na Europa, aumenta o número de vozes que alerta  que a atual discórdia tem raízes mais profundas, e que não será possível voltar ao passado.

Trump não é a causa, segundo Norbert Röttingen, presidente do comitê de relações exteriores do Parlamento alemão, e sim um sintoma dos movimentos tectônicos da geopolítica que levaram a um retorno da rivalidade entre as grandes potências.

"Na era pós-Trump, não há como voltar à era pré-Trump", afirmou. "O status quo era que a segurança da Europa seria garantida pelos Estados Unidos. Isso não voltará a ocorrer".

Jan Techau, diretor do Programa Europa do Fundo Marshall alemão em Berlim, teme que este fosso venha a significar uma vulnerabilidade estratégica à Rússia e à China. Se existir alguma ambiguidade na aliança ocidental, acrescentou, Rússia e China sabem que a garantia de segurança não será mais real. 

"Quando esta proteção desaparecer", prosseguiu, "este espaço estratégico se tornará alvo de disputa".

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