Lukas Coch/EPA via Shutterstock
Lukas Coch/EPA via Shutterstock

Evangélico se torna primeiro-ministro em uma Austrália secular

Por ser o primeiro chefe de governo a pertencer ao movimento, cidadãos se questionam se o fato poderá afetas suas decisões políticas

Rick Rojas, The New York Times

08 Setembro 2018 | 10h15

SYDNEY, AUSTRÁLIA - No serviço religioso em um domingo de manhã, um pastor de uma das maiores igrejas pentecostais de Sydney referiu-se a um congregado que costumava comparecer todas as semanas, mas naquele momento ele não estava presente. No dia 31 de agosto, havia se tornado o primeiro-ministro da Austrália.

“É um acontecimento incrivelmente esperançoso para o futuro da nossa geração”, disse Alison Bonhomme, pastor sênior da Igreja Horizontal, refletindo sobre o tumulto político que levou Scott Morrison a se tornar o líder da nação. Suas palavras foram recebidas com fortes aplausos.

Morrison e o seu credo representam uma quebra de tradição na Austrália, onde há muito tempo a política se tornou secular. Ele é o primeiro chefe de governo do país que pertence a um movimento cristão evangélico, levando muitos cidadãos a indagar se este fato poderá afetar as decisões de política externa ou de política social.

“A questão é saber se Morrison optará por tornar seu credo parte de sua persona política ou até que ponto pretenderá fazê-lo”, disse Hugh White, professor de Estudos Estratégicos da Universidade Nacional Australiana. “A esta altura, não parece que ele tenha esfregado isto na cara do povo.”

Morrison denunciou o que considera uma crescente falta de respeito pelas crenças cristãs, e declarou que se opõe ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Entretanto, frequentemente ele optou pelo pragmatismo e não pelo fundamentalismo. Quando o casamento de pessoas do mesmo sexo foi legalizado na Austrália, por meio de um referendo, depois que uma pesquisa mostrou o apoio da maioria dos australianos, ele se absteve.

No entanto, a fé tem pautado praticamente todos os momentos de sua vida. Morrison, 50, cresceu em um bairro de Sydney, à beira-mar, e sua família sempre participou ativamente da Igreja Unida da Austrália. Conheceu sua esposa, Jenny, na igreja, aos 12 anos.

“Para mim, a fé é algo pessoal, mas suas implicações são sociais porque a responsabilidade pessoal e social se encontram no cerne da mensagem cristã”, afirmou Morrison em sua primeira intervenção no Parlamento, em 2008.

“A Austrália não é um país secular”, acrescentou. “É um país livre. Esta é uma nação na qual os cidadãos têm a liberdade de seguir o credo que escolherem”.

Mas a ascensão de Morrison se deu em um momento particularmente difícil, porque os australianos estão exasperados com a crise que eclodiu na liderança da nação. Ele é o mais recente político a tornar-se primeiro-ministro, depois que o país se tornou acéfalo, após a expulsão do seu líder por rivais partidários - no caso, Malcolm Turnbull, um moderado que foi obrigado a deixar o cargo pelos conservadores.

Há mais de dez anos, nenhum primeiro-ministro australiano consegue concluir um mandato. Os partidários de Morrison ressaltam suas raízes na classe trabalhadora (seu pai era comandante da polícia) e sua casa relativamente modesta. Os críticos questionam seu preparo para tão alto cargo, e especulam se ele conciliará a fé com suas posições pessoais, como a sua intransigência no problema da imigração.

Morrison agora enfrenta o desafio de tentar construir uma cultura de reconciliação. Em maio do próximo ano haverá uma eleição. Em razão da instabilidade, os seus aliados externos sentem-se desconfortáveis, e a confiança de muitos eleitores foi destruída.

“É pior do que o pátio de uma escola”, disse Jeanine Potter, uma professora que vota em Morrison há cerca de quatro anos. “É incrível pensar que o nosso dinheiro está pagando para eles tentarem governar um país”.

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