Alec Jacobson The New York Times
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'Everesting': desafio de ciclismo se populariza

Atividade consiste em subir e descer uma montanha até atingir 8,8 quilômetros

Alec Jacobson, The New York Times - Life/Style

01 de setembro de 2020 | 05h00

Enquanto meu altímetro indicava 8,2 quilômetros no dia – num trecho onde o oxigênio é escasso, numa “zona da morte” no Monte Everest canadense e meus olhos estavam embaçados com o calor e a luz do sol, uma Ferrari branca passou acelerada por mim numa curva.

Estava completamente cansado, mas o carro era real, quando eu lentamente subia de bicicleta a estrada para o Mount Seymour Resort, abaixo do Dinkey Peak, ao norte de Vancouver, na Colúmbia Britânica. Estava muito distante daquela que é a montanha mais alta do mundo, mas me esforçava para concluir o que é conhecido como o Everesting Challenge. O desafio é claro: pegar uma montanha, qualquer uma, e seguir subindo e descendo até atingir 8,8 quilômetros. Amigos podem dar suporte, mas você tem de concluir o percurso com sua própria força e num esforço único – não dormir.

O resultado é que você vai pedalar mais do que nos trechos mais difíceis do Tour de France. Com muitos eventos com bicicletas interrompidos pela pandemia do coronavírus, o Everesting Challenge canadense se tornou um evento atraente para os aficionados dos esportes que exigem extrema resistência.

Quando expliquei o plano para meu irmão, Chandler, ele perguntou: “Você vai subir de bicicleta uma montanha numa estrada por 12 horas usando roupa de lycra? Por que não entra no oceano e se afoga?”. Uma boa pergunta, pensei.

Esse é um festival planejado de sofrimento que se desenrola numa subida sem um significado real e com pouca beleza. Não há tiro de largada e nem multidões aplaudindo. Mas, se tiver sorte como eu tive, sua namorada vai alimentá-lo com punhados de M&Ms à medida que você avança com dificuldade os quilômetros finais.

E era isto exatamente o que Andy Van Bergen esperava quando criou o desafio em 2014. Van Bergen pode ser traduzido toscamente como “das montanhas”, ele explicou. Ele adquiriu uma reputação em Melbourne, Austrália, como um verdadeiro aficionado das montanhas, liderando o clube de ciclistas Hells 5000, conhecido por suas aventuras diabolicamente difíceis.

Embora seja uma celebridade no mundo do ciclismo, os trajetos de bicicleta esmagadores o fizeram perder amigos que não eram ciclistas. Depois de uma subida de sete quilômetros tentou explicar a viagem para um colega de trabalho que lhe disse “o que mais você fez neste fim de semana?”.

Então, Van Bergen leu um artigo no site Cycling Tips onde  agora trabalha, escrito por George Mallory, neto do famoso montanhista. Treinando para uma expedição ao Everest em 1994, George Mallory escreveu ter subido oito vezes o Everest no Mount Donna Buang, nos arredores de Melbourne.

Van Bergen foi atraído não só pelo desafio, mas também pela ideia de que subir o Everest numa bicicleta era um esforço reconhecidamente brutal para qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo.

O registro de 10.391 tentativas bem sucedidas – em bikes de estrada, de montanha ou em bikes estacionadas que simulam a subida - é mantido num “hall da fama” no website Everesting.cc. Van Bergen verifica as conclusões do circuito usando dados de GPS. Há Everestings duplos, triplos e quádruplos documentados (dormir duas horas é permitido a cada 8,8 quilômetros).

E o recorde do desafio vem caindo rápido. A subida de bike em oito horas e 29 minutos de Tobias Lestrell na Belgrave-Ferny Creek Road em Sherbrooke, Austrália, era o recorde mantido desde 2017.

Mas em 11 de maio Phil Gaimon, ex-ciclista profissional que hoje é uma estrela das redes sociais, realizou 61 repetições em 7h52 num trecho do Mountaingate Drive em Los Angeles. Keegan Swenson, ciclista de Utah, reteve o recorde durante um mês antes de Lachlan Morton quebrar novamente o recorde em junho, perto de sua casa em Boulder, Colorado.

“Fui ciclista profissional por quase 10 anos e, em todo esse período, meu foco é o objetivo”, disse Morton. Com as disputas canceladas, seus treinadores o animaram a fixar seu objetivo pessoal de fazer o circuito da montanha em 7h29.

Mas apenas duas semanas depois, em 6 de julho, Alberto Contador reduziu o recorde em dois minutos com 76 repetições em  uma trilha pavimentada de montanha perto de Peñalara, na Espanha, quando exibiu com orgulho sua nova marca, a A Bikes, para um público de rede social. “Estou certo de que alguém será mais rápido do que eu muito em breve”, disse Contador, que venceu duas vezes o Tour de France e o Giro d’Itália.

Levou três semanas para ficar provado que ele estava certo. Ronan McLaughlin, treinador e corredor amador marcou 7:04 no Mamore Gap na Irlanda em 30 de junho, depois de eliminar as extremidades do guidão da sua bike para economizar peso.

Dos 5.760 Everesting Challenge em bikes de estrada somente 300 foram completados por mulheres. O tempo do recorde feminino caiu quatro vezes durante a pandemia, de 12:32 para 8:53 com Katie Hall, Lauren De Crescenzo, Hannah Rhodes e Emma Pooley registrando tempos sucessivamente mais rápidos desde 23 de maio.

Pooley, que venceu campeonatos femininos em 2010 e foi medalhista de prata na prova contra o relógio feminina na Olimpíada de Verão de 2008, de início rechaçou a ideia do Everesting Challenge. “Não gosto de transformar nomes em verbos, muito menos nomes próprios como Everest”, disse ela. “Achava que era uma coisa egocêntrica. Um desperdício, na verdade”.

Mas a ideia acabou criando raízes e ela decidiu tentar, realizando 10 subidas na trilha de montanha de Haggenegg, na Suíça. Foi duro aguentar a dor, mas isso lhe propiciou clareza, disse ela. “Eu devia me sentir grata. Nem todo mundo pode escolher como deseja sofrer”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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