Akos Stiller para The New York Times
Akos Stiller para The New York Times

Evitado por Obama, líder húngaro se aproxima de Trump

O primeiro-ministro Viktor Orban se une a outros líderes de direita que buscam o apoio do presidente americano

Patrick Kingsley, The New York TImes

23 Agosto 2018 | 15h00

BUDAPESTE - Nas áreas rurais da Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orban domina o panorama da mídia. Seus aliados controlam os principais jornais regionais, que apoiam a política de Orban contrária aos imigrantes, bem como sua metódica destruição dos controles democráticos no país. Os veículos independentes, um elemento crucial para a democracia, estão em sua maioria ausentes.

Mas em novembro do ano passado, esta situação pareceu prestes a mudar quando o Departamento de Estado americano anunciou um subsídio de US$ 700 mil para estimular a mídia independente no interior da Hungria. Para o Departamento, esta verba daria prosseguimento a uma iniciativa dos Estados Unidos destinada a promover a liberdade de expressão. Para o governo Orban, não passou de mais uma provocação de um país que tratara o primeiro-ministro como um pária desde 2012.

Os finalistas da verba foram identificados, mas, em julho, a escolha de um vencedor foi adiada.

"Trata-se de uma grande vitória", declarou Andras Simonyi, ex-enviado de Orban à Otan, e posteriormente embaixador húngaro em Washington. "Isso sugere que a Hungria está muito bem, que a Hungria é uma democracia".

Durante anos, o governo de Orban aguardou ansiosamente pela validação de Washington e gastou milhões de dólares em lobby. O governo Obama condenou persistentemente Orban ao ostracismo, evitando contatos bilaterais de alto nível como punição por suas tendências autoritárias. O governo criticou sua repressão à sociedade civil.

Agora, no entanto, o governo Trump acena com uma nova estratégia em relação à Hungria. A mudança alarma os que defendem a democracia e o Estado de direito, enquanto outros afirmam que a política de Obama que visava isolar Orban fracassou, e criou uma abertura para influências russa e chinesa.

Para alguns diplomatas e analistas europeus, a mudança de estratégia do presidente Donald J. Trump com a Hungria acentua sua convicção de que seu governo tenta dividir a União Europeia. 

Trump criticou a União elogiando, ao mesmo tempo, as forças rebeldes, populistas, do continente. Seu ex-assessor sênior, Stephen K. Bannon, está empenhado em criar na Europa uma ampla aliança entre os políticos de extrema direita antes das eleições ao Parlamento Europeu no próximo ano, e seu embaixador na Alemanha, Richard A. Grenell, declarou que espera fortalecer as forças conservadoras em todo o continente.

Com um programa que tem o objetivo de construir o que define uma "democracia iliberal", Orban é o líder populista mais influente da Europa. Ele cultivou suas relações com o presidente russo, Vladimir V. Putin, convocou uma "revolução contracultural" na União Europeia e declarou-se protetor da identidade cristã da Europa.

Segundo seus críticos, ele corroeu os controles da democracia na Hungria, modificou o mapa eleitoral e colocou o Judiciário sob a gestão de um de seus amigos.

Em maio, o secretário de Estado Mike Pompeo se reuniu em Washington com seu colega húngaro, Peter Szijjarto, encerrando um período de seis anos sem contatos bilaterais de alto nível. Em junho, Trump falou por telefone com Orban.

Pouco depois, foi concedida a verba de US$ 700 mil para veículos de comunicação independentes no interior rural da Hungria. Em seguida, a revista Heti Valasz, crítica a Orban, anunciou que fecharia as portas, e o canal de televisão privado HirTV passou a ser controlado por um aliado de Orban.

O vice-secretário de Estado assistente de 2016-2017, Robert G. Berschinski, disse considerar a decisão mais uma prova do desprezo do governo Trump pela democracia no exterior. Segundo outros, valeria a pena tentar uma estratégia mais reservada na Hungria.

Já o novo embaixador a Budapeste, David B. Cornstein, prometeu falar com firmeza, principalmente se chegasse à conclusão de que o governo Orban era uma ameaça ao Estado de direito.

"Se vocês virem algo não democrático, algo que fira o governo e o povo húngaro, manifestem-se a respeito", disse Cornstein. "Mas isso deve ser feito a portas fechadas. Não se deve expressar esta opinião em público e, principalmente, na mídia". / Gardiner Harris e Benjamin Novak contribuíram para a reportagem.

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