Sylvain Lefevre/Getty Images
Sylvain Lefevre/Getty Images

Ex-estrategista de Trump planeja unir a extrema direita da Europa

Steve Bannon se aproxima de Victor Orban, líder da Hungria

Ivan Krastev, The New York Times

01 Setembro 2018 | 10h00

“Se houver uma explosão ou incêndio em algum lugar, é provável que Steve esteja por perto, com fósforos", teria dito um ex-funcionário de Steve Bannon na Breitbart News (como elogio). Assim, não surpreende saber que Bannon, antigo estrategista-chefe de Donald Trump, tenha chegado à Europa.

No fim de julho, Bannon, o marqueteiro político americano, anunciou seus planos para a criação do Movimento, uma fundação que ele espera ser capaz de unir os partidos europeus de extrema direta para as eleições parlamentares de maio de 2019. Será que ele conseguirá o impacto desejado?

Como escreve Joshua Green em seu livro a respeito de Bannon, “Devil’s Bargain” [Barganha do diabo], Bannon acreditava sinceramente que o populismo de direita no estilo do Tea Party seria um fenômeno global. Além disso, como afirmou o próprio Bannon numa conferência realizada em maio em Budapeste, “O Brexit foi um arauto da vitória de Trump em 2016, e a revolta populista nacionalista está aproximadamente um ano mais avançada na Europa em relação aos Estados Unidos".

Mas os motivos de Bannon para uma guinada europeia são menos importantes que o seu principal aliado no continente: o primeiro ministro Viktor Orban, da Hungria. Quem acompanha os discursos de Bannon pode imaginar que o líder húngaro é o alvo da admiração do provocador americano, que busca ajudá-lo.

Bannon chamou Orban de “Um Trump antes de Trump". De sua parte, Orban tenta ser tão transformador e polêmico quanto o presidente americano, e espera que a eleição europeia de 2019 possa ajudá-lo a formar uma maioria no parlamento europeu e, nas suas palavras, “despedir-se não apenas da democracia liberal e do sistema antidemocrático erguido sobre suas bases, mas também a toda a elite de 1968".

A nova fundação de Bannon promete oferecer as bases políticas, pesquisas de opinião e apoio estratégico para os partidos eurocéticos de todo o continente. Essa é a responsabilidade assumida por Orban. Desde 2015, o governo da Hungria vem realizando pesquisas de opinião regulares em uma dúzia de países europeus, e Orban tem participado abertamente das campanhas de aliados de direita (com resultados variados) em países como Eslovênia e Macedônia.

Há muitas semelhanças entre o consultor americano convertido em ideólogo e o liberal húngaro convertido em ultraconservador. Os dois têm uma mentalidade messiânica; ambos estão obcecados com aquilo que percebem como uma crise espiritual do Ocidente; aos dois sobram autoconfiança e ambição.

O que realmente aproxima Bannon e Orban não é apenas o fato de enxergarem na União Europeia uma inimiga a ser destruída, mas também sua crença na revolta populista como uma revolução cultural. Uma semana depois de Bannon anunciar seus planos para o Movimento, Orban declarou que os eleitores lhe conferiram um “mandato para erguer uma nova era”, completando que “uma era é uma realidade cultural especial e característica". De maneira semelhante, o editor de extrema direita Andrew Breitbart, mentor de Bannon, insistia que “a cultura flui para a política".

Ainda que a admiração mútua seja importante, ela não explica por si só este eixo húngaro-americano. 

Há também razões puramente táticas. Do ponto de vista de Orban, Bannon tem muito a oferecer:

Primeiro, Bannon pode ajudar Orban a convencer os populistas da Europa Ocidental que não há nada de errado em ter como líder do movimento o primeiro ministro de um pequeno país do Leste Europeu. O apoio de Bannon pode coroar Orban como o homem de Trump na Europa.

Segundo, a presença de Bannon pode proteger a extrema direita europeia da suspeita segundo a qual os eurocéticos seriam apenas marionetes de Vladimir Putin, um instrumento dos planos do Kremlin para destruir a União Europeia. Para a extrema direita europeia, não seria melhor associar-se a um radical americano do que ao presidente russo?

Terceiro, a experiência de Bannon na guerra contra a chamada grande mídia pode ser muito útil. De acordo com uma pesquisa de opinião recente da Pew, a suspeita em relação à grande mídia é a característica que distingue o eleitor populista europeu. Ninguém sabe aprofundar essa desconfiança como Bannon.

Finalmente, Orban pretende fazer da eleição parlamentar europeia de 2019 um referendo da imigração e do Islã - dois assuntos que animam muitos eleitores conservadores. Mas talvez não seja tão fácil. 

Nos doze meses mais recentes, a entrada de imigrantes na Europa diminuiu muito, e a maioria dos partidos da direita - e até alguns da esquerda - adotou uma versão branda da política de fronteiras fechadas almejada pelos centro-europeus. Assim, Orban precisa de Bannon para dizer aos europeus que apenas a extrema direita sabe como lidar com a imigração.

Será que alguma parte disso vai funcionar?

É possível que a tarefa de unir a extrema direita europeia se revele impossível. Ainda que partidos antiestablishment de todo o continente partilhem de ideias parecidas em relação a temas como imigração, União Europeia e casamento gay, é difícil unir esses nacionalistas quando a questão envolve detalhes políticos.

E a iniciativa europeia de Bannon já está criando mais cismas que alianças. Jérôme Rivière, um dos líderes da Frente Nacional francesa, expressou a surpresa e desgosto de muitos líderes da extrema direita da Europa Ocidental. “Rejeitamos qualquer identidade supranacional e não participaremos da criação de nada com o envolvimento de Bannon", disse ele. Alexander Gauland, líder da Alternativa para a Alemanha, de extrema direita, também se mostrou cético. “Não vejo nenhuma oportunidade interessante de cooperação", disse Gauland. “Não estamos nos Estados Unidos.” Parte do problema pode ser o fato de Trump ser muito impopular na Europa, fazendo com que muitos na direita nacionalista abominem a ideia de qualquer associação com o nome dele.

Os dois aliados também estão enganados na sua avaliação ao pensarem que a eleição parlamentar europeia poderia ser um ponto de ruptura para o projeto europeu. Ainda que os eurocéticos tenham apresentado desempenho surpreendente nas eleições anteriores, pesquisas de opinião recentes indicam que, em muitos países, o crescimento do populismo levou a uma mobilização pró-Europa. Dessa vez, parece mais provável que as urnas fiquem com os defensores da União Europeia.

Se Orban apostar seu futuro na estratégia de Bannon, é importante lembrar que Bannon nem sempre sai vitorioso. Numa eleição especial para uma vaga no senado no Alabama em 2017, Bannon defendeu o candidato de extrema direita Roy Moore - que perdeu um dos assentos mais garantidos num reduto dos republicanos. E seria de se imaginar que Bannon entende mais dos contornos políticos do Sul Americano do que dos europeus. Ironicamente, os defensores da Europa têm bons motivos para receber 

Bannon no continente europeu.

Ivan Krastev é presidente do Centro para Estratégias Liberais, pesquisador permanente do Instituto de Ciências Humanas, em Viena, e autor de “After Europe”.

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