Jacques Demarthon/Agence France-Presse-Getty Images
Jacques Demarthon/Agence France-Presse-Getty Images

Ex-ministro de Chávez admite ter recebido mais de 1 bilhão de dólares em propinas

Alejandro Andrade, ex-tesoureiro do governo da Venezuela, ostentava jatinhos, cavalos e iates

Nicholas Casey, The New York Times

29 de novembro de 2018 | 06h00

O estilo de vida da família Andrade era tão espetacular quanto o colapso econômico do país que ela deixou para trás.

Imigrantes venezuelanos, os integrantes destas famílias viviam em uma mansão na Flórida cercada por cavalos para exibição. O patriarca, Alejandro Andrade, era um guarda-costas do presidente Hugo Chávez antes de ascender a posições de grande poder no seu governo. Andrade foi condenado por receber propinas como tesoureiro da Venezuela, em um esquema de lavagem de dinheiro que o tornou bilionário.

A Venezuela enfrenta a sua pior crise econômica da história moderna. A inflação e a devastadora escassez de alimentos e medicamentos obrigaram mais de três milhões de pessoas a deixarem o país, segundo a ONU.

Mas entre os que deixaram a Venezuela há um pequeno grupo que acumulou fortunas incalculáveis, como alguns integrantes do governo, empresários bem relacionados e altas patentes militares que embolsaram bilhões de dólares. Muitos afirmam que a corrupção profundamente arraigada provocou o colapso do país.

Os beneficiários têm até mesmo um nome: os “boliarcas”, que descreve a nova oligarquia surgida na “Revolução Bolivariana” de inspiração socialista implantada por Chávez.

“Como é possível que um funcionário do governo tenha 60 cavalos?” disse Franklin Hoet-Linares, advogado venezuelano que mora perto da casa de Andrade em West Palm Beach, na Florida.

O acordo assinado por Andrade, em que confessa seus crimes, e uma intimação em que estão especificadas as propinas que recebeu, foram reveladas recentemente no Tribunal Distrital da Florida. Elas oferecem uma visão de como a elite da Venezuela acumulou fortunas antes de fugir para o sul da Florida.

Andrade recebeu propinas impressionantes, como três jatinhos particulares, um iate, cavalos e “numerosos relógios extremamente caros”, afirmam documentos. Em sua declaração de culpa, Andrade admitiu ter recebido mais de 1 bilhão de dólares em subornos.

Autoridades americanas também impuseram sanções este ano a Diosdado Cabello, um dos políticos mais poderosos da Venezuela, acusando-o de tráfico de drogas, extorsão e apropriação indébita de dinheiro público. O ministro do Interior e da Justiça, Nestor Reverol, está sendo investigado por receber pagamentos para ajudar os traficantes a transportarem cocaína. E o círculo mais próximo do presidente Nicolás Maduro, inclusive a sua esposa e o ministro da Defesa, “saquearam sistematicamente o que resta da riqueza da Venezuela”, afirmam funcionários americanos.

A ação contra Andrade foi montado em torno do processo de outro bilionário venezuelano, Raúl Gorrín, que é dono da rede Globovisión e mora em Miami. Gorrín pediu a Andrade que o ajudasse a garantir os lucrativos direitos para realizar operações de câmbio em moedas fortes para o governo venezuelano, segundo documentos federais.

Quando Andrade recebeu a conta de 174,8 mil dólares para o transporte dos seus cavalos, ele a enviou a Gorrín, que pagou a fatura com a sua conta pessoal em um banco da Suíça. Em 2012, Gorrín fez pela internet uma transferência de 20 milhões de dólares de um banco suíço para a compra de um avião para Andrade, segundo o acordo de confissão de Andrade. Gorrín enfrenta acusações separadas.

Andrade perdeu seus bens e ele aguarda uma pena máxima de 10 anos de prisão. Na Venezuela, ele era conhecido pelo apelido de “Zarolho”, por causa de uma história notória; Chávez o atingiu involuntariamente no olho em um jogo de beisebol. Em 2012, pouco antes de Chávez morrer de câncer, Andrade se mudou para a Flórida.

Lá, ele tinha uma fantástica coleção de cavalos com nomes exóticos como Bon Jovi, e Hardrock Z. A rotina diária do filho de Andrade, Emanuel, que participava de competições de jumping, está registrada no Instagram, onde é possível ver fotos que exibem um estilo de vida milionário com eventos em Londres e Madri.

Embora o confisco dos bens de Andrade seja um passo na direção certa, segundo o advogado Hoet-Linares,  não é suficiente.

“A coisa mais perversa a respeito da corrupção venezuelana é que o dinheiro que eles recebem em transações internacionais e nos EUA não vai para o Tesouro da Venezuela”, afirmou.

Saran Maslin Nirr contribuiu para a reportagem.

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