Federico Rios Escobar para The New York Times
Federico Rios Escobar para The New York Times

Ex-rebeldes da Colômbia voltam a pegar em armas

Antigos combatentes das Farc estão se unindo a grupos paramilitares e ameaçando a paz no país

Nicholas Casey e Federico Rios Escobar, The New York Times

26 Setembro 2018 | 15h15

Sob uma bandeira colombiana rasgada numa colina batida pelo vento, um grupo improvisado de guerrilheiros se reúne. A um deles falta um braço. A outro, uma perna. Um comandante que mal sabe ler e responde pela alcunha de "Poeta" conta de um recente combate contra um esquadrão paramilitar nas colinas da região.

O grupo de combatentes diz integrar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou Farc, que depuseram suas armas depois da assinatura de um acordo de paz em 2016. 

Os acordo de paz assinados em 2016 pelo então presidente Juan Manuel Santos e pelos rebeldes deveriam colocar um ponto final em cinco décadas de conflito que deixaram pelo menos 220 mil mortos e obrigaram quase 6 milhões de pessoas a abandonar seus lares. Mas, por trás do acordo, havia um temor: a possibilidade de muitos dos milhares de combatentes beneficiados com a anistia do pacto cansarem da vida civil e retomarem as armas. Isso já aconteceu.

"Estamos fazendo o mesmo trabalho, temos os mesmos ideais de antes - e, com a graça de Deus, seguiremos avançando", disse um comandante de 25 anos que atende por Maicol.

Esses guerrilheiros dissidentes convidaram a reportagem do New York Times para uma visita ao seu acampamento, escondido nas montanhas ao norte de Medellín, para contar sua motivação para abandonar o acordo de paz. Mas, muito antes da visita, esse acordo já dava sinais de desgaste.

O governo, que prometeu chegar aos territórios rebeldes atrás das linhas das Farc, trazendo serviços de saúde e educação, além de água potável, parece ausente em todo o país. O presidente da Colômbia, Iván Duque, fez campanha contra o acordo e agora diz que vai revisá-lo.

Centenas - ou até milhares - de combatentes das Farc resistiram ao acordo. A fundação Insight Crime, que rastreia os grupos do crime organizado, estima que haja até 2.800 combatentes das Farc, ou seja, cerca de 40% do número de combatentes antes do acordo de paz.

Um tema em comum unia os relatos dos combatentes no acampamento das Farc: embora o governo tenha prometido uma nova vida civil a partir dos acordos, eles se viram ameaçados por uma série de grupos paramilitares que correram para assumir o controle do território abandonado pelos rebeldes. Pelo menos 75 ex-guerrilheiros foram mortos desde 2016, de acordo com o partido político fundado pelos guerrilheiros desmobilizados.

Alguns dos rebeldes passaram a usar insígnia do Bloco Virgilio Peralta Arenas, grupo mafioso acusado pelas autoridades de matar civis e traficar drogas.

O grupo já combateu as Farc, mas os rebeldes dizem, agora, trabalhar em conjunto para garantir a proteção mútua. Isso pode significar que os rebeldes ficarão mais parecidos com uma gangue do crime organizado do que com o exército revolucionário marxista da época de sua fundação, no início dos anos 1960.

"É apenas parte da trágica história da Colômbia - na ausência de um estado legítimo, um modo de violência se transforma em outro", disse Cynthia J. Arnson, diretora do Centro Woodrow Wilson.

Muitos, como o ex-comandante Julián Gallo Cubillos, dizem compreender a motivação dos rebeldes para seguir na luta, levando em consideração os perigos que enfrentam como civis.

"Temos que respeitar sua decisão", disse ele, acrescentando que os rebeldes das Farc "nunca alcançaram o objetivo que almejamos".

Recentemente, o ministro da defesa da Colômbia, Guillermo Botero, disse que "as Farc dissidentes de espalharam muito além do que se comenta, e estão em processo de crescimento". Ele também fez um alerta aos dissidentes.

"Nossas forças armadas vão retomar seu caráter combativo", disse.

Trata-se de uma rebelião mais pobre que a anterior. As antigas Farc eram financiadas pelos impostos que cobravam sobre a colheita de coca. A área na qual este grupo opera tem poucas plantações e nenhuma mina de ouro ilegal.

Muitos combatentes carecem de uniformes. Alguns dormem no chão por falta de redes.

"Sim, passamos fome e sofremos muito, mas temos clareza em relação ao que temos de fazer", disse um combatente que usa a alcunha de Piscino.

Esta nova rebelião na Colômbia pode crescer, ser esmagada ou perder força gradualmente. É provável que o futuro seja difícil - mas não importa, disse Piscino, que perdeu a mão esquerda por causa de uma mina terrestre. Para ele, são sacrifícios necessários.

"Os que pegaram em armas novamente estão prontos para morrer nessa luta", acrescentou.

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