Daro Sulakauri para The New York Times
Daro Sulakauri para The New York Times

Ex-república soviética aposta alto no futuro do bitcoin

Incentivos fiscais e energia barata estimulam mineração por criptomoeda na Geórgia

Liz Alderman, The New York Times

05 Fevereiro 2019 | 06h00

TBILISI, GEÓRGIA - Faz três anos que um armazém na periferia da cidade funciona sem parar, consumindo energia suficiente para quase 50 mil lares. O armazém, bem como dúzias de contêineres de carga, estão gerando bitcoins, a criptomoeda que criou uma corrida do ouro virtual na Geórgia.

A empresa de tecnologia Bitfury, que opera no segmento dos bitcoins, está ganhando milhões de dólares com dinheiro digital usando a energia hidrelétrica ultrabarata gerada pelas águas que correm dos cumes do Cáucaso. Milhares de georgianos entraram no jogo e venderam carros - e até vacas - para comprar computadores e minerar bitcoins, participando de um ímpeto estatal pela supremacia nos dados.

Um ex-primeiro-ministro incentivou a vinda da Bitfury, então sediada em San Francisco, com um empréstimo de 10 milhões de dólares em 2015. O governo vendeu 45 acres à Bitfury por um dólar para que a empresa se instalasse. O governo está vendendo energia à metade do preço cobrado nos Estados Unidos e Europa, e criou zonas francas para atrair empreendedores do setor de tecnologia.

O experimento deve enfrentar desafios conforme o preço do bitcoin segue caindo. A maioria das empresas tende a perder dinheiro quando o valor do bitcoin fica abaixo do custo da energia, e as operações de mineração do mundo todo estão diminuindo seu alcance. Mas a Geórgia está apostando o futuro da sua economia na ideia de atrair a tecnologia do blockchain, a capacidade de armazenamento criptografada por trás de todas as transações com criptomoedas.

A Bitfury ajudou na migração da maior parte das escrituras de terras da Geórgia para o blockchain, fazendo do governo um dos primeiros a depender da verificação matemática digital. O sistema de tributação pode ser o próximo. “A transformação digital da economia é nossa grande prioridade", disse o ministro da economia, George Kobulia. “Estamos promovendo isso de todas as maneiras possíveis.”

Dentro do armazém da Bitfury em Tbilisi, 160 tanques hermeticamente fechados com chips de alta eficiência energética e um líquido refrigerador especial trabalham furiosamente na solução das complexas fórmulas matemáticas do blockchain. Cada resposta correta rende um bitcoin, e estimativas da indústria indicam que a empresa minera pouco mais de cerca de 5% de todos os bitcoins.

Quando a Bitfury se instalou na Geórgia, um bitcoin valia cerca de 350 dólares. Esse valor aumentou vertiginosamente para quase 20 mil dólares antes de cair para os cerca de 3.400 dólares. Participantes maiores como a Bitfury têm lastro suficiente para manter suas operações. Mas os investidores menores são muito mais vulneráveis.

Em toda a Geórgia, estima-se que 200 mil tenham comprado computadores para minerar. “A maioria das pessoas que compraram a ideia pensou que os preços altos durariam para sempre", disse George Kirvalidze, morador de Kvareli.  “Houve um momento em que essa atividade era mais lucrativa do que ser dono de uma vaca", disse ele. “Mas, agora, não tenho mais tanta certeza disso.”

Para os críticos, o subsídio do governo oferecido a empresas como a Bitfury é injusto com os contribuintes, obrigando-os a arcar com o custo de operação de empresas desse tipo. Mas, apesar do ímpeto digital, nem mesmo o governo está apostando tudo nas criptomoedas, levando em consideração seu futuro incerto. “A Geórgia é interessante para os mineradores de criptomoedas", disse Kobulia. “Mas não sei se isso poderia representar uma fonte importante do nosso crescimento econômico.”

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