Zoltan Mathe/EPA, via Shutterstock
Zoltan Mathe/EPA, via Shutterstock

Excesso de embarcações traz perigo ao rio Danúbio

Estudo alertou que aumento no número de navios-hotéis 'levou a numerosos pontos de tensão', entre eles a superlotação da via aquática

Marc Santora e Benjamin Novak, The New York Times

21 de junho de 2019 | 06h00

BUDAPESTE- Muito antes do pior acidente náutico da Hungria em pelo menos seis décadas, as autoridades húngaras tinham sido alertadas para o fato de o tráfego no Danúbio ter alcançado níveis perigosos perto de Budapeste, mas o governo nada fez para limitar o número de embarcações na água. Na noite de 29 de maio, em meio a uma tempestade perto da Ponte Margaret, em Budapeste, um cruzeiro internacional, chamado Viking Sigyn, colidiu contra um barco turístico menor, o Mermaid, afundando-o e matando 28 pessoas.

O acidente trouxe preocupações nos níveis municipal e nacional, com o turismo transformado em uma importante fonte de renda, envolvido em cálculos políticos e em uma busca pelo lucro que sobrepujou as preocupações com a segurança. O governo nacional e a prefeitura, ambos controlados pelo partido Fidesz, do primeiro-ministro Viktor Orban, poderiam ter agido para limitar o número de embarcações operando em Budapeste. A agência nacional de turismo concede licenças a barcos turísticos, enquanto o municípios controla o acesso às docas.

“As autoridades municipais foram alertadas para os riscos do tráfego exagerado", lembrou Gabor Demszky, ex-prefeito de Budapeste. “Mas ninguém agiu. Trata-se de um negócio muito lucrativo”. O Mermaid transportava 33 turistas da Coreia do Sul e dois tripulantes. O capitão do cruzeiro, identificado apenas como Yuriy C., ucraniano, de 64 anos, foi detido por suspeita de negligência. Mas, além da questão da falha humana, faz tempo que as pessoas apontam para os riscos do tráfego mais intenso no rio - principalmente à noite, quando os barcos turísticos ofereces vistas espetaculares da cidade.

Um estudo de desenvolvimento encomendado em 2013 pela cidade alertou que o aumento no número de navios-hotéis “levou a numerosos pontos de tensão", entre eles a superlotação da via aquática. Esse ano, um estudo de desenvolvimento do transporte preparado pela Secretaria de Transportes de Budapeste apontou que mais “cooperação é necessária entre as embarcações profissionais e turísticas na região de Budapeste” cortada pelo Danúbio.

A agência húngara de turismo disse que o país atende a todas as regulamentações internacionais envolvendo o rio, incluindo aquelas voltadas para a navegação segura de embarcações de maior porte. Mas navios-hotéis, como o Viking Sigyn, de 135 metros, precisam disputar espaço com barcos turísticos como o Mermaid, de quase 30 metros, construído na era soviética, e também com balsas de transporte industrial, restaurantes ancorados permanentemente e outras estruturas flutuantes.

O Danúbio se estende por três mil quilômetros, da Alemanha até o Mar Negro, passando por 10 países. Um estudo financiado em parte pela Comissão Europeia divulgado em abril de 2018 revelou que o movimento no Danúbio, medido na fronteira entre Alemanha e Áustria, aumentou 89% de 2002 a 2017. Também indicou que o número de cruzeiros no rio aumentou mais de 100% entre 2004 e 2017, chegando a 346 navios com 50.616 leitos.

Representantes da indústria apontaram que os cruzeiros continuam entre os meios de transporte mais seguros do rio, com um histórico de acidentes mais impressionante que o da indústria aérea, mas o capitão David Szekeres, de 47 anos, que treina marinheiros, disse que nem todos os timoneiros são capacitados para a tarefa, em parte porque o processo de obtenção de licenças foi enfraquecido. “Não é preciso saber nada a respeito de navegação", afirmou. “Basta saber exatamente quais são as respostas para passar no exame”.

Seja qual for a conclusão dos investigadores, nada deve afetar o aspecto apontado por quem conhece o Danúbio como cerne do problema. “Para o meu gosto, está lotado demais", disse Szekeres. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.