Canalize toda a raiva no exercício físico
Erik Vance, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 05h00

Quando eu estava no Ensino Médio, não era particularmente um indivíduo atlético. Costumava ficar no banco do time de beisebol de juniores e desisti do time de basquete dos calouros depois de duas semanas.

E no entanto, ainda queria encontrar um esporte adequado para mim, então escolhi a escalada. Tampouco me saí bem, mas eu gostava da sensação que me proporcionava. Parecia que ela me ajudava a me concentrar. Às sextas-feiras, eu me tornava uma mistura distraída de hormônios e angústia de adolescente. Aos domingos, eu me pendurava apavorado a mais de 24 metros do chão, e na segunda-feira os trabalhos de escola pareciam mais fáceis. Como algo tão assustador pode fazer com que o mundo pareça menos caótico e estressante?

Não há dúvida de que o exercício é bom para o coração e para a saúde mental. Ou que atividades que favorecem a calma como yoga e tai chi podem ajudar a nos sentirmos renovados e recarregados. Mas, e as atividades menos calmas? Será que fazer parkour saltando de um telhado ou bater numa bola de tênis em uma quadra é bom para a mente?

Os psicólogos tradicionais do exercício poderão dizer não, porque qualquer coisa que aumente os hormônios do estresse, seja pelo medo ou pela agressão, não é bom para a saúde mental. Estudos menores reforçaram esta convicção; um deles sugeria que “a natureza competitiva” do squash é menos relaxante do que exercícios de peso ou de circuito, enquanto outro constatou que acrescentar o estresse a um exercício de bicicleta compromete a função imunológica. E certamente este ano de Olimpíadas foi uma lição sobre os perigos de estressar excessivamente atletas de elite dentro e fora do campo.

Mas isto não significa que emoções como o estresse ou agressão não tenham lugar no exercício. Quase todo atleta apaixonado pelo esporte dirá que o seu esporte é uma ajuda mental e física, ao mesmo tempo. Você precisa limpar a mente, pôr pra fora um pouco da pressão. Para alguns, estas emoções aparentemente negativas durante o exercício são a única razão para se fazer exercício.

Ficar apavorado é uma boa habilidade para a vida

Pode parecer estranho que, para mim, a melhor maneira de lidar com o estresse seja basicamente inundar o meu cérebro com ele, mas sem coisas como escaladas ou andar de caiaque, acho que eu não poderia superar estes últimos 17 meses.

Os esportes de adrenalina há muito são conhecidos dos veteranos de guerra que lidam com o distúrbio do estresse pós-traumático. Um grupo de cientistas alemães criativos experimentou também a escalada em rochas como uma forma de terapia contra a depressão. Os resultados foram moderadamente bons, mas o simples fato de os cientistas escolherem a escalada sugere alguns benefícios emocionais do medo. Por mais estranho que pareça, o medo pode ser profundamente terapêutico.

Omer Mei Dan, cirurgião ortopedista de Boulder, pesquisador e ex-saltador profissional de base-jumping, e Erik Monasterio, psicólogo forense da Universidade Otego da Nova Zelândia e desde sempre alpinista, tentaram durante anos entender o papel que as personalidades do atletas de elite extremos exercem na hora de escolher arriscar a própria vida e depois processar estas experiências. Eles constataram repetidas vezes que para as pessoas que escalam ou saltam de penhascos como forma de trabalho têm pontuação alta em sua necessidade de buscar coisas novas e uma prepocupação “patologicamente” baixa com a possibilidade de se lesionarem.

“Elas precisam se superar, elaborando uma rota realmente difícil na escalada, no windsurfe, tentando algum novo truque”, disse o dr. Monasterio. Ele e o dr. Mei Dan sugeriram até mesmo que estes traços de personalidade conferem algum tipo de resistência a traumas psicológicos.

Para alguns, eles afirmaram, é possível que experimentar o medo e o estresse ao voar em um half pipe com o seu skate ou saltando de um avião treine seu cérebro para lidar com estas emoções em outros momentos da vida.

Liberar alguma energia represada

Os psicólogos antigamente consideravam a mente humana como um tubo ou uma mangueira que ocasionalmente se entope com as emoções, e que as pessoas precisam liberar a pressão para se manterem saudáveis. A "teoria da catarse", como era conhecida, dizia que se você está com raiva, deve sair e martelar alguns pregos.

Este conceito não ajudou muito, em parte porque os pesquisadores constataram que quando pessoas zangadas se aliviam martelando pregos, frequentemente voltarão a se sentir igualmente iradas (ou mesmo mais furiosas) do que antes. E, no entanto, a catarse é real; é um bom choro assistindo a um filme triste ou mesmo uma noite comendo os tacos mais apimentados que se pode suportar. Chorar, particularmente, pode nos ajudar a processar as emoções e a liberar a ansiedade, disse Lauren M. Bylsma, especialista em emoções na Universidade de Pittsburgh. E é por isso que os atletas devem sentir-se bem depois de um jogo competitivo ou uma assustadora prova de esqui.

“Quando você tem um grau elevado de emoção e depois tem aquela descarga, ela pode proporcionar essa experiência catártica e você sente esta liberação da tensão”, ela disse. “Eu vi a aplicação disto não apenas ao choro ou à tristeza, mas também ao medo”.

Às vezes um pouco de agressividade pode ajudar

Então, como explicar as emoções negativas que nos ajudam, ocasionalmente, a limpar nossas mentes?

“Não podemos separar claramente as emoções em positivas ou negativas”, disse Abigail Marsh, professora adjunta de psicologia da Georgetown University e autora de The Fear Factor: How One Emotion Connects Altruists, Psycopaths, and Everyone In Between (O fator medo: Como uma emoção conecta altruistas, psicopatas, e todos as pessoas entre estas, em tradução livre). “A raiva, para algumas pessoas, é descrita como um sentimento negativo. Mas outras a descrevem como um sentimento positivo”    .

Isto não poderia ser mais óbvio nos esportes competitivos juvenis, que a dra. Marsh chamou de “uma forma de agressão formalizada, culturalmente aceita”. Há pais que colocam filhos desobedientes no futebol americano, no caratê ou na luta livre na esperança de que de certo modo encontrem um equilíbrio. Mas será que isto funciona?

Muitos estudos ao longo dos anos mostraram que os jovens, frequentemente homens, que participam de esportes agressivos tendem a aprovar a violência, e até mesmo a recorrer a ela com maior frequência do que pessoas que se dedicam a outros esportes ou que não são atletas. Mas Mitch Abrams, psicólogo dos esportes de Tinton Falls, Nova Jersey, e especialista em controle da raiva no atletismo, disse que isto é um tanto exagerado.

Para algumas pessoas, segundo ele, usar os sentimentos agressivos em um esporte pode ajudar a controlar os seus sentimentos. Ele inclusive ocasionalmente prescreve atividades agressivas como as artes marciais, como uma maneira de enfrentar o trauma. Mas ele também é cauteloso e não prescreve isto a pessoas com surtos de raiva, afirmando que é preciso um certo grau de maturidade para controlar a agressividade.

“Existe um risco”, ele disse. “Se você se sente melhor depois de bater em alguma coisa, provavelmente poderá bater em alguma coisa novamente no futuro”.

Descansar e digerir

O fio mais importante que liga as emoções intensas ao exercício pode ser menos a psicologia e mais a biologia. Tanto o medo quanto a agressão fazem disparar o sistema nervoso simpático - a chamada resposta de luta ou fuga.

Ao fazer isto, então podem desencadear o sistema nervoso parassimpático também chamado "descansar e digerir". As respostas do sistema simpático são definidas por elevado nível de cortisol, hipertensão e batimentos cardíacos acelerados, suor e pupilas dilatadas. Por outro lado, as reações do parassimpático provocam baixas pressão e batimentos cardíacos, aumento do metabolismo e, o que é muito importante, uma limpeza do cortisol pelo sistema. É a profunda calma, quase espiritual, que vem depois da tempestade.

O dr. Monasterio disse que precisou de alguns anos fazendo escalada na adolescência para identificar isto. “Na época, eu não me dava conta do que estava me ligando - que é esta calma que se seguia ao exercício extremo”.

As respostas do parassimpático são difíceis de ser estimuladas, embora alguns afirmem que exercícios de respiração e meditação possam produzi-las. Mas a maneira mais simples de chegar àquela calma é estimular uma resposta de luta ou fuga. Alejandro Lucas Mulas, pesquisador da European University de Madri, que estudou o sistema parassimpático nos esportes, constatou que a sensação depois de um exercício intenso pode durar  horas, tornando a pessoa mais calma, mais feliz e menos propensa a explodir ou a se estressar.

Recentemente, descobri o prazer de me exercitar com um boneco de boxe (com um rosto particularmente bom de socar), o que me dá uma sensação de liberação como a escalada, mas que pode ser feito mais perto de casa. Será que estou perseguindo uma resposta do parassimpático? Será que procuro a emoção ou busco a pós-emoção? No final, não está claro se a ciência já tem a resposta clara.

Com certeza, quando estou apavorado em cima de uma rocha em algum lugar, não estou me divertindo muito naquele momento, mas apenas tentando desesperadamente buscar a segurança. Somente mais tarde, cansado e um tanto massacrado, olhando o topo das montanhas ao pôr do sol, posso realmente desfrutar da escalada. E volto andando pela trilha, totalmente cansado, e sorrindo, relaxado, pronto para encarar a semana que tenho pela frente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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