Exército britânico, via The New York Times
Exército britânico, via The New York Times

Exército britânico quer recrutar jovens com 'falhas de caráter'

Com anúncios similares aos da Primeira Guerra Mundial, uma campanha afirma que defeitos ou fraquezas podem ser um diferencial entre os militares

Palko Karasz, The New York Times

30 de janeiro de 2019 | 06h00

LONDRES - É madrugada num lar britânico. Em meio à escuridão, as luzes coloridas de um jogo eletrônico iluminam o rosto de um adolescente, com o olhar fixo na tela. "Não consigo tirá-lo do jogo", diz o pai dele. "Passa a noite inteira assim". A imagem, então, corta para mostrar soldados numa missão noturna, enquanto um narrador diz: "Resistência: não subestime essa qualidade".

Este é um dos muitos novos anúncios de recrutamento divulgados pelo exército britânico no mês passado, retratando como qualidades os rótulos depreciativos aplicados aos jovens. Em pronunciamento, o exército disse enxergar "compaixão nos 'sensíveis', confiança nos 'mimimi-llennials' e determinação nos 'maratonistas de games'".

Apelando às ansiedades das pessoas que vivem no mundo digital - e seus pais -, a campanha diz que traços frequentemente apontados pela sociedade como defeitos de caráter ou fraquezas podem ser considerados vantajosos no exército.

"Compreendemos a determinação deles em alcançar o sucesso e reconhecemos sua necessidade de um propósito maior, um trabalho em que possam fazer algo significativo", disse o major-general Paul Nanson, encarregado do recrutamento.

A campanha de recrutamento faz parte de uma iniciativa de 10 anos do exército britânico para manter suas operações em todo o mundo e desenvolver suas capacidades para o futuro. Mas, com os países europeus diante de uma crescente ameaça por parte da Rússia, a Grã-Bretanha e seus aliados da Otan se veem diante de restrições orçamentárias e um número cada vez menor de soldados de prontidão.

Em meados do ano passado, o exército tinha 5.600 soldados a menos do que o considerado necessário, principalmente entre as especialidades técnicas, e a meta de 112 mil soldados só será alcançada em 2020, de acordo com relatório do Gabinete Nacional de Auditoria. Como resultado, é possível que o exército "exija mais do pessoal existente para manter as operações, limitando sua capacidade de desenvolver as habilidades desejadas para o futuro".

Com o slogan "Seu exército precisa de você", a nova campanha publicitária evoca o recrutamento de mais de cem anos atrás, na época da Primeira Guerra Mundial, cujo lema era "Seu país precisa de você", impressa em cartazes mostrando o marechal de campo Lorde Kitchener, de bigode e expressão austera, apontando o dedo para o leitor.

A imagem do exército britânico enquanto força e empregador foi desgastada - a guerra no Iraque foi impopular, o número de soldados é atualmente baixo, e outras oportunidades de emprego são possíveis, com o desemprego num ponto historicamente baixo.

Além disso, os exames médicos, avaliações e entrevistas podem se estender por um ano antes que os recrutas possam iniciar o treinamento.

Um dos novos anúncios para a TV mostra uma mulher empurrando carrinhos de supermercado num estacionamento, enquanto as colegas comentam o quanto ela é lerda no trabalho. "Esse pessoal da geração Y é inútil", diz uma colega, antes de a imagem cortar para o cockpit de um helicóptero militar, com uma voz no rádio dizendo "Parece coisa de perfeccionista".

Alguns criticam a campanha por tentar explorar os jovens em momentos de estresse em vez de oferecer a eles oportunidades. Em meados do ano passado, de acordo com reportagem do Guardian, o exército pagou por anúncios nas redes sociais voltados para um público de 16 anos quando este recebia os resultados de um exame nacional indicando de poderiam avançar nos estudos.

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