Felipe Caicedo/Agence France-Presse - Getty Images
Felipe Caicedo/Agence France-Presse - Getty Images

Exército colombiano mostra sede de sangue em novas operações

Oficiais disseram que um padrão de assassinatos suspeitos e encobrimentos começaram a surgir este ano

Nicholas Casey, The New York Times

22 de maio de 2019 | 06h00

BOGOTÁ, COLÔMBIA - O chefe do exército da Colômbia, frustrado com a dificuldade nos esforços do país na busca pela paz, ordenou aos seus soldados que dobrem o número de criminosos e militantes mortos, capturados ou rendidos em batalha - possivelmente aceitando mais baixas entre civis nesses processo, de acordo com ordens escritas e entrevistas com oficiais de alta patente.

Após reportagem do New York Times, o exército colombiano recuou em parte das ordens. Uma porta-voz do exército disse que a promessa de dobrar tais esforços seria "objeto de algumas modificações" em razão de "possíveis interpretações errôneas". A porta-voz não disse quais seriam as mudanças.  

Uma ordem que aparentemente ainda está em vigor orienta soldados a não “exigir perfeição” na execução de ataques mortais, mesmo que haja questões significativas em relação aos alvos. Alguns oficiais afirmam que instruem soldados a reduzir seus padrões para evitar a morte de civis inocentes, e que isso já resultou em mortes suspeitas desnecessárias.  

No início do ano, generais e coronéis colombianos foram reunidos e receberam ordem para assinar um documento prometendo por escrito intensificar os ataques. Apresentações internas diárias mostram agora o número de dias que as brigadas passaram sem combater, e os comandantes são repreendidos quando não realizam operações ofensivas com a frequência desejada, disseram os oficiais.

O exército tentou uma estratégia semelhante para derrotar os grupos rebeldes e paramilitares da Colômbia em meados da década de 2000, antes que a assinatura de um acordo de paz histórico pusesse fim a décadas de conflito.

Mas as táticas empregadas causaram indignação quando se soube que, pressionados para cumprir cotas, os soldados se envolveram em massacres indiscriminados contra civis, resultando em muitos desaparecidos. Agora, outra encarnação dessa política é promovida pelo novo governo contra os grupos restantes de paramilitares, guerrilheiros e criminosos. As novas ordens fizeram gelar a espinha do exército. As forças armadas da Colômbia ainda estão sob investigação por causa da série e assassinatos ilegais cometidos em meados da década de 2000, conhecidos como “falsos positivos".

Os soldados mataram camponeses e alegavam que os corpos eram de guerrilheiros, chegando a vesti-los com uniformes e a plantar armas ao lado dos cadáveres. A tática resultou da pressão dos superiores por mais baixas, dizem os promotores. Dois dos oficiais entrevistados pelo Times que soldados colombianos estavam novamente sob intensa pressão - e casos de mortes suspeitas e acobertamentos começaram a vir à tona este ano.

Em reunião relatada por um dos oficiais, um general ordenou a seus comandados que fizessem “tudo que for necessário” para melhorar seus resultados, nem que isso signifique “alianças” com grupos criminosos armados para obter informações a respeito dos alvos desejados, seguindo uma estratégia de dividir para governar. Além disso, disseram os oficiais, os soldados que apresentam número crescente de mortes em combate recebem incentivos, como folgas. “Voltamos ao que estávamos fazendo antes", disse um dos oficiais.

O general de brigada Nicacio Martínez Espinel, supremo comandante do exército da Colômbia, admitiu ter dado as novas ordens e orientar os oficiais a definirem objetivos concretos para a morte, captura ou rendição de grupos criminosos e militantes. Disse ter emitido a ordem por escrito instruindo os comandantes a “dobrarem os resultados” por causa da ameaça que a Colômbia continua enfrentando por parte de organizações guerrilheiras, paramilitares e criminosas.

“Se mantivéssemos o ritmo anterior, não completaríamos nossos objetivos". Ainda assim, o general questionou a interpretação de suas instruções por parte dos oficiais. Reconheceu que as ordens instruem os comandantes a realizar operações mesmo quando ainda há incertezas em relação aos alvos, mas disse que as instruções se referiam à fase de planejamento das missões, e não à sua execução. “O mais importante é o respeito aos direitos humanos”, disse ele. Mas a própria ordem diz: “Operações devem ser realizadas com credibilidade ou exatidão de 60% a 70%".

As ordens indicam nova intensidade das campanhas militares contra grupos de guerrilheiros na Colômbia. O governo chegou a um acordo de paz com o maior grupo rebelde do país - as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou FARC - há apenas dois anos. Muitos ex-guerrilheiros voltaram a combater, enquanto outros grupos criminosos e paramilitares ampliaram seu controle em partes do país. Um grupo rebelde que jamais assinou o acordo de paz realizou um atentado usando um carro-bomba na capital em janeiro.

A Colômbia também é pressionada pelo governo Trump a mostrar progresso no combate ao tráfico de drogas, batalha que parece ter avançado pouco apesar dos US$ 10 bilhões oferecidos pelos EUA como ajuda. O aumento da pressão levou o presidente Iván Duque, um conservador que fez campanha contra os acordos de paz, por considerá-los demasiadamente brandos com os rebeldes, substituiu em dezembro a alta cúpula do exército.

O governo de Duque nomeou nove oficiais ligados às mortes suspeitas em meados da década de 2000, de acordo com documentos publicados pela Human Rights Watch. De acordo com o grupo, um deles é o general Martínez, que na época tinha patente intermediária. O general Martínez diz nunca ter participado de operações que resultaram em mortes ilegais. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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