Konstantin Chalabov para the New York Times
Konstantin Chalabov para the New York Times

Exército da Juventude lembra a era soviética

Eles ainda amam o vermelho e o militarismo, mas não são comunistas

Neil MacFarquhar, The New York Times

29 Março 2018 | 15h00

KUBINKA, RÚSSIA - Frequentemente, na Rússia, o que é velho volta a ser novo ou, para ser mais específico, o que era soviético volta a ser novo.

O Exército da Juventude, aberto a meninos e meninas, é um retrocesso aos Jovens Pioneiros da era soviética. Com o intuito de instigar um senso de zelo comunista, os Pioneiros são lembrados principalmente pelos acampamentos de verão.

O Exército da Juventude rejeita os resquícios comunistas, e enfatiza apenas o patriotismo e o serviço à nação.

Entretanto, o vermelho da marca persiste. Os Pioneiros usavam lenços vermelhos no pescoço; os integrantes do Exército da Juventude exibem boinas vermelhas e um broche com o logotipo da organização - a estrela vermelha do Exército russo superposta à cabeça de uma águia.

Constituído em maio de 2016, o Exército da Juventude, ou "Yunarmia" em russo, cresceu, e atualmente é formado por 190 mil crianças dos 8 aos 18 anos e está espalhado por todas as 85 regiões da Rússia.

Em fevereiro, para marcar o feriado, conhecido como o Dia do Defensor da Pátria, o Ministério da Defesa organizou o primeiro fórum nacional da organização, com 8 mil membros presentes no Parque dos Patriotas, o parque temático do próprio Exército russo em Kubinka, a cerca de 50 quilômetros de Moscou.

Os eventos começaram pela manhã com um D.J. que tocava uma versão ampliada de antigas canções patrióticas russas, acrescentando os arranhados e outras técnicas da música hip-hop. Ao D.J.,  seguiram-se bandas populares que começaram a berrar músicas às 11 da manhã.

Também foram permitidas atividades como segurar uma arma, treinar cães, operar uma impressora 3D e pilotar um tanque virtual.

O ministro da Defesa, Sergei K. Shoigu, tem insistido particularmente na importância da organização para criar um vínculo entre os jovens da Rússia e suas forças armadas. O evento ocorreu menos de uma semana antes do discurso em que o presidente Vladimir V. Putin prometeu restaurar a Rússia como superpotência em armamentos.

“A ideia é motivar os estudantes a fazerem algo novo, a implementarem suas ideias, para o seu futuro e o futuro do nosso país”, declarou Artur Kuzmin, que operava a impressora 3D.

 

Alguns criticaram o fato de a organização se destinar a transformar a vanguarda da próxima geração em robôs que prestam continência, programados para serem hostis aos valores liberais do Ocidente. Um vídeo do YouTube mostrou imagens de um concerto do Exército da Juventude fazendo a saudação a Putin, justapostas a um clipe de 1943 com um comício da Juventude de Hitler.

Dmitry Trunenkov, o líder da organização, repudiou a ideia. “Estes jovens são pessoas sérias, bonitas, com o fogo no olhar”, afirmou o atarracado ex-atleta olímpico de bobsled, que os russos proibiram de praticar o esporte por quatro anos por doping.

“O nosso movimento é absolutamente apolítico”, ele prosseguiu. “A coisa mais importante para nós é que o nosso país seja forte e grande”.

Os eventos que atraíram mais pessoas foram as competições esportivas, o campo de tiro eletrônico e a possibilidade de dirigir um tanque no simulador.

Alguns membros consideram o Exército da Juventude o seu caminho mais fácil para ingressar no exército regular. Quadros com a guerra na Síria haviam sido pendurados numa parede.

Aleksei Poltnikov, 17, disse que os soldados regulares têm a opção de assinar um contrato para serem enviados à Síria ou não. “O dinheiro é considerável”, afirmou, acrescentando, porém, que este parece também o caminho mais rápido para ser morto.

“Eu não assinaria um contrato desses, a não ser que o meu país estivesse sendo ameaçado”, afirmou.

Outros integrantes admitiram que os vídeos militares que passam continuamente, assim como as músicas que dizem: “Rússia! Rússia!”, poderão convencer alguns jovens impressionáveis a combater lá fora.

“O governo deve ser capaz de usá-los com muita facilidade - e isto não é bom”, comentou Eldar Kormilin, 17.

Kormilin e os seus amigos entraram no Exército da Juventude porque não havia muito o que fazer em seu bairro, em Moscou, ele disse. E esperava poder segurar uma arma mais tarde, naquele dia.

“Na Rússia, não há muitas oportunidades para se ver uma arma de verdade”, acrescentou.

Vassily Nesterenko era o pintor cujas obras sobre a Síria estavam expostas. A maior era um tributo a uma famosa obra do final do século 19, de Ilya Repin, “resposta dos cossacos de Zaporozhian ao Sultão Mehmed IV do Império Otomano”.

A versão de Nesterenko, “Uma carta aos inimigos da Rússia”, tomou emprestados muitos dos mesmos personagens do quadro de Repin, mas ele atualizou os seus uniformes e os colocou em um campo de batalha sírio.

O Exército da Juventude é também um tributo ao passado, uma combinação do Komsomol, a ala jovem do Partido Comunista, e os Jovens Pioneiros, segundo Nesterenko. “Na era soviética eram os Pioneiros e o Komsomol”, ele disse, “e agora é um pouco diferente, mas a ideia é a mesma”.

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