João Silva/The New York Times
João Silva/The New York Times

Exército é mobilizado para combater gangues na Cidade do Cabo

Presidente enviou soldados para patrulhamento de cidades-dormitório onde violência entre gangues explodiu

Kimon De Greef, The New York Times

23 de agosto de 2019 | 06h00

CIDADE DO CABO - Foi como uma cena dos dias do apartheid: blindados patrulhando as ruas de uma cidade-dormitório. Mas, enquanto os soldados chegavam a Mitchells Plain, um subúrbio pobre da Cidade do Cabo, ninguém se escondeu nem protestou. “É o que precisamos", disse Nasser Myburgh, técnico de rádio, enquanto soldados buscavam drogas em uma casa na sua rua. “Os tiroteios ocorrem aqui toda noite.”

A Cidade do Cabo se tornou uma das cidades mais perigosas do mundo. A polícia registrou mais de 2.800 assassinatos em 2018, e a proporção de homicídios - cerca de 66 mortes para cada 100 mil habitantes - é ultrapassada somente pelas cidades mais violentas da América Latina, de acordo com o grupo mexicano Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Criminal. A violência emana principalmente da intensificação das disputas territoriais entre gangues de traficantes de drogas, armas e mercadorias ilegais como o molusco abalone, valioso para os pescadores.

O presidente Cyril Ramaphosa ordenou a intervenção no dia 12 de julho, apesar dos alertas apontando que os soldados não podem fazer muito a respeito dos problemas subjacentes, como a corrupção e o desemprego, que há muito permitiram às gangues assumir o controle das cidades-dormitório.

A região onde Myburgh vive fica em Cape Flats, uma planície nos arredores da cidade para onde negros e mestiços foram obrigados a se mudar durante o apartheid. O bairro dele foi repartido por uma série de gangues: Hustlers, Rude Boys, Ghetto Kids, Spoilt Brats, Hard Livings e Americans, cuja simbologia inclui o cifrão do dólar e a bandeira dos Estados Unidos.

A primeira semana de patrulhas militares resultou em uma queda nos assassinatos em Cape Flats, de acordo com as autoridades. No fim de semana seguinte, 46 pessoas foram mortas. Algumas semanas após o início da mobilização, o banho de sangue continuava em algumas regiões.

Em Mitchells Plain, menos de 48 horas após a saída do grupo de patrulha, Ashley Cupido foi morto. Ele morava em uma região controlada pelos Hard Livings. A namorada e o filho viviam no território dos Americans. A mãe disse que ele foi baleado no trajeto entre os dois endereços. A delegacia de polícia que registrou o maior número de assassinatos na África do Sul no ano passado, Nyanga, também situada em Cape Flats, teve 308 homicídios. Em Mitchells Plain, foram 140, enquanto o centro da Cidade do Cabo registrou apenas oito.

Esse ano, o número de homicídios foi “aproximadamente o dobro do que já observamos anteriormente", disse Jean-Pierre Smith, designado pela comissão da prefeitura para a questão da segurança. De acordo com as autoridades, a mobilização militar, chamada Operação Próspero, ajudará a trazer estabilidade aos 10 bairros mais perigosos da Cidade do Cabo.

“Assim que o exército for embora, muitas dessas gangues vão buscar suas drogas e armas nos esconderijos e retomar sua atividade", disse o analista militar John Stupart. Alguns defensores da Operação Próspero, que deve chegar ao fim em setembro, são membros de fóruns de policiamento local comunitário, para quem o governo finalmente está levando a sério as preocupações que eles manifestam há tempos.

Todas as noites, Myburgh tranca a família dentro de casa. Na véspera da chegada do exército, David Hermanus foi morto a poucos quarteirões do endereço dele. Como retaliação, membros de gangues atiraram em uma casa próxima, ferindo um homem e uma mulher.

Garth Adams foi morto na tarde seguinte. “É assim que vivemos", disse Myburgh. “Para nós, já é normal.” As primeiras gangues se formaram em meio ao caos dos anos 1960, 1970 e 1980, quando dezenas de milhares de famílias foram expulsas de bairros designados para brancos. O desemprego segue alto: em Mitchells Plain, menos de 37% dos moradores têm emprego.

Depois do apartheid, muitas gangues se converteram em poderosos empreendimentos criminosos, disse Simone Haysom, da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional. “As gangues ainda se valem da disfunção social e do abandono por parte do governo", disse ela. “Mas o controle territorial, os lucros e a violência são muito maiores do que antes.”

Em um domingo recente, dois velórios eram realizados separados por algumas centenas de metros: o de Hermanus, frequentado pelos Americans, e o de Adams, com a participação dos Hard Livings. Havia bandidos e policiais vigiando as duas cerimônias. Ronald Hermanus, 28 anos, negou o envolvimento do irmão com as gangues. “Mas sabemos como essas coisas funcionam", disse ele. “Se matar um dos nossos, voltaremos para matar um dos seus.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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