Museu Orientalista, Acervo Nacional do Catar
Museu Orientalista, Acervo Nacional do Catar

Exibições celebram riqueza da Síria antes da guerra civil

Enfatizando o patrimônio histórico e cultural em vez da destruição

David Belcher, The New York Times

22 Novembro 2018 | 18h00

DOHA, CATAR - A cerca de 1.600 quilômetros do que resta da guerra civil na Síria, a exposição “Syria Matters” [A Síria importa], no Museu de Arte Islâmica, se concentra na história e na alma do país, e não nas imagens de conflito que tomaram os noticiários nos sete anos mais recentes.

Ali perto, o Museu Árabe de Arte Moderna e a Biblioteca Nacional do Catar também estão voltando suas atenções para a Síria. Para os curadores dessas exposições, Doha é o local ideal para explorar a cultura antiga da Síria, que há séculos influencia o mundo muçulmano. Na opinião deles, este país relativamente novo, que está ganhando destaque como importante centro das artes, é o melhor lugar para reunir os pedaços de um país fraturado e mostrá-los para os muçulmanos e os turistas de todo o mundo.

“O Islã é uma cultura partilhada, e a visão por trás do museu é mostrar o lado pacífico do Islã e sua contribuição para o mundo", disse Julia Gonnella, diretora do Museu de Arte Islâmica e corresponsável pela curadoria de “Syria Matters". “Queremos enfatizar o patrimônio em vez da destruição na Síria.”

Esse patrimônio é também a inspiração por trás de duas exposições ligadas à Síria: uma série de quatro exposições (até 16 de fevereiro) no museu de arte moderna e “Syria Under the French Mandate, 1918-1946” [A Síria sob mandato francês, de 1918 a 1946] (até 19 de março), na reluzente biblioteca nacional.

Esse triplo alinhamento ocorre num momento em que os rebeldes na Síria vivem um impasse com as forças do presidente Bashar al-Assad. Desde a primavera de 2011, boa parte do noticiário se concentrou na devastação de cidades antigas como Aleppo e Palmira, mas essas exposições em Doha foram pensadas para celebrar aquela que sempre foi a vasta contribuição da Síria para o idioma, a religião, a arte, a música e a história - que não se perdeu com os recentes anos de guerra.

“Syria Matters” (até 30 de abril) é apresentada em seções. A primeira retrata a arte da Síria antes do Islã - uma rara oportunidade, disse Julia, já que muitos países muçulmanos proíbem a exposição de artigos anteriores à era islâmica.

Outra seção é dedicada à história de Palmira. Outras mostram a Síria medieval, com manuscritos e objetos como o conhecido Vaso Cavour, feito de vidro detalhadamente decorado em azul e roxo, do fim do século 13; e o período otomano e seu imenso impacto para a arquitetura e a música da Síria. Uma última sala mostra o legado de destruição - e a cicatrização - de um país em guerra.

Embora “Syria Matters” evite o lado político da Síria, as quatro exposições menores no museu de arte moderna abordam esse aspecto. Duas delas se concentram em artistas sírios, e as quatro são informadas pelos complexos vínculos da política, religião e nacionalismo com a arte moderna nesta região.

Uma paisagem cultural em mudança é parte de “Syria Under the French Mandate, 1918 to 1946", na biblioteca, que abriga o maior acervo literário do Oriente Médio, com mais de um milhão de livros e manuscritos.

Ada Romero Sánchez, coordenadora de exposições e do acerco especial, explicou que é necessário mostrar como a história moderna da Síria está ligada à guerra civil. “Acredito que é importante documentar o estado da Síria como a conhecemos hoje, e mostrar que a influência francesa no país era muito forte, ainda que isso tenha durado apenas cerca de 30 anos", disse ela. “É também nessa época que têm início muitos dos problemas atuais da Síria.”

A biblioteca vai expor cerca de 40 itens, sendo alguns parte do seu acervo e outros emprestados pelo governo francês e outras instituições da França.

“As novas gerações ouvem a respeito da guerra na Síria e pensam que as coisas são assim há centenas de anos", disse ela. “Mas estamos destacando aquele período maravilhoso em que a fotografia se tornou mais comum, os monumentos antigos eram documentados, e autores ocidentais visitavam o país.”

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