Gabriella Demczuk para The New York Times
Gabriella Demczuk para The New York Times

Existem mesmo eleitores de perfil autoritário?

Cientistas políticos buscam explicações sobre por que pessoas aparentemente afáveis tendem a orbitar no entorno de personalidades de perfil linha-dura

Molly Worthen, The New York Times

22 Dezembro 2018 | 06h00

Uma recessão pode estar virando a esquina, mas, para os especialistas do campo dos “estudos autoritários”, vivemos tempos bem interessantes. Jonathan Weiler, cientista político da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, passou grande parte da carreira estudando o apelo de figuras autoritárias: políticos que pregam a xenofobia, batem na imprensa e se colocam acima da lei, ao mesmo tempo em que bradam “lei e ordem” para todos os outros. Ele é um dos muitos estudiosos que acreditam que traços psicológicos profundamente arraigados em nossas mentes ajudam a explicar a atração dos eleitores por esses líderes. “Hoje em dia, o público está mais receptivo à ideia” do que costumava ser.

Será que os milhões de seguidores do presidente Trump simplesmente estão configurados para ver o mundo de maneira muito diferente de seus críticos? “Em 2018, é evidente a sensação de medo e pânico - a perplexidade a respeito de como as pessoas que não são como nós podem ver o mundo da maneira como o veem”, disse Weiler. “As pessoas sabem que estamos profundamente divididos e estão procurando explicações que correspondam à profundidade dessa divisão”.

Recentes pesquisas científicas no campo social deram atenção especial às personalidades supostamente autoritárias de muitos eleitores republicanos. “A força eleitoral de Trump - e seu poder de sustentação - advêm, acima de tudo, de americanos com inclinações autoritárias”, escreveu Matthew MacWilliams, consultor político que pesquisou os eleitores durante a eleição de 2016. Mas o que, exatamente, é uma personalidade “autoritária”? Como se mede isso?

Por mais de meio século, muito antes da ascensão de Trump, cientistas sociais tentaram descobrir por que algumas pessoas aparentemente afáveis tendem a orbitar em torno de homens fortes. Eles criaram métodos para investigar a economia, a religião e outros fatores sociais, na esperança de descobrir um conjunto de instintos políticos mais essenciais. Às vezes, esses esforços acabam em reducionismos perigosos, mas o mais provável é que os cientistas estejam fazendo avanços importantes.

Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, o filósofo (e refugiado alemão) Theodor Adorno contou com a colaboração de cientistas sociais da Universidade da Califórnia, em Berkeley, para investigar por que pessoas comuns tinham apoiado a ideologia fascista e antissemita durante a guerra. Eles aplicaram um questionário chamado escala-F (F de fascismo) e uma série de entrevistas para analisar a “personalidade total” do “indivíduo potencialmente antidemocrático”.

O resultado foi um tomo de mil páginas. A "Personalidade Autoritária", publicada em 1950, no qual se revelava que os sujeitos que pontuaram alto na escala F desdenhavam dos fracos e marginalizados. Esses sujeitos tinham obsessão por desvios sexuais, acreditavam em teorias da conspiração e se alinhavam a líderes dominadores “para servir a interesses poderosos e, assim, participar de seu poder”, escreveram os autores. Algumas de suas conclusões parecem se manter válidas - Adorno e seus colegas poderiam facilmente descrever os discursos paranoicos de Alex Jones ou as opiniões racistas expressadas por muitos seguidores de Trump.

Alguns críticos disseram que a escala-F confundia o fascismo com o conservadorismo. Outros observaram que era impossível comprovar as especulações psicanalíticas do estudo sobre as raízes do autoritarismo no subconsciente infantil (os autores escreveram que “se apoiaram sobretudo em Freud” e se concentraram na descoberta de que muitos sujeitos de alta pontuação na escala-F cresceram sob pais prepotentes). Desde então, esse interesse pela infância e pelos “desejos e temores primitivos e irracionais” influenciou os estudos sobre do autoritarismo.

Como os seguidores de Trump se sentem ao serem arrastados assim para o divã? Allen Strouse não é o arquétipo do eleitor de Trump, aquele que os jornalistas procuram nos restaurantes de beira de estrada do Cinturão da Ferrugem. É poeta, católico e homossexual, pesquisador e professor de literatura medieval na New School, em Nova York. Votou em Trump “como protesto contra os fracassos dos democratas em questões econômicas”. Mas as dimensões psicológicas de seu voto o intrigam. “Depois de estudar a análise freudiana e fazer terapia por dez anos, eu não podia deixar de me perguntar: ‘Será que essa decisão tem a ver com minha psicologia?’”, ele me disse.

Ele publicou um ensaio - meio sério, meio de brincadeira - sobre seu complexo relacionamento com o pai, um sindicalista da Pensilvânia. “O livre-comércio globalizado varou os trabalhadores norte-americanos e nos deixou à procura de um líder forte, um ‘homem de verdade’”, escreveu ele. “Trump oferece exatamente o que meu inconsciente mal adaptado mais deseja”.

Quando liguei para Strouse, ele fez questão de lembrar que a psicologia dos pesquisadores muitas vezes negligencia o sofrimento real. “Cresci nos Apalaches e conheço essas pessoas intimamente”, disse ele. “Adoro elas. Vi o que aconteceu com elas nas últimas décadas. Sou da classe trabalhadora e sinto que os democratas passaram anos dando facadas nas costas delas. Agora moro em Nova York e vivo um estilo de vida que a maioria dos meus antigos vizinhos não aprovaria, mas acho um saco quando as pessoas daqui não entendem as pessoas de lá e as patologizam”.

Esses pesquisadores estão patologizando ou apenas investigando os impulsos não-racionais que ajudam a explicar por que alguns americanos veem Trump como um aproveitador da classe trabalhadora, enquanto outros o veem como seu salvador? Os cientistas políticos costumam descartar a "Personalidade Autoritária" como uma relíquia do passado, mas alguns ainda especulam sobre as relações dos eleitores republicanos com seus pais (e sobre o próprio relacionamento de Trump com o dele). E o método mais corrente de estudo sobre o autoritarismo moderno talvez se baseie em uma das questões da escala-F: “Obediência e respeito pela autoridade são as virtudes mais importantes que as crianças devem aprender”. Os pesquisadores de hoje geralmente diagnosticam autoritários latentes por meio de um conjunto de perguntas sobre as características que consideram mais adequadas às crianças: Você prefere que seu filho seja independente ou que tenha respeito pelos mais velhos? Que tenha curiosidade ou boas maneiras? Que seja autossuficiente ou obediente? Que seja bem comportado ou discreto?

A resposta normal das pessoas é: “Quero as duas coisas. Quero que sejam curiosos e não quero que saiam jogando comida no chão do restaurante”, disse Weiler (que leciona na mesma universidade que eu, embora nunca tenhamos nos falado antes de eu começar a trabalhar neste artigo). “A realidade certamente é mais complicada do que aquilo que conseguimos captar nos dados da pesquisa”, disse ele. “O que me deixa confortável com esse modelo de pesquisa é que a política também nos obriga a fazer escolhas”.

Essas perguntas parecem dar acesso imediato aos temperamentos pré-políticos das pessoas. No entanto, uma olhada rápida nos “princípios bíblicos para as surras” do grupo cristão Focus on the Family [Foco na Família] nos lembra que sua abordagem à criação dos filhos não é pré-política; é a forma abreviada de sua postura nas guerras culturais.

Além disso, de acordo com as respostas ao questionário sobre a educação infantil, os afro-americanos são mais autoritários que os brancos. Esse resultado forçou os pesquisadores a admitir o que deveria ser óbvio: as atitudes em relação à criação dos filhos variam de uma cultura para outra, e durante séculos os afro-americanos sentiram as consequências de uma hierarquia social e política adversa, então é difícil imaginar que seriam favoráveis a ela - independentemente do que pensem sobre a criação dos filhos. O teste das características das crianças é, portanto, apenas uma ferramenta para identificar pessoas brancas que estão com medo de perder status e poder.

Weiler e seu co-autor, Marc Hetherington, tentaram mudar o debate em seu novo livro, Prius or Pickup?, descartando o termo “autoritário”, já tão carregado de sentidos. Em vez disso, eles dividem as pessoas em três campos temperamentais: fixas (pessoas que ficam cautelosas diante das mudanças e “seguem firmes no mesmo rumo”), fluidas (aquelas que estão mais abertas a novas pessoas e experiências) e misturadas (aquelas que são ambivalentes). “O termo ‘autoritário’ denota uma perspectiva marginal, e a perspectiva que estamos descrevendo está longe de ser periférica”, disse Weiler. “Ao contrário, é central para a opinião pública americana, especialmente em questões culturais como imigração e raça”.

Outros estudiosos aplicam uma tipologia baseada nos “Cinco Grandes” traços de personalidade identificados pelos psicólogos em meados do século 20: extroversão, afabilidade, conscienciosidade, neuroticismo e abertura à experiência. (Parece que os liberais são mais abertos, mas possivelmente mais neuróticos, enquanto os conservadores são mais conscienciosos).

Existem também os pioneiros que ultrapassaram a mente consciente para localizar as fontes das convicções políticas em nossa fisiologia e até em nosso DNA. Estudos afirmam que as pessoas que têm reflexos faríngeos mais sensíveis e que piscam mais quando se assustam são mais propensas ao conservadorismo. Em 2008, dois pioneiros em “genopolítica” da Universidade da Califórnia, em San Diego, estudaram gêmeos para propor uma ligação entre genes específicos e comportamento de voto.

No entanto, a expressão de alguns de nossos traços depende da história e dos limites da possibilidade política. Se existe um “gene votante” - e, com certeza, não é uma coisa tão simples assim -, como ele se manifestou antes da era da democracia representativa? A “abertura à experiência” é igualmente possível no Ocidente moderno quanto foi na Europa medieval ou é no Afeganistão rural?

O contexto histórico tem muita importância, pois molda quem somos e como debatemos a política. “A razão avança lentamente”, me disse William English, economista político da Georgetown. “Ela se constitui sociologicamente, por meio de amarras profundas da comunidade, coisas que só mudam ao longo de gerações”. Ainda assim, ele disse, “muitos cientistas sociais têm a aspiração - às vezes consciente, às vezes inconsciente - de passar por cima da cultura e das crenças. Discursos que não podem ser colocados em termos científicos são problemáticos” para pesquisadores que querem fornecer “uma descrição universal do comportamento”.

Os próprios pesquisadores geralmente relativizam suas afirmações. “Pedimos que você apague o verbo ‘determinar’ do seu vocabulário e o substitua por verbos como ‘dar forma’, ‘influenciar’, ‘moldar’ e ‘predispor’”, escreveram John R. Hibbing, Kevin B. Smith e John A. Alford em seu livro Predisposed: Liberals, Conservatives, and the Biology of Political Differences [Predispostos: liberais, conservadores e a biologia das diferenças políticas].

Mas, em nosso ambiente atual, onde a polarização é tão inflexível, a aparente clareza das explicações psicológicas e biológicas fica mais sedutora. Há algo de fascinante e assustador em qualquer teoria determinista que preveja o papel que estamos destinados a cumprir na sociedade e nos faça acreditar que entendemos melhor nosso oponente do que ele próprio.

“Todas as ciências sociais são usadas para tentar explicar todo o mal que persiste no mundo, mesmo que a cosmovisão do Iluminismo liberal diga que devemos ser capazes de aperfeiçoar as coisas”, disse Strouse, o eleitor de Trump. “Se todos tivessem acesso à educação certa e ao terapeuta certo, todos tomariam a decisão certa - mas sabemos que isso não vai acontecer. As pessoas têm tendências perversas”.

Não deixa de ser uma das grandes ironias da história: à medida que o retrato científico social da humanidade se torna mais psicológico e irracional, aproxima-se cada vez mais do velho Adão do cristianismo tradicional, uma criatura caída e depravada, incapaz de se ver com clareza, exceto com a ajuda de um poder superior. As conclusões dos cientistas políticos devem inspirar humildade, e não arrogância. Pois, no fim das contas, eles confirmam aquilo que muitos observadores de nossa espécie há muito suspeitavam: nenhum de nós é uma criatura particularmente livre ou racional.

Molly Worthen (@MollyWorthen) é a autora do recente Apostles of Reason: The Crisis of Authority in American Evangelicalism [Apóstolos da Razão: a crise de autoridade no evangelismo americano], professora associada de história na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, e escreve artigos de opinião.

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