Mary Turner para The New York Times
Mary Turner para The New York Times

Êxodo ameaça economia e futuro da Turquia

Com a ascensão do autoritarismo do presidente Erdogan, mais turcos têm se negado a permanecer no país

Carlotta Gall, The New York Times

09 de janeiro de 2019 | 06h00

ISTAMBUL - Há 17 anos, o presidente Recep Tayyip Erdogan venceu as eleições oferecendo aos eleitores uma visão do passado otomano da Turquia. Ampliou a influência de seu país com o aumento do comércio e grandes deslocamentos das forças armadas e elevou o padrão de vida com anos de crescimento econômico.

Mas depois do fracasso da tentativa de golpe em 2016, Erdogan implantou uma repressão radical. No ano passado, a economia sofreu um forte abalo e a lira despencou depois que ele voltou a se reeleger com poderes ainda maiores. À medida que o favorecimento e o autoritarismo foram se instalando ainda mais no seu governo, os turcos começaram a votar de maneira diferente - desta vez, recusando-se a permanecer no país.

Eles estão partindo às centenas, levando consigo seu capital numa indicação de uma grande e alarmante falta de confiança na visão de Erdogan, como mostram as estatísticas do governo e os analistas.

Nos últimos dois ou três anos, não foram apenas estudantes e acadêmicos que fugiram, mas também empreendedores, empresários e milhares de cidadãos endinheirados. Mais de 250 mil turcos emigraram em 2017, segundo o Instituto de Estatística turco, com um aumento de 42% em relação a 2016, quando cerca de 178 mil cidadãos deixaram o país.

A Turquia já vira antes ondas de estudantes e professores partir, mas este êxodo parece uma reordenação mais permanente da sociedade e ameaça fazer a Turquia retroceder dezenas de anos, segundo aponta Ibrahim Sirkeci, diretor de Estudos Transnacionais da Regent's University de Londres.

A fuga de pessoas, talentos e capital está sendo provocada por fatores que definem a vida sob Erdogan. Eles incluem o medo da perseguição política, o terrorismo, uma crescente desconfiança em relação ao judiciário e as arbitrariedades do governo da lei, além de um clima de deterioração dos negócios, acelerado pelo medo de que Erdogan esteja manipulando a economia em benefício próprio e do círculo de apaniguados.

Uma das pessoas que partiram é Merve Bayindir, 38, que decidiu transferir-se para Londres depois de se tornar uma das mais destacadas estilistas no campo da chapelaria da Turquia, no bairro da moda de Nisantasi, em Istambul.

"Estamos vendendo tudo", ela disse em uma viagem de regresso a Istambul no mês assado para fechar o que restava de sua empresa, MerveBayndir.

Merve participou dos protestos de 2013 contra a tentativa do governo de levar adiante a perseguição desencadeada na Praça Taksim em Istambul. Ela contou que ficou traumatizada pela violência e com medo de sua cidade. Erdogan denunciou os manifestantes e, depois de uma série de prisões e perseguições, muitos fugiram.

Milhares de turcos, como Merve, solicitaram vistos de negócios na Grã-Bretanha ou para o programa do visto dourado na Grécia, Portugal e Espanha, que concede a residência aos imigrantes que pretendem empreender no país. Sirkeci calcula que 10 mil turcos usaram o plano do visto dourado para se mudar para a Grã-Bretanha nos últimos anos.

Os pedidos de asilo político de cidadãos turcos na Grã-Bretanha aumentaram três vezes nos últimos seis meses, depois da tentativa de golpe, e seis vezes entre os turcos que solicitaram asilo na Alemanha, segundo Ibrahim Sirkeci. 

O número de turcos que pedem asilo no mundo inteiro registrou um salto de 10 mil em 2017, para mais de 33 mil. Uma proporção considerável dos que fugiram segue as orientações de Fethullah Gulen, o pregador que se fixou nos EUA acusado de instigar o golpe de 2016, ou pessoas acusadas de serem seus seguidores. Pelo menos 12 mil milionários da Turquia, cerca de 12% da classe endinheirada, transferiram seus ativos em outros países em 2016 e 2017, segundo relatório do AfrAsia Bank.

Erdogan tachou de traidores os empresários que levaram seus bens para o exterior quando a economia turca começou a falhar. 

"Perdoem-nos, nós não perdoamos", advertiu. "As mãos da nossa nação estarão no seu pescoço neste mundo e no outro".

Merve, a criadora de chapéus, disse que a vida na Turquia se tornou tensa. 

"Agora, quando volto, não vejo a mesma Istambul. A cidade não tem mais energia. Parece cansada", afirmou. "O fato de eu não querer voltar para cá é algo espantoso, porque sou uma daquelas pessoas que amam a sua cidade".

Mais conteúdo sobre:
TurquiaRecep Tayyip Erdogan

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.