Meghan Dhaliwal para The New York Times
Meghan Dhaliwal para The New York Times

Êxodo na Nicarágua põe à prova sistema de imigração da Costa Rica

Uma violenta crise política forçou muitos nicaraguenses a fugir, sobrecarregando o país vizinho

Kirk Semple, The New York Times

26 Setembro 2018 | 15h00

PEÑAS BLANCAS, COSTA RICA - Temendo pela própria vida, os três homens deixaram suas casas no lado ocidental da Nicarágua, aproveitando da escuridão da noite. Um táxi os levou em direção ao sul em uma viagem que levou horas. Em uma curva da estrada eles saltaram, caminharam por uma mata rasteira e penetraram na floresta, passando através de uma abertura em uma cerca baixa - e saíram na Costa Rica.

"Sentimos alívio", contou mais tarde, na manhã daquele dia, um deles, o advogado Octavio Robleto, 57, enquanto esperava com os outros dois, seus parentes, na frente de uma repartição da imigração costarriquenha, onde pretendiam solicitar asilo.

"Vivemos no mais completo terror", dizia enquanto vivia na Nicarágua. Os protestos nas começaram a explodir em meados de abril, e o presidente Daniel Ortega ordenou a repressão. Centenas de pessoas morreram e houve um enorme prejuízo para a economia.

Milhares de nicaraguenses fugiram, muitos para a Costa Rica, onde pediram asilo, criando uma sobrecarga para a burocracia da imigração do país.

A entrada de nicaraguenses gera grandes dificuldades para o presidente Carlos Alvarado Quesada, que também enfrenta uma crise econômica e a violência provocada pelo narcotráfico. A migração também testou a ética da hospitalidade e a disposição favorável da Costa Rica, cuidadosamente cultivadas nos últimos anos, e expôs uma tendência oculta ao preconceito contra os nicaraguenses.

No final de julho, manifestantes entraram em um parque de San José, capital da Costa Rica, cidade que se tornou ponto de encontro popular de nicaraguenses. O grupo gritava insultos contra os estrangeiros. Houve um confronto que resultou em dezenas de prisões.

"Peço calma, peço paz", disse o presidente Alvarado Quesada em um discurso transmitido pela televisão. "Diante dos gritos de ódio e de violência, que prevaleçam a sensatez, a prudência, inteligência e solidariedade".

Segundo a ministra do Exterior da Costa Rica e primeira vice-presidente, Epsy Campbell Barr, o governo previu o agravamento da situação política na Nicarágua, possivelmente empurrando mais migrantes para a Costa Rica. Ela afirma que a crise ameaça se tornar "grande demais para um país nas condições da Costa Rica".

A migração de pessoas que fogem da violência, do levante político, da pobreza e de desastres naturais, há anos vem pondo à prova a determinação política e a boa vontade dos governos da América Latina.

Nos últimos tempos, centenas de milhares de cidadãos da América Central, principalmente de El Salvador, Honduras e Guatemala, deixaram seus lares em busca de uma vida melhor em outro país, em geral nos Estados Unidos. Mais de 2 milhões de venezuelanos abandonaram o país e se espalharam pelas Américas e pela Europa.

A atual corrente migratória procedente da Nicarágua é a mais recente e a mais numerosa das últimas décadas rumo à Costa Rica, onde a população de imigrados do país vizinho chega aproximadamente a 500 mil, ou cerca de 10% de sua população.

O governo costarriquenho tem sido elogiado pelas autoridades internacionais e por organizações de defesa da migração pelo modo como vem conduzindo a crise. Este ano, mais de 24 mil nicaraguenses buscaram asilo na Costa Rica, um aumento considerável em relação às 6.300 pessoas provenientes de todas as nações, no ano passado.

Alguns funcionários, porém, admitem que a polícia de fronteira está sobrecarregada, que a fronteira é porosa e que não há como impedir a entrada de nicaraguenses no país.

Os líderes dos protestos de rua na Nicarágua procuraram refúgio do outro lado da fronteira. Eles temem que o governo de seu país tenha enviado espiões para a Costa Rica para caçá-los no exílio.

"Ninguém quer ficar aqui", disse Alejandro Bravo, um líder da oposição, que, com dezenas de companheiros, procura asilo. "Eu não quero ficar aqui. Mas quero continuar vivo".

As freiras da Casa de Maria Auxiliadora, uma igreja de San José que fornece comida e serviços sociais aos migrantes, contaram que se viram obrigadas a recusar pessoas que suspeitam serem "infiltrados" a serviço do governo de Ortega.

Recentemente, milhares de recém-chegados acabaram indo para La Carpio, um bairro pobre, populoso na capital onde vivem muitos nicaraguenses. Alicia Avilés Avilés, líder cívica nicaraguense do bairro, fugiu para a Costa Rica nos anos 1990. Mas ela disse que teme que o repentino aumento de migrantes sobrecarregue os escassos serviços públicos em La Carpio.

Por enquanto, segundo ela, o bairro tem conseguido fazer frente às dificuldades. Mas o que acontecerá se esta crise persistir? Será possível que as famílias dupliquem, tripliquem? Que os moradores percam a paciência e comecem a jogar os parentes na rua? Será que o desemprego persistente levará as pessoas para a criminalidade?

"A sobrevivência se tornará cada vez mais difícil", afirmou. "E a situação poderá acabar explodindo".

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