Maxim Babenko para The New York Times
Maxim Babenko para The New York Times

'Um exorcismo deve ser feito': xamã anti-Putin desencadeia uma inquietação

“Minha história coincide com o desespero dos russos que convivem com injustiça, pobreza e destituição”, afirmou Aleksandr Gabyshev

Anton Troianovski, The New York Times

17 de outubro de 2019 | 06h00

ULAN-UDE, RÚSSIA - Um xamã de cabelos longos veio a pé do norte congelado pregando que o presidente é um demônio. Dias depois, um taxista, invocando o xamã, aproximou-se do prefeito dessa cidade siberiana, aliado do Kremlin, berrando suas queixas e postando sua indignação no YouTube.

Protestos em espaços públicos irromperam e persistiram por semanas, mas o xamã continuou a caminhar para o oeste - em direção a Moscou, “o coração do mal”, disse ele, para exorcizar o presidente da Rússia, Vladimir Putin. Depois, uma equipe policial de operações especiais o colocou em um avião para Yakutsk, uma remota capital regional no leste da Sibéria.

“Minha história coincide com o desespero dos russos que convivem com injustiça, pobreza e destituição”, afirmou o xamã, Aleksandr Gabyshev, no chalé de madeira de um quarto de sua irmã, próximo a Yakutsk. “Há muita maldade nele (Putin), e o próprio presidente encarna os poderes do mal, então, um exorcismo tem de ser realizado”. O fato de um místico e um taxista youtuber terem conseguido desencadear uma onda de protestos em Ulan-Ude, uma cidade de 400 mil habitantes, marcou o início de uma nova temporada de demonstrações de descontentamento na Rússia.

Uma alta na insatisfação popular em todo o país evidencia que, após anos de estagnação econômica, a paciência dos russos com seu governo está acabando. Pesquisas mostram quedas constantes nas taxas de aprovação de Putin nos 12 meses mais recentes e uma crescente rejeição à propaganda veiculada pela TV estatal. Ondas de protestos têm agitado Moscou desde junho, resultando em milhares de prisões e forçando o Kremlin a fazer raras concessões.

Não existe um movimento unificado nacional de protestos que ameace o governo de duas décadas de Putin, mas insatisfações reprimidas por anos são agora denunciadas por figuras antes desconhecidas - como se de repente fossem a gota d’água. E os dissidentes têm a intenção de responsabilizar Putin por seus problemas. O xamã agora é ameaçado de ser encarcerado em um hospital psiquiátrico. Os advogados dele afirmam que lutarão contra a tentativa de internação, um processo que pode durar meses. Enquanto isso, o xamã está proibido de sair de Yakutsk.

Encorajados pela expansão do acesso barato à internet de alta velocidade e, na maioria dos casos, sem censura, os russos têm ousado mais em suas críticas. Foi por isso que Dmitry Bairov, o taxista cuja fúria chamou ainda mais atenção para Gabyshev, raramente sai de casa sem pelo menos dois smartphones, um carregador de bateria portátil e um tripé com clipe para celulares.

“Eu testemunho a injustiça - ouço, vejo e falo a respeito ela”, afirmou Bairov, acrescentando que o YouTube “é a única mídia com - como se chama mesmo? - liberdade de expressão”. Antes de ser mandado de volta para Ulan-Ude, no fim de agosto, Gabyshev, 50 anos, tinha viajado por quase seis meses, cobrindo uma distância de 2.500 quilômetros. Bairov ajudou a organizar o apoio ao xamã em Ulan-Ude.

Depois de as autoridades terem prendido um dos apoiadores de Gabyshev, Bairov partiu para cima do prefeito Igor Shutenkov, que tem o apoio do partido Rússia Unida, de Putin, em 9 de setembro. Bairov estacionou seu carro na praça central para protestar contra o tratamento dado ao grupo de apoiadores do xamã. Mas, na tarde seguinte, Bairov foi tirado dali por homens mascarados vestindo trajes civis, portando machadinhas e com apoio de policiais da tropa de choque.

Anna Zuyeva, uma experiente apresentadora da TV local, emissora amigável ao governo, testemunhou a incursão e publicou um vídeo da ação no YouTube, que teve cerca de 800 mil visualizações. No dia seguinte, ela deixou o emprego e mudou de rumo: a voz da propaganda estatal se transformou numa blogueira crítica ao governo.

 

“Não quero ter de negociar um acordo com a minha consciência”, escreveu ela no Instagram, acrescentando, em uma entrevista posterior, que “as pessoas não podem mais ficar caladas”. Os protestos que se seguiram nunca tinham sido vistos antes em Ulan-Ude, uma capital regional próxima à fronteira com a Mongólia.

Em Yakutsk, Gabyshev afirmou que se as autoridades proibirem o exorcismo, milhões de russos tomarão as ruas exigindo a saída de Putin. Gabyshev comparou-se a uma lagarta que tem se arrastado vagarosamente ao longo de uma estrada e, depois, se envolveu no casulo. “Um novo mundo emergirá desse casulo e se expandirá rapidamente”, afirmou Gabyshev. “Mas ninguém sabe quando.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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