Nate Miller
Nate Miller
Seth Kugel, The New York Times

06 de junho de 2019 | 06h00

Todos já leram a respeito da vasta biodiversidade e da riqueza de recursos naturais da Amazônia. Mas, para compreender de fato essa abundância, nada supera uma demonstração em primeira mão. Nesse caso, a expressão se aplicou literalmente: minha mão esquerda, com a palma pressionada contra um ninho de formigas tapiba, preso a uma imbaubeira em uma trilha perto do Rio Negro, na região Norte do Brasil. 

Instantaneamente, minha pele ficou coberta pelas pequenas criaturas, provocando cócegas nos meus dedos. Afastei a mão e, seguindo as instruções, esmaguei os insetos e espalhei os detritos pelo braço e rosto. As instruções vinham do guia, Nigel Kurt de Souza Atkinson, mestiço de índio Macuxi e inglês, e eram prática comum entre os povos indígenas: as formigas tapiba secretam um odor que afasta não apenas os mosquitos, mas também criaturas maiores, como a onça pintada.

A atividade fazia parte de um intenso cruzeiros de cinco dias que fiz na companhia de amigos pelo Rio Negro, entrando no Parque Nacional do Jaú, em janeiro. Alternando momentos rigorosos e relaxantes, a viagem, oferecida pela Katerre Expeditions, mostrou a complexidade da vida na floresta tropical. 

Durante aquela mesma caminhada, Nigel raspou de um pé de goiaba-de-anta uma substância viscosa e avermelhada que pode ser usada para remendar buracos em uma canoa, polir móveis e até como remédio para a diarreia; mostrou-nos larvas de libélula que têm sabor de coco se comidas vivas (comprovei que é verdade); e indicou um cipó que produz um chá com aroma de trevo que ajuda contra a insônia. "Aprendemos todo esse conhecimento com os índios", disse Nigel a um grupo de sete turistas.

A Amazônia é um lugar inóspito - e até fatal - para os forasteiros desde que esses a batizaram de Amazônia, há quase 500 anos. Hoje, porém, se os turistas tomarem a vacina de febre amarela e respeitarem as regras de visitação, a morte deixou de ser uma preocupação. Mas mostrar aos viajantes o lado mais selvagem da floresta tropical e, ao mesmo tempo, mantê-los em relativo conforto exige um delicado equilíbrio. 

Mas exige também dinheiro. Pagamos US$ 1.600 por pessoa para reservar um chalé para quatro (com tudo incluso, como traslados e bebida alcoólica), valor que me pareceu alto. Mas tivemos sorte, pois o barco viajou com metade da lotação, o que nos garantiu alojamentos individuais, com ar-condicionado e banho privativo. Ainda assim, passamos dias sem sinal de celular e internet.

Ao longo da viagem, vimos araras sobrevoando nosso grupo, passamos por florestas meio alagadas, de aparência dramática, e tiramos fotos de crepúsculos alaranjados. As refeições eram pratos tradicionais e saborosos da culinária brasileira, incluindo as deliciosas tapiocas, frutas tropicais e um delicioso café pela manhã.

Ainda assim, a parte principal da viagem não foi o que aconteceu no barco, e sim fora dele. Certa noite, Nigel nos conduziu a uma pequena canoa motorizada e acelerou pelas águas pretas do rio. Vasculhou a margem com uma poderosa lanterna, a espera de um par de pontos vermelhos que indicariam o olhar de um animal - com a cabeça para fora d'água, encarando-nos da margem ou, com sorte, pendurados em uma árvore como uma preguiça (vimos um jacaré).

Os interessados em expedições que parecem um safári brasileiro, envolvendo onças, tamanduás e ariranhas, devem procurar a região do Pantanal. Mas o vasto ambiente sem estradas, e as pessoas que vivem nas margens dos rios amazônicos, são incríveis. Nossa viagem incluiu duas visitas a comunidades ribeirinhas, cujas casas ficam sobre palafitas, as crianças estudam em escolas de um só cômodo e geradores a diesel garantem o funcionamento da televisão comum.

A rotina no barco nunca ficou cansativa. Visitamos as ruínas de Airão, cidade abandonada há meio século, parcialmente devorada pela selva. Pescamos piranhas - e comemos as poucas que apanhamos fritas no almoço.

Em um dos passeios de barco, a lanterna de Nigel iluminou dois olhos vermelhos demasiadamente altos em relação à margem para pertencerem a um jacaré. Era um gato maracajá, explicou Nigel:  um felino pequeno e furtivo capaz de imitar o chamado de algumas de suas presas. O animal deu alguns passos ao longo da margem e desapareceu na mata. Eu tinha esperança de ver minha primeira preguiça, mas me contentei com esse excelente prêmio de consolação. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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