Diego Ibarra Sanchez/The New York Times
Diego Ibarra Sanchez/The New York Times

A explosão em Beirute despedaçou as suas obras-primas. Agora, começa a reconstrução

Ao longo de três décadas como a principal artista de vitrais do Líbano, Maya Husseini desenvolveu uma arte frágil em um país sujeito a choques violentos

Ben Hubbard, The New York Times - Life/Style

12 de janeiro de 2021 | 05h00

HAZMIYEH, LÍBANO – As suas mãos criaram o suave sorriso no rosto da Virgem Maria, as dobras das vestes dos Quatro Evangelistas, e a luz que envolvia um menino Jesus angelical. Nos seus trinta anos de trabalho minucioso, Maya Husseini se firmou como a principal artista de vitrais do Líbano, e o seu trabalho fazia a luz do Mediterrâneo dançar em muitas das igrejas mais conhecidas do país.

Quando comemorou o seu 60º aniversário, no dia 3 de agosto, ela esperava concluir um último projeto e aposentar-se. Mas o Líbano tinha outros planos. No dia seguinte, uma enorme explosão no porto de Beirute destruiu bairros inteiros, edifícios de apartamentos, matou mais de 190 pessoas e causou danos no valor de bilhões de dólares.

Também destruiu igrejas onde estavam obras de Husseini, reduzindo cerca de dez dos seus quadros delicados a fragmentos dentilhados e metal retorcido. “Trinta anos da minha vida profissional se foram”, ela disse em uma entrevista depois da explosão, em sua oficina perto de Beirute. “Viraram pó!”

Em seguida, quando o seu celular se encheu de imagens enviadas por sacerdotes e pastores furiosos mostrando o seu trabalho destruído, Husseini decidiu que sua aposentadoria teria de esperar. “Eu queria parar, mas não tenho este direito”, afirmou. “Trata-se de um patrimônio. Não tenho o direito de não trazê-lo de volta como era antes”.

Desde os 15 anos de guerra civil, que terminou em 1990, o Líbano testemunhou assassinatos políticos, ataques aéreos israelitas, atentados da jihad com carros bomba e a chegada de mais de um milhão de refugiados da vizinha Síria. Tudo isto foi antes de outras crises mais recentes que devastaram o centro de Beirute e arruinaram a economia. A vida e a arte de Husseini sempre atravessaram o caos que antes da explosão de Beirute só ocasionalmente atingia locais sagrados.

Um deles foi uma igreja danificada no atentado com um carro-bomba em 2005, que matou o ex-primeiro-ministro Rakif Hariri. O seu primeiro projeto importante – grandes vitrais com imagens na igreja de Notre Dame du Mont, na cidade de Adma, nas montanhas do Líbano – também foi danificado quando Israel bombardeou uma antena de televisão próxima durante a sua guerra contra o grupo militante Hezbollah, em 2006.

A explosão de agosto do ano passado, a maior da história do Líbano, foi muito maior do que as outras, e os danos à sua obra ficaram claros em uma visita à sua oficina fora de Beirute, onde uma grande porta de metal ficou amassada com o impacto. Na entrada estavam os restos dos vitrais de três igrejas e de uma residência, na esperança de que possam ser reparados. No interior, a artista, uma mulher cheia de energia, olhava enquanto dois assistentes montavam o desenho de papel de um grande retrato de Jesus, Maria e José na fuga para o Egito.

Ela instalara o original na Igreja de São José, em Beirute, em 1992, e desenterrou o desenho do original que foi destruído na explosão, para refazê-lo. Husseini é de uma família cristã maronita de Beirute, onde ela e as quatro irmãs iam regularmente à igreja, e começou a desenhar aos 12 anos.

Ela tinha 15 na eclosão da guerra civil do Líbano, quando várias milícias combatiam pelo domínio do país, arrasando e dividindo a cidade. Ela estudou na Academia Libanesa de Belas Artes e fez um curso de dois meses sobre a produção de vitrais nos Ateliers Loire de Chartres, na França, onde está a catedral com os mais belos vitrais do mundo.

Embora o Líbano tenha mais cristãos per capita do que qualquer outro país árabe, os vitrais não eram comuns em suas igrejas antes da guerra, explicou Husseini. Mas depois que as armas tombaram silenciadas em 1990, algumas congregações quiseram acrescentá-los na reconstrução do país.

A primeira barreira que ela teve de superar, afirmou, foi a hesitação dos líderes religiosos de igrejas em contratar uma mulher, por um trabalho que é considerado fisicamente muito exigente. “Não era sempre que eles confiavam em mim”, contou. Seu pai, um engenheiro que construiu igrejas, conventos e escolas religiosas, ajudou-a inicialmente, e ela concluiu sua primeira encomenda em 1991 – cerca de 130 metros quadrados de vidro na igreja de Adma representando cenas da vida de Cristo.

No ano seguinte, ela produziu imagens de santos e um mural de Jesus, Maria e José no Egito para a igreja de São José, em Beirute. Quando a sua fama se espalhou, recebeu mais encomendas, e no final desenhara e produzira virais para mais de 35 igrejas e dependências em todo o Líbano.

Também fez fachadas e murais para residências, e as janelas verdes, amarelas e azuis do Museu Sursock, um museu particular de arte contemporânea em Beirute. Antes da explosão, o principal projeto que restava concluir eram as janelas de uma nova basílica na Jordânia, perto do local no Rio Jordão onde dizem que João Batista batizou Jesus. Deveria levar dois anos, e depois o plano era passar a ensinar jovens artesãos libaneses na profissão.

Husseini estava na casa da família nas montanhas acima de Beirute quando ouviu a explosão, no dia 4 de agosto, mas não se deu conta da sua magnitude de imediato. A avó do seu genro ficou ferida e foi para o hospital. Os seus clientes encheram o seu celular de fotos de suas obras despedaçadas no chão da igreja. Dias mais tarde, ela começou a visitar os locais onde outrora estavam os seus trabalhos, e foi a Catedral de São Luís que mais a chocou.

Das 39 janelas nas quais ela havia trabalhado por mais de dois anos, restavam apenas três. “Foi quando eu me dei cona das dimensões da catástrofe”, falou. Nas semanas seguintes, ela voltou ao trabalho, contratou novos assistentes para acelerar as obras de reparo e começou o demorado processo para conseguir os materiais do exterior. Recuperar tudo poderá levar anos, e os seus projetos maiores estão parados enquanto as congregações tratam de reunir o dinheiro para os restauros. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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