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Mostra na Alemanha relembra a Conferência de Potsdam com documentos históricos

Foi nesta conferência, em 1945, que as potências vitoriosas da Segunda Guerra Mundial se reuniram para estabelecer a nova ordem mundial, que durou até a queda do Muro de Berlim

Catherine Hickley, The New York Times - Life/Style

28 de julho de 2020 | 05h00

POTSDAM, ALEMANHA – A chegada da bengala, do chapéu Panamá e do tubo do charuto de Winston Churchill sofreram um atraso. Estes objetos viajaram da antiga casa do primeiro-ministro da época da guerra, na Inglaterra, para esta cidade, a cerca de 32 quilômetros de Berlim, para uma mostra em comemoração ao 75º aniversário da Conferência de Potsdam. Na cúpula de 16 dias de duração, no final da Segunda Guerra Mundial, as potências vitoriosas reuniram-se com o objetivo de estabelecer a nova ordem mundial que durou até a queda do Muro de Berlim.

Em razão do fechamento determinado pela epidemia do coronavírus na Grã-Bretanha, a obtenção de uma licença de exportação dos itens levou mais tempo do que o esperado –, depois de fazer a mesma viagem do seu proprietário, em 1945.

A bengala, o chapéu e o tubo do charuto ficarão expostos no Palácio Cecilienhof, a casa de campo coberta de era localizada em um parque tranquilo em que se realizou a conferência. Depois da rendição da Alemanha, no final da guerra, Churchill, o presidente Harry Truman e o líder soviético Josef Stalin reuniram-se em Cecilienhof para negociar o futuro do país derrotado e redesenhar as fronteiras da Europa Oriental.

A mostra, A Conferência de Potsdam 1945: Como o mundo foi moldado, que irá até 31 de dezembro, contém documentos históricos, filmes, fotografias e lembrança daquele evento com a finalidade de trazer de volta à vida o acontecimento histórico e analisar como ele determinou a história mundial. As conclusões oficiais da conferência, estabelecidas no Acordo de Potsdam, tiveram repercussões imediatas para a Alemanha e para o resto da Europa, mas a exposição mostra também que as discussões de bastidores tiveram implicações a longo prazo para a Ásia e o Oriente Médio.

De 17 de julho a 2 de agosto de 1945, os “Três Grandes” se reuniram em uma mesa redonda (que está na mostra) diante de uma enorme janela com vista para o lago. Depois das discussões preparatórias entre os delegados, e em seguida entre os chanceleres, os líderes realizaram um total de 13 sessões diárias a partir das 17h, e com uma ou duas horas de duração. À noite, era oferecida alguma forma de entretenimento.

“Os EUA pensavam que o relacionamento com Stalin seria difícil, mas que poderia ser administrado”, afirmou em uma entrevista por telefone Michael Neiberg, historiador e autor do livro Potsdam: The End of World War II and the Remaking of Europe. “Os participantes ainda não falavam em uma Guerra Fria. Potsdam era um ponto de exclamação no fim do grande problema da Alemanha na Europa. O clima era alegre; eles cantaram juntos, e participaram de banquetes juntos”.

Depois que o Exército Vermelho conquistou Berlim, em maio de 1945, a cidade ficou sob o controle soviético por dois meses, e Stalin propôs oferecer a realização de uma conferência após a guerra na cidade para os vencedores. No final, as potências aliadas concluíram que ela seria realizada na vizinha Potsdam, que havia sido melos danificada do que Berlim, cujo centro era um deserto de escombros onde ainda era possível sentir o odor dos cadáveres, dos esgotos e da fumaça dos incêndios.

Cecilienhof, construída para o filho mais velho do último imperador da Alemanha e sua esposa, Cecilia, ficou praticamente intocada pela Segunda Guerra Mundial, com exceção de algumas janelas quebradas. A bela decoração do palácio acarpetado, de 1945, foi meticulosamente recriada para a exposição – até os cristais venezianos finamente pintados nas cristaleiras na sala do desjejum – com a ajuda de filmes e fotos do Arquivo Estatal de Cinema e Fotografia da Rússia e da Biblioteca e do Museu presidencial Presidente Harry S. Truman.

Pela primeira vez, estará exposto o diário de Joy Milward, a então secretária de 19 anos da delegação britânica, que grava suas impressões da conferência e do país destruído em que o evento foi realizado. Lembrando a viagem do aeroporto a Potsdam, ela escreveu: “Em ambas as margens da estrada, havia mulheres e velhos, crianças e jovens, todos carregando embrulhos nas costas ou puxando carrinhos lotados com os pertences familiares”. Com a destruição de suas casas e do seu trabalho, as pessoas estavam se deslocando em toda a Alemanha.

A conferência também tinha de decidir o que fazer com os milhões de alemães étnicos que viviam no que eram então Polônia, Tchecoslováquia, e Hungria, alguns dos quais haviam chegado como colonizadores depois da anexação desses países pelo Terceiro Reich. O acordo de Potsdam previa uma transferência “ordenada e em condições humanitárias”, mas as explosões que se seguiram foram tudo menos isto: cerca de 14 milhões de pessoas foram deslocadas, e centenas de milhares morreram de fome ou foram mortos quando a reação contra a Alemanha varreu as nações libertadas.

Utilizando as histórias pessoais dos refugiados e suas lembranças das terras perdidas – objetos como um samovar dourado e um conjunto de tesouras para cortar o pelo de ovelhas – a exposição mostra como as decisões dos três líderes tumultuaram as vidas de milhões de seres humanos. Enquanto as grandes potências concentravam suas atenções na Europa, a guerra na Ásia ainda grassava. Na noite anterior ao início da conferência, Truman foi informado de que os Estados Unidos haviam realizado com sucesso o primeiro teste de uma bomba atômica.

No dia 26 de julho, Estados Unidos, Grã-Bretanha e China emitiram um ultimato para o Japão, conhecido como a Declaração de Potsdam, exigindo uma rendição incondicional, ou “a imediata e total destruição.” Quatro dias depois do fim da conferência, os Estados Unidos lançaram uma bomba atômica sobre Hiroshima, matando dezenas de milhares de pessoas. Três dias mais tarde, Nagasaki foi aniquilada.

Um objeto tocante cedido a Cecilienhof pelo Museu do Memorial da Paz de Hiroshima é a lancheira de metal enegrecido de um menino de 12 anos, Koji Kano, cujo corpo jamais foi encontrado. A última seção da mostra trata da invasão soviética da Manchúria, ocupada pelos japoneses, que ocorreu uma semana depois do fim da conferência, e como o ultimato feito ao Japão levou à independência da Coreia.

Também podem ser vistas imagens da retirada das tropas britânicas e soviéticas do Irã e o fracasso das três potências de estabelecer uma indenização para os sobreviventes do Holocausto ou de decidir o que aconteceria em seguida com a Palestina. Os desdobramentos na Grã-Bretanha também ofuscaram a conferência, que foi interrompida por dois dias enquanto Churchill regressava a Londres para os resultados das eleições gerais.

Ele perdeu por uma quantidade inesperada de votos para o Partido Trabalhista de Clement Attlee: Nos últimos quatro dias, Attlee o substituiu na mesa de negociação. No final da cúpula, Truman sugeriu que os Três Grandes deveriam voltar a se reunir em Washington, encontro que, segundo Attlee esperava, representaria “um marco histórico na estrada da paz entre os nossos países e o mundo”.

Mas este evento jamais se realizou e a incômoda aliança do tempo de guerra entre os Estados Unidos e a União Soviética se desfez com o início da Guerra Fria. Portanto, acaso a Conferência de Potsdam pode ser considerada um sucesso? “Sua intenção era não repetir os erros do Tratado de Versalhes, em que deixaram de estabelecer as condições corretas para a paz”, disse Neiberg. “Eles obtiveram um sucesso moderado neste sentido.

Eles resolveram o problema fundamental da Alemanha. Também estabeleceram os termos iniciais que impediram que a Guerra Fria se tornasse uma guerra quente. As pessoas que pagaram o preço foram os europeus do Leste, que acabaram vivendo sob o jugo soviético”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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