Brittainy Newman/The New York Times
Brittainy Newman/The New York Times

Exposição de Burle Marx em NY é uma passagem para o futuro 

Obras do maior paisagista do Brasil, com protagonismo da flora do País, estarão abertas para visitação até 29 de setembro

Jason Farago, The New York Times

07 de julho de 2019 | 06h00

A exposição Brazilian Modern: The Living Art of Roberto Burle Marx [Modernismo brasileiro: a arte viva de Roberto Burle Marx] traz uma amostra exuberante do modernismo tropical ao Jardim Botânico de Nova York. Burle Marx, maior paisagista do Brasil, não é um esquecido pela atenção institucional recente; três anos atrás, o Museu Judaico apresentou uma retrospectiva de suas pinturas, tapeçarias, jóias e desenhos para áreas verdes e espaços públicos no Rio de Janeiro, em Brasília e Miami. Mas aquela exposição não podia oferecer o que essa mostra: um jardim completo, verdejante e encantador, com inúmeras flores e imbés identificados pela primeira vez pelo próprio Burle Marx. A exposição ficará montada até 29 de setembro.

Na companhia de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, grandes planejadores de Brasília, Burle Marx (1909-1994) é o principal responsável pelas impressões utópicas do ambiente construído brasileiro, com suas superestruturas de concreto envoltas pela vastidão verde. O jardim do Bronx (projetado por Raymond Jungles, de Miami, discípulo de Burle Marx) não reproduz nenhum projeto específico de Burle Marx, mas mistura as características dos seus mais de dois mil parques e jardins em uma paisagem ultra-tropical.

Uma sinuosa faixa de concreto branco e preto, que evoca o calçadão de Copacabana, conduz o visitante por pequenas palmeiras, orelhas-de-elefante e campos de amaranto. As flores e plantas são agrupadas em faixas monocromáticas de cor forte - roxo ou verde, vermelho profundo ou laranja - que ondulam acompanhando o calçadão de concreto, uma tradução das pinturas abstratas que Burle Marx fazia como material de preparação. No limiar do jardim, uma fonte de concreto falso imita a abstração curva que ele gravou em baixo-relevo para o Banco Safra, em São Paulo, jorrando água em um lago abaixo.

Muitas das espécies são nativas do Brasil, em especial as lindas bromélias: plantas floridas com folhas em distribuição circular em tons de rosa, laranja e verde. A exposição é apresentada como a maior já realizada pela instituição, e certamente apostou tudo no espírito carioca. Há bossa nova tocando nos falantes dentro do conservatório, que contém espécies de flores mais sensíveis. Dentro, placas trazem trechos de poesia brasileira, em português e inglês.

Na biblioteca, vemos uma pequena exposição das pinturas e tapeçarias da obra tardia de Burle Marx, feitas durante a ditadura que durou de 1964 a 1985. Um dos ambientes promete mostrar ao público a fabulosa casa dele no Rio, mas traz apenas algumas fotos, e dá aos visitantes a chance de desenhar em azulejos de cerâmica com caneta azul. O momento escolhido para a exposição parece ao mesmo tempo adequado e estranho. Adequado porque a crise climática despertou o interesse dos jovens arquitetos pelo paisagismo. Estranho porque Burle Marx fez boa parte de suas obras em projetos do governo, e hoje esse governo não é muito acolhedor da vegetação. O presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro (PSL), quer explorar agressivamente a floresta tropical que Burle Marx amava. 

O Jardim Botânico nos transporta a um país imaginário, com uma cultura alimentada por influências da Europa, da África e da América. Mas essas utopias projetadas por Burle Marx, principalmente com Niemeyer e Costa em Brasília, têm sido visões verdejantes de um futuro que nunca chega. O que elas oferecem é um horizonte com o qual sonhar, uma amostra terrena de uma vida em comum. Para Burle Marx, os jardins tinham esse poder. “A visão dessa associação de plantas nos dá a impressão de um pacto de convívio", disse certa vez. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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