via Instituto do Mundo Árabe
via Instituto do Mundo Árabe

Exposição de futebol mostra ascensão de times árabes

Uma nova mostra no Instituto do Mundo Árabe, em Paris, explora como o esporte revela mudanças políticas e sociais na África e no Oriente Médio

Cody Delistraty, The New York Times

14 de junho de 2019 | 06h00

PARIS - Nos campos, o futebol é um substituto para a guerra, com uniformes, formações, vitórias e derrotas. Fora dos gramados, o futebol é poder, com os donos dos times frequentemente usando essas organizações para ter acesso aos benefícios que acompanham um esporte que desperta tantas paixões.

Os esportes em geral, e especialmente o futebol - dado seu apelo global -,  são uma maneira ideal de comprar prestígio para os ricos, usado também pelos países interessados em melhorar a própria reputação, particularmente quando seus governos se veem associados a temas indesejáveis como abusos dos direitos humanos e desigualdade de gênero.

"Futebol e o mundo árabe: a revolução da bola", exposição em cartaz no Instituto do Mundo Árabe, em Paris, até 21 de julho, faz um levantamento da história moderna do esporte na África e no Oriente Médio, mostrando as mudanças nas políticas ligadas a gênero, raça, governo e finanças por meio do olhar do jogo.

Observando o mundo árabe a partir de uma perspectiva francesa, o programa mostra acontecimentos de meados do século, como a ascensão da primeira seleção argelina, cujos jogadores romperam com a França, embora a Argélia ainda fosse colônia na época, e eventos mais recentes, como a compra da equipe francesa Paris St.-Germain por uma empresa estatal do Catar.

O fio que costura a exposição é uma exploração do poder de influência política: usando o futebol para explorar o crescente alcance de alguns países árabes, em um momento em que a influência global da França está diminuindo - visto dentro da legitimidade cultural que o esporte proporciona.

"Há novos países árabes no jogo", disse a curadora, Aurélie Clemente-Ruiz, em apresentação recente da exposição. "Não é apenas o Norte da África ou o Oriente Médio, mas também países da Península Arábica - Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes - que estão muito envolvidos com o futebol, e essa é para eles uma maneira de existirem dentro de uma perspectiva internacional. É um modo real de poder brando, muito útil para eles".

Para personalidades como Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro da Arábia Saudita, a associação com o futebol global pode ajudar a distrair a atenção da indignação global gerada pelo assassinato de um dissidente. Para o xeque Mansour bin Zayed al-Nahyan, de Abu Dhabi, um dos Emirados Árabes Unidos, sua compra e os pesados gastos com a equipe inglesa Manchester City lhe garantem automaticamente certo grau de fama e influência. Motivações semelhantes inspiram a gestão do Catar para o Paris St.-Germain e os esforços bem-sucedidos do país para receber a Copa do Mundo de futebol masculino em 2022.

A exposição também se concentra no futebol enquanto forma encontrada por pessoas em posições marginais da sociedade para conquistar o reconhecimento: explora a ascensão das equipes árabes femininas e as mudanças nas atitudes em relação às raças na França entre as vitórias na Copa do Mundo em 1998 e 2018. 

Aurélie disse que o slogan usado por todos ao se referir à seleção francesa de 1998, "black-blanc-beur", ou "negro-branco-árabe", foi substituído em 2018 por "azul-branco-vermelho", as cores da bandeira francesa.

"O futebol é o primeiro espaço em que muitas pessoas aceitam a imigração, enxergando essas cores como suas", disse Aurélie. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.