Peter Prato for The New York Times
Peter Prato for The New York Times

Exposição de moda mostra a complexidade das mulheres muçulmanas

Museu recebe críticas, mas aposta no combate aos estereótipos

Jori Finkel, The New York Times

12 Outubro 2018 | 06h00

SAN FRANCISCO - Quando, há dois anos, Max Hollein anunciou a sua ideia de uma exposição de moda muçulmana no de Young Museum da cidade, onde era diretor, esbarrou em algumas “reações muito intensas”, lembra.

“Recebi vários e-mails lamentando, alguns em tons muito duros, que este não é o momento adequado para os Estados Unidos celebrarem a cultura muçulmana”, disse Hollein. “Por outro lado, houve pessoas que nos acusaram de celebrar a opressão das mulheres.” O museu também ouviu de pessoas de religião islâmica que achavam o conceito de “moda” antiético para os modestos códigos do vestuário de sua religião. Para elas, a própria ideia da exposição pareceu um sacrilégio.

“Sabíamos desde o começo que estávamos entrando em um território desconhecido”, disse Hollein, o diretor do Metropolitan Museum of Art em Nova York, que tirou uma folga em seu novo emprego para assistir à inauguração da exposição “Modas Muçulmanas Contemporâneas” em setembro, no Museu de Young.

“Nossa intenção não era provocar”, afirmou o diretor do museu nascido em Viena. “Mas compartilhar o que temos visto na moda muçulmana com o mundo em geral, de maneira a poder criar uma maior compreensão.”

As consumidoras muçulmanas gastaram 243 bilhões de dólares em vestuário em 2015, e deverão gastar 368 bilhões de dólares até 2021, segundo um relatório da Thomson Reuters.

A mostra “Modas Muçulmanas Contemporâneas”, que irá até o dia 6 de janeiro, explora a fusão da fé com a moda, a modéstia e a modernidade.

Os 80 conjuntos da mostra variam de versões atualizadas da tradicional veste chamada abaya, a roupas esporte relaxadas, inspiradas no hip-hop, conjuntos texturizados,  ricamente elaborados artesanalmente com tecidos batik e tecidos pelas designers indonésias Dian Pelangi e Khanaan Luqman Shanlan. A exposição, que inclui vídeos de eventos extremamente interessantes, como as controvertidas proibições francesas do burkini, o maiô de corpo inteiro, em 2016, e a abolição  do hijab no Irã, em 2018.

Hollein trouxe a ideia da mostra para Jill D’Alessandro e Laura L. Camerlengo, as curadoras têxteis e de vestuário do Museu de Young.

Elas convenceram Reina Lewis, professora de estudos culturais do London College of Fashion da University of the Artes Londres e renomada especialista em moda modesta, a se unir ao seu projeto. 

“Não houve nenhuma mostra desta magnitude ou escala anteriormente”, disse Reina.

Ela disse que estava preparada para se defrontar com uma série de preconceitos e estereótipos. “Se você se veste com modéstia, alguns falam que não é suficientemente modesta”, ela disse. “Outras mulheres muçulmanas poderão dizer: Alá ama a beleza, faz parte da minha prática religiosa vestir de maneira elegante e estética”.

As curadoras também ouviram críticas feministas segundo as quais peças muçulmanas como os hijabs são símbolos da opressão patriarcal. A perspectiva de Lewis é que “algumas mulheres tentam introduzir uma mudança de dentro para fora, e que todos temos vidas complexas e contraditórias.”

Hollein confiou a tarefa aos arquitetos iranianos Gisne Hariri e Mojgan Hariri, sediados em Nova York. Eles criaram um ambiente elegante quase futurista que reproduz as telas e os arcos muçulmanos tradicionais.

“Nós não queremos que a mostra seja escura, velada e impenetrável, como os estereótipos da cultura muçulmana”, disse Gisne Hariri, “Queremos que ela reflita o que a moda nos mostra: algo leve, poderoso e belo”.

Mais conteúdo sobre:
moda exposição Islamismo muçulmano

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.