Museu Nacional do Índios Americanos via The New York Times
Museu Nacional do Índios Americanos via The New York Times

Exposição em museu traz luz à contribuição indígena na cultura dos EUA

Exposição apresenta nomes, símbolos e histórias de nativos americanos que são onipresentes na vida americana

Jennifer Schuessler, The New York Times

31 de julho de 2020 | 05h00

Neste mês, o time de futebol americano de Washington anunciou que iria aposentar o nome “Redskins” (pele-vermelha) e o logotipo com a cabeça de um índio adornada de penas, revertendo abruptamente sua firme defesa de um nome há muito tempo considerado um insulto racial. Mas o logotipo da equipe será preservado, pelo menos até 2027, num lugar inesperado: no Museu Nacional do Índio Americano, em Washington.

Um cobertor de bebê com o logotipo paira perto da entrada de Americanos, exposição que foi inaugurada em 2018. A peça está instalada num salão altaneiro, juntamente com cartazes publicitários, brinquedos, clipes de filmes, brinquedos, armas e centenas de outros objetos de temática indígena que, dependendo do ponto de vista do observador, vão do cafona ao charmoso, passando pelo ofensivo.

O objetivo? Iluminar o paradoxo de que nomes, símbolos e histórias de nativos americanos são onipresentes na vida americana, mesmo que os índios de verdade estejam, em grande medida, invisíveis. E não apenas onipresentes, argumenta a exposição, mas centrais na identidade americana.

“É assustador, estranho e subversivo”, disse Paul Chaat Smith, curador que criou a exposição com Cécile R. Ganteaume, sobre a profusão das imagens dos povos nativos. “Queríamos dizer que isso faz parte da vida americana há mais de trezentos anos, desde antes da fundação”, disse ele. “Por que nunca saiu de moda, de Paul Revere a Kanye West?”.

O museu está fechado por causa do coronavírus, mas grande parte da exposição pode ser vista online. Conversamos com Chaat Smith, que é comanche (grupo étnico nativo americano), sobre a exposição, a mudança do nome do time e como pensar em nosso apego às imagens dos nativos americanos. Estes são trechos editados da conversa.

No início deste mês, o museu divulgou uma declaração pedindo o fim do uso de mascotes e imagens racistas. O que você acha da decisão da equipe de Washington?

Quando você acompanha essas questões por muitos anos, muitas décadas, é impressionante ver as coisas mudarem da noite para o dia. Estamos muito satisfeitos com a decisão. Queremos parar com esse negócio de sermos mascotes. Algumas pessoas dizem que esses nomes honram os guerreiros e são uma maneira de introduzir a cultura nativa.

Mas uma equipe da NFL não é o lugar ideal para educar o público sobre questões nativas. Se fosse um bom lugar, haveria homenagens equivalentes aos latinos, aos asiáticos e a qualquer outro grupo. Mas só acontece conosco.

Quando a exposição foi inaugurada, o foco na apropriação da cultura pop, e não na cultura nativa autêntica, foi visto como algo que se afastava da concepção do museu. Qual foi a ideia por trás dessa escolha?

Desde que o museu foi inaugurado há mais de dez anos, descobrimos que as pessoas são muito solidárias com os nativos americanos. Elas tendem a pensar que a cultura nativa é valiosa e importante. Mas as pessoas estavam se tornando turistas culturais. Aprendiam algumas coisas, mas achavam que essas coisas não tinham nada a ver com elas.

Não saíam daqui lembrando dos índios, como acontece com os afro-americanos, que estão presentes na cultura de um jeito muito diferente. Agora você se dá conta: “Uau, é interessante como toda a nossa vida está cercada por imagens indígenas”. Então podemos argumentar que os índios são essenciais para a identidade nacional dos Estados Unidos.

Você tem índios em nomes de fluido de freio, de sistemas de armas, de equipes esportivas, de todo tipo de coisa que não têm nada a ver com os índios, mas que têm o objetivo de dizer algo sobre autenticidade, sobre americanidade.

Foi arriscado colocar algumas dessas coisas na exposição?

No caso dos materiais esportivos, os ativistas sempre diziam: esse material deveria estar num museu. Estamos satisfeitos por colocar essas coisas no museu.

O nome da equipe de Washington se foi. A imagem da mulher nativa no rótulo da manteiga ‘O Land O’Lakes Maiden’ também se foi. Todas essas coisas deveriam desaparecer?

Queríamos evitar esse tom prescritivo, dizer: “Este nome de equipe é ruim. É uma ofensa. Mas este outro não é”. Algumas coisas são desagradáveis. Devemos nos livrar de algumas coisas. Mas não estamos tentando ser uma força policial que envergonhe as pessoas. Não nos ajuda eliminar tudo. O problema dos nativos americanos é a invisibilidade na vida americana.

Algumas dessas imagens pelo menos tinham a intenção de fazer uma homenagem, certo?

Não é uma coisa como a marca de xarope Aunt Jemima. Muitas dessas imagens tinham a intenção de ser favoráveis. Mas ainda é algo muito singular – os outros grupos não estão nos rótulos dos produtos como nós.

A exposição também reexamina quatro histórias envolvendo índios que circulam abertamente na cultura americana, como o Dia de Ação de Graças (tema de um vídeo muito engraçado) e a Batalha de Little Bighorn. A mostra diz que a derrota de Custer foi um choque nacional semelhante ao assassinato de Kennedy. Mas, anos depois, alguns dos guerreiros viraram celebridades. E então os índios das planícies, que não passavam de 30 mil, passaram a simbolizar todos os índios e até a própria América. Como isso aconteceu?

É uma coisa muito maluca. Houve uma sensação de tragédia nacional após a derrota de Custer. Mas, muito em breve, Touro Sentado já estava fazendo uma turnê de palestras na costa leste. Havia uma série de opiniões, mas muitas pessoas passaram a ver esses povos sioux e cheyennes como americanos maravilhosos. Depois de Little Bighorn, as pessoas disseram: “Ei, nós meio que gostamos dos índios. É o que nos diferencia, este molho especial dos índios americanos”. Mas ainda aconteciam atos de expropriação. Todas essas coisas estão coexistindo.

As pessoas podem ter uma forte reação a esse questionamento aos nomes das equipes ou aos rituais dos escoteiros. Existem objetos de temática indígena com os quais você tem alguma conexão emocional?

Sou do século 20, nasci nos anos 50. As pessoas daquela época não enxergavam nada de realmente positivo nos povos nativos na vida normal. Então, quando viam algum objeto indígena, achavam que podia ser especial. Sabemos que é brega, que é uma fantasia e que não tem nada a ver conosco. Mas é um tipo de visibilidade. Gosto do fato de Elvis Presley ter feito dois filmes ruins (Joe É Muito Vivo e Estrela de Fogo) nos quais interpretou nativos americanos.

A maior estrela do mundo achou os índios interessantes. Mas, claro, queremos filmes realistas e melhores. Algumas pessoas entram no nosso museu usando bonés do Atlanta Braves e outros times. Talvez seja irônico. Talvez achem que isso deve ser mudado, mas ainda torcem para as equipes. Para pessoas de uma certa geração, é uma coisa poderosa. Está dizendo: “Ei cara, ainda estamos aqui”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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