Marko Risovic para The New York Times
Marko Risovic para The New York Times

Com nova exposição, Marina Abramovic retorna para casa depois de 44 anos

Artista está de volta a Belgrado com a mostra 'The Cleaner' em cartaz até 20 de janeiro de 2020

Andrew Dickson, The New York Times

24 de outubro de 2019 | 06h00

BELGRADO, SÉRVIA - O retorno de Marina Abramovic a Belgrado, depois de 44 anos, foi um acontecimento, e cartazes espalhados por toda a cidade anunciaram a retrospectiva de sua obra, inaugurada mês passado no Museu de Arte Contemporânea. Ela pareceu apreciar a atenção.

“Por estar em Belgrado de novo, todas as emoções avançam na minha direção”, disse ela. “Tento não ser sentimental, mas é difícil.” Intitulada The Cleaner e em cartaz até 20 de janeiro, a exposição representa, em muitos sentidos, o retorno da artista à sua casa. Trata-se da maior retrospectiva do trabalho de Marina já organizada, apresentando mais de 120 trabalhos realizados pela artista desde meados da década de 1960.

A mostra estreou em 2017, no Museu de Arte Moderna de Estocolmo, e passou por Dinamarca, Noruega, Alemanha, Itália e Polônia antes de chegar à Sérvia, seu destino final. Atraiu críticas respeitosas. Em Belgrado, a exibição parece um lembrete de uma era em que Marina produzia manchetes com a impetuosidade de sua arte.

Dentro das instalações, ecoam gemidos guturais e choros da artista vindos dos fantasmagóricos filmes em preto e branco de suas primeiras performances. Todo o acervo permanente do museu foi guardado para abrir espaço para a exposição, e uma equipe de artistas “reperformáticos” locais foi contratada para trazer à vida as performances anteriores de Marina.

Na noite de estreia, uma jovem mulher subiu em uma cadeira próxima à entrada e gritou: “A arte deve ser bela, o artista deve ser belo”, em tributo ao trabalho de 1975 de Marina com esse título. No andar de cima, dois performers - um homem e uma mulher - sentavam-se rígidos, de costas um para o outro, amarrados juntos pelos longos cabelos, em uma re-encenação da performance de 17 horas, de 1977, que a artista realizou com Ulay, seu colaborador e parceiro de longa data: Relation in Time.

Talvez tenha sido melhor que não tenha havido nenhuma tentativa de re-encenar Rhythm 5, a performance feita pela artista durante seus anos em Belgrado que ganhou mais notoriedade, de 1974, na qual ela desafiou pela primeira vez os limites de seu corpo quase até a morte. Nessa performance, a artista se deitou no meio de uma estrela de madeira em chamas - o que, segundo reza a lenda local, quase a asfixiou.

Nascida em Belgrado, em 1946, Marina passou seus primeiros 29 anos de vida nessa cidade, que na época era a capital da Iugoslávia. Apesar descrever sua infância como “desoladora”, tendo sido criada à sombra de pais que foram heróis de guerra condecorados e tinham altos postos no governo comunista, Marina encontrou na arte uma maneira de se rebelar. Depois de estudar pintura em Zagreb, ela se juntou ao anárquico e provocativo grupo de artistas que se reuniu em torno do Centro de Arte Estudantil de Belgrado.

Um dos primeiros trabalhos conceituais de Marina envolvia fazer decolar uma esquadrilha de caças da Força Aérea iugoslava que realizasse formações em voo determinadas por ela. A ideia da artista nunca foi levada a cabo. Em 1975, Marina escapou para Amsterdã.

Nos anos seguintes, sua carreira a levou para Austrália, Brasil, China, Japão e uma miríade de outros países, incluindo os Estados Unidos - em Nova York, cidade em que vive atualmente (às vezes), ela realizou sua mais grandiosa obra de arte, A Artista Está Presente. Voltou aos Bálcãs apenas para visitas efêmeras, disse ela, acrescentando: “Por muito tempo, eu não era bem-vinda”.

Mesmo qualificando a mostra como uma “volta para casa”, ela ainda se sente mais nômade do que nunca. E, apesar de a exposição ser uma retrospectiva de carreira, ela insistiu que não se trata de maneira nenhuma de uma despedida. “Vou morrer trabalhando”, afirmou ela diversas vezes.

Quando questionada se sente que ter se tornado uma celebridade já entrou em conflito com seus objetivos artísticos - um assunto que poderia tê-la irritado - Marina não se pareceu se abalar. Pausando sua fala para dar um sorriso irônico, ela disparou de volta uma frase de Woody Allen: “Hoje, sou uma estrela; amanhã, sou um buraco negro”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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