Mr./KK; Julien Mignot / The New York Times
Mr./KK; Julien Mignot / The New York Times

Exposição retrata motim internacional comandado pelos millennials

A mostra, em cartaz até 23 de setembro, foi criada a convite do cantor Pharrel Williams por Mr., artista japonês conhecido por obras inspiradas na tradição do mangá e do anime

Laura Cappelle, The New York Times

04 de agosto de 2019 | 06h00

PARIS - Pharrell Williams encontrou um lugar feliz para sua criança interior: uma fantasia no estilo mangá na qual as crianças pegaram em armas. Essa é a essência de A Call To Action, exposição que teve como curador o cantor, produtor e empreendedor americano, montada no acervo de arte asiática do Museu Guimet,em Paris.

A exposição, em cartaz até 23 de setembro, foi criada a convite de Williams por Mr., artista japonês de 49 anos conhecido por suas coloridas obras inspiradas na tradição do mangá e do anime. A exposição ocupa uma única sala, traz cores vivas e é deliberadamente caótica: os visitantes pisam em folhas de plástico sujas de tinta, blocos de concreto e desenhos espalhados pelo chão. Pinturas em grande escala e silhuetas são diminuídas por graffitis ainda maiores e sinais de néon. Os principais personagens neste cenário pós-apocalíptico são meninos e meninas, a maioria empunhando armas multicoloridas.

Williams é um colecionador da obra de Mr., que “parece criada do ponto de vista de um eterno adolescente", disse o cantor em meados de julho. “Se alguém perdeu o contato com a criança interior, essas obras vão despertá-la”.

Mr. disse que a exposição imagina uma revolta internacional comandada pela geração mais jovem. “As crianças foram expulsas de casa, perderam os pais e precisam sobreviver. Fazem todo o possível para não serem mortas", explicou Mr. Uma citação do romance O Senhor das Moscas, de William Golding, recebe os visitantes na entrada: “Fizemos tudo que os adultos fazem. O que deu errado?”.

Mr. produziu a obra ao longo de cinco anos em resposta a uma ideia apresentada por Williams, que descreveu sua visão. “O que é o futuro e como chegamos a ele? Se não chegarmos a ele, o que nos impediria?”, disse. A resposta à última pergunta seria “as más decisões dos adultos", em uma série de temas que envolvem a mudança climática e a legislação de controle das armas nos Estados Unidos, por exemplo.

O papel de Williams não foi muito definido. Um curador costuma selecionar as obras e dispô-las para exposição. Mr. indicou que ele se encarregou desses aspectos no processo criativo. “Pharrell me sugeriu o tema", afirmou. “A partir de então, não recebi instruções precisas quanto aos detalhes".

Williams e Mr. foram apresentados um ao outro pelo artista japonês Takashi Murakami. Em 2014, Mr. codirigiu o vídeo da canção It Girl, de Williams, no estilo mangá. Mr. também produziu uma série de bonecos inspirados no cantor. Ele ganhou fama no início dos anos 2000 como parte do coletivo de arte Kaikai Kiki, fundado por Murakami. Participou da exposição Superflat, de Murakami, que inspirou o movimento artístico de mesmo nome.

As vivas imagens bidimensionais inspiradas nos mangás do Superflat têm suas raízes na cultura japonesa “otaku”, explicou Melissa Chiu, diretora do Hirshhorn Museum and Sculpture Garden, em Washington. “Otaku” é uma referência aos fãs com interesses obsessivos, ou “jovens encantados com os computadores e a cultura popular".

Mr. traduziu seu interesse nessa cultura nerd em uma arte cada vez mais pessoal. Telas espalhadas pela exposição em Paris mostram imagens de atividades corriqueiras filmadas por Mr. com o celular, uma forma de justaposição da realidade com as desafiadoras figuras infantis criadas por ele, explicou o artista. Williams disse depositar sua fé na geração jovem a qual A Call To Action é dedicada. “Acho que nossa geração continua fracassando, mas acredito de verdade que a geração millennial e a geração Z tomarão decisões melhores”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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