Adam Dean / The New York Times
Adam Dean / The New York Times

Extrema direita teme 'substituição' da população branca 

Um slogan sexista, racista, atualizado para os jovens de hoje

Nellie Bowles, The New York Times

31 de março de 2019 | 06h00

SÃO FRANCISCO -- Antes do recente massacre de 50 pessoas em mesquitas na Nova Zelândia, o suspeito divulgou um documento chamado “Substituição étnica em massa”. A primeira sentença diz: “A questão é a taxa de natalidade”, e ela é repetida três vezes. Por trás da ideia, está uma teoria da conspiração racista conhecida como “a teoria da substituição”, divulgada por um filósofo francês de extrema direita.

Ela se baseia na ideia de que as mulheres brancas não estão gerando filhos em número suficiente, e que a queda da taxa de natalidade levará os brancos do mundo inteiro a ser substituídos por não brancos. “Para as pessoas que participam do movimento do supremacismo branco tudo é visto em termos da reprodução e do gênero”, disse Kathleen Belew, professora de História na Universidade de Chicago.

Com o crescimento dos grupos de extrema direita, inúmeros membros insistem que a preocupação mais premente é a queda das taxas de natalidade. Esta preocupação, que eles consideram uma ameaça à sua própria existência, levou a argumentar com o fato de que mulheres estão trabalhando em lugar de ficarem em casa criando os filhos. Os grupos culpam o feminismo, indagando sobre a conveniência de se dar às mulheres o direito de trabalhar e de votar.

A obsessão pelas taxas de natalidade da extrema direita vem contribuindo para a formulação de objetivos políticos e, ao mesmo tempo, serve de slogan para o recrutamento. Os especialistas que acompanham estes movimentos se dizem alarmados com a velocidade e a força com que a ideia está se difundindo, principalmente entre jovens radicais. “As emoções que permeiam a direita hoje quase sempre dizem respeito à questão da fertilidade”, disse Paola Bacchetta, professora da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Estes temores contagiam as mensagens online, e estão se espalhando nas conversas mais comuns da direita. O apresentador da Fox News Tucker Carlson, por exemplo, entrou em uma destas discussões. Em janeiro, ele disse que o colapso das famílias era “a questão mais grave que impede que este país vá em frente”. Na sua opinião, a causa principal deste colapso é o fato de algumas mulheres hoje ganharem mais do que os homens.

O tema das taxas de natalidade tornou-se fundamental no recrutamento para os supremacistas brancos. Frequentemente, ele é o primeiro ponto político de acordo que um recrutador supremacista branco buscará em um candidato, principalmente entre os jovens. “Nos jogos e nas histórias em quadrinhos e em todas estas coisas que não estão relacionadas à política, o antifeminismo é um ponto de acesso fácil para justificar a própria posição e depois  começar a jornada entre as pessoas”, disse Amie Kelly, que prepara o seu doutorado na Universidade de East Anglia, na Grã-Bretanha.

Isto trouxe à baila antigos debates. Na coleção informal de blogs antifeministas conhecida como “manosfera”, as ideias básicas sobre igualdade de gênero voltam a ser contestadas. Em geral, elas são apresentadas no meio de memes e piadas, como aconteceu no manifesto do suspeito do crime na Nova Zelândia.

Quando um grupo de pessoas em um fórum online concorda que o declínio da fertilidade dos brancos é uma ameaça à própria existência dos brancos, a conversa logo versará sobre medidas a serem tomadas. Em alguns casos, a resposta é que brancos não deveriam ser eliminados. “O que está se firmando mais é a ideia de tirar da mulher o direito de voto”, disse Kelly. “Isto eu via muito nos espaços abertamente neonazistas, mas agora o vejo em espaços menos radicais. Ele é introduzido de início como uma piada, evidentemente, depois como uma política aceitável com a qual talvez nem todos concordem, mas que vale a pena discutir”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.