Jes Aznar / The New York Times
Jes Aznar / The New York Times

Fabricação de armas irregulares: um negócio familiar de gerações

Em Danao, nas Filipinas, uma família contribui para o mercado de cerca de dois milhões de armas proibidas no arquipélago, ante 1,7 milhão das legalmente registradas

Jason Gutierrez, The New York Times

13 de abril de 2019 | 06h00

DANAO, FILIPINAS - Numa remota encostas coberta pela neblina nos arredores da cidade de Danao, nas Filipinas centrais, funciona uma espécie de oficina; o seu proprietário é um mestre na fabricação armas. Acessível apenas a pé, por uma trilha íngreme e serpeante, camuflada por uma vegetação densa, a oficina decrépita de I. Launa tem um telhado de encerado rasgado, um balcão e várias máquinas para cortar e moldar o aço. Toda a instalação pode ser desmontada e transferida para outro lugar a qualquer momento.

A fabricação de armas ilegais permitiu sustentar os filhos da família e pagou a sua escola desde os anos de 1970. Launa, que pediu para não ser identificado, é apenas um dos inúmeros fabricantes de armas da região. Na aldeia, são cerca de dez. O ofício - que contribui para os cerca de dois milhões de armas não registradas das Filipinas, em comparação à 1,7 milhão das legalmente registradas - floresce em um lugar remoto onde a presença da polícia é escassa e a anarquia se espalha.

A fabricação de armas “é uma arte essencial transmitida de uma geração a outra, aqui”, disse Launa, de 63 anos, que a aprendeu com o pai e a ensinou ao filho. “Muitos presidentes chegaram e se foram”, acrescentou, sentado à única mesa iluminada onde havia várias réplicas de Colt.45 inacabadas. “Mas nós continuamos aqui”.

A fabricação de pistolas floresceu na região na época da Segunda Guerra Mundial, quando os moradores aprenderam a fazer armas  para sustentar a guerrilha que lutava contra os japoneses. Na década de 1960, Danao tornou-se o destino de gente fora da lei e de cidadãos comuns em busca de réplicas baratas, mas de qualidade. No início, estes fabricantes  vendiam os seus produtos abertamente, mas agora empregam fundistas para entregar a sua produção. Às vezes, um corretor entra na oficina e encomenda uma arma para um cliente.

Nos anos de 1990, foi feita uma tentativa de legalização do ofício regularizando os fabricantes, mas o projeto não conseguiu o apoio do governo. Pistolas e revólveres - que até um entusiasta teria dificuldade para distinguir de produtos legais - inclusive por causa da gravação que diz “Colt Automatic Caliber .45  Government Model” - são vendidos por cerca de 7 mil pesos, cerca de US$ 130, muito mais baratas do que os autênticos.

A arte praticada aqui cobra um preço muito alto em termos de vidas em todo o país. A polícia afirma que os assassinos que trabalham para facções políticas rivais se abastecem de armas na área de Danao, e diz que as vendas aumentaram um pouco às vésperas das eleições no país, a se realizarem em maio. Vários políticos foram mortos na violência durante a campanha eleitoral. Armas fabricadas em Danao, segundo a polícia, foram encontradas no local de mortes extrajudiciais e atribuídas às milícias favoráveis ao governo a mando do presidente Rodrigo Duterte, empenhado em eliminar a criminalidade decorrente das drogas.

Segundo a polícia, as armas também chegaram às mãos do Abu Sayyaf, um grupo pequeno, mas violento de terroristas que age no sul e que se fortaleceu estreitando cada vez os laços com o Estado Islâmico. “Neste momento, todo mundo pode comprar uma arma aqui, desde que tenha dinheiro para pagar, mesmo que seja um ladrão, um pistoleiro ou um matador de aluguel”, afirmou o chefe de polícia local, coronel Jaime Quiocho, explicando o motivo da atração das armas ilícitas. “Você compraria uma arma licenciada que pode ser rastreada, e trazer a polícia até você?”

Danao está localizada a cerca de 30 quilômetros de Cebu, a cidade principal das Filipinas centrais. Uma fábrica de produtos eletrônicos emprega uma parte da população de 130 mil habitantes, na maioria católicos e pobres, embora a agricultura e a pesca sejam as principais atividades.

Na oficina de Launa, que até então trabalhava para fabricar quatro armas por encomenda, pedaços de metal cortados estavam espalhados sobre a mesa. Seu filho de 28 anos ajustava um tambor e um mecanismo de ativação. Burilou e martelou cuidadosamente cada pequena parte da arma antes de montá-la, e checou repetidamente o seu mecanismo. Num último teste, deu um tiro em um buraco no chão.

À pergunta se alguma vez ele se sentiu culpado por saber que as suas armas são usadas em assassinatos sumários, Launa disse: “Eu fabrico as armas, mas não digo às pessoas que as usem para matar”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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