Milan Bures para The New York Times
Milan Bures para The New York Times

Fábricas checas utilizam robôs por falta de mão de obra humana

Estrangeiros seriam uma alternativa à escassez de trabalhadores, mas o governo da República Checa decidiu limitar a imigração

Liz Alderman, The New York Times

23 Abril 2018 | 10h00

PRAGA - Sempre que Zbynek Frolik precisava de novos funcionários para atender ao aumento dos pedidos em suas fábricas da Boêmia Central, publicava anúncios em toda a República Checa. Mas em uma economia próspera, na qual quase todo mundo estava empregado, poucos respondiam.

Aumentar os salários não ajudou. Nem a oferta de subsídio para a habitação. Então, ele recorreu aos robôs.

“Não conseguimos encontrar mão de obra humana”, disse Frolik, cuja empresa, a Linet, fabrica leitos hospitalares de última geração vendidos em mais de 100 países. “Agora, sempre que possível, tentamos substituir as pessoas por máquinas”.

Para a República Checa e seus vizinhos, a nova geração de robôs é necessária não apenas para fazer frente à escassez de mão de obra, mas também para aumentar a flexibilidade e a produção.

As empresas checas afirmam que seria útil permitir o ingresso de mais trabalhadores estrangeiros. Mas o governo conservador decidiu limitar a imigração. Ao mesmo tempo, as famílias checas não estão tendo filhos em número suficiente para substituir os trabalhadores que se aposentam.

A ideia dos trabalhadores migrantes em geral traz a visão de um futuro no qual funcionários de carne e osso deixarão de ser necessários. Em muitas das principais economias, as empresas estão experimentando a substituição da mão de obra humana nas fábricas, para dirigir caminhões e até mesmo na função de advogados com inteligência artificial, o que acenando com o fantasma de uma mudança maciça nos empregos.

Entretanto, na Europa Oriental, os robôs estão sendo considerados a solução para o problema da falta de trabalhadores. Frequentemente, eles ajudam a criar novos tipos de empregos enquanto as empresas de República Checa, Hungria, Eslováquia e Polônia tentam se manter ágeis e competitivas. O crescimento nestes países, que se tornaram polos de indústrias de baixo custo na Europa depois da queda do comunismo, foi em média de 5% nos últimos anos, impulsionado pela recuperação global. Entretanto, são poucos os que superam a República Checa, onde as fábricas produzem carros para montadoras como a Toyota, e equipamentos eletrônicos de consumo para a Dell, enquanto companhias menores produzem bens especializados vendidos no mundo inteiro. Aqui, a taxa desemprego é de 2,4%, a mais baixa da União Europeia.

Entretanto, a carência de mão de obra limita a possibilidade de expansão das empresas checas. Cerca de 33% delas começaram a recusar pedidos, segundo informou a Confederação das Indústrias Checa.

“Esta situação está criando um freio para o crescimento”, afirmou Jaroslaw Hahak, o presidente da organização. “Se as empresas não intensificarem a robotização e a utilização da inteligência artificial, desaparecerão”.

A instalação de novos robôs na República Checa aumentou 40% entre 2010 e 205. Hoje, há cerca de 101 robôs para cada 10 mil trabalhadores. E mais máquinas estão chegando à medida que as companhias procuram aumentar a produtividade, na tentativa de alcançar os níveis de países como a Alemanha, onde há uma média de 309 robôs para cada 10 mil trabalhadores, a mais alta da Europa.

Na Elko EP, que faz timers industriais para companhias como General Electric, 70% da produção é automatizada, e a companhia pretende implantar a automação geral dentro de alguns anos. Jiri Konecny, o diretor-executivo da empresa, transferiu os trabalhadores da fábrica para a realização de tarefas mais complexas, e destinou centenas de outros às áreas de pesquisa e desenvolvimento. “Se não tivéssemos investido desde cedo, a esta altura, estaríamos mortos”, disse.

Entretanto, neste momento, debate-se intensamente se a robotização representará um impulso ou uma ameaça à sobrevivência da população em um país que cunhou o termo. A palavra “robô”, derivada do eslavo “robota”, que significa trabalho árduo, apareceu pela primeira vez em uma peça checa de 1920 que falava de máquinas criadas para realizar tarefas repetitiva nas fábricas. Na peça, os robôs, que inicialmente cooperam, acabam assumindo o controle.

Segundo críticos, há o risco de que, no futuro, quando começarem a ocorrer as recessões, os trabalhadores venham a sofrer. “Não é possível desligar os robôs e chamar de volta as pessoas”, explicou Michak Pechoucek, diretor do Centro da Inteligência Artificial na Universidade Técnica Checa de Praga.

Os sindicatos checos reiteram estas advertências. “Se empresários, políticos e sindicatos não reagirem desde já e de maneira responsável à futura revolução industrial, muitos outros empregos estarão ameaçados”, disse Josef Stredula, presidente da Confederação Sindical Checo-Morávia. Por enquanto, as companhias do país insistem que a robotização criará mais trabalho.

Na Linet, 30 robôs industriais realizam o trabalho de 200 pessoas. Mas isso não impede a necessidade de empregar pessoas para a programação das máquinas e a realização das complexas tarefas mais específicas que os robôs não executam.

“Ainda precisaremos de trabalhadores”, disse Frolik. “Mas os robôs são mais confiáveis”. / Hana de Goeij contribuiu para a reportagem

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