Ksenia Kuleshova para The New York Times
Ksenia Kuleshova para The New York Times

Facebook está ligado a surto de ataques contra refugiados, segundo pesquisa

Um estudo mostra que as redes sociais alteram a percepção dos usuários em relação a estrangeiros

Amanda Taub e Max Fisher, The New York Times

08 Setembro 2018 | 10h30

ALTENA, ALEMANHA - Quando questionamos os moradores locais por que Dirk Denkhaus, jovem bombeiro iniciante que nunca foi considerado perigoso nem defendia posicionamentos políticos, invadiu o sótão de um lar coletivo para refugiados e tentou incendiá-lo, eles citam os motivos de sempre.

A pequena cidade de Altena, que fica à beira de um rio, está encolhendo, e sua economia está em declínio, o que deixa os jovens desiludidos e entediados. Ainda que a maioria dos moradores tenha apoiado a decisão do prefeito de aceitar mais uma leva de refugiados, alguns ficaram desorientados com a chegada dos estrangeiros. O extremismo político está em alta. Mas, frequentemente, outro fator é mencionado: o Facebook.

Todos na cidade já viram boatos no Facebook retratando os refugiados como uma ameaça. Já viram discursos racistas em páginas locais, em forte contraste com os espaços públicos de Altena, onde as pessoas acenam alegremente para as famílias de refugiados.

Muitos suspeitavam que Denkhaus teria se isolado num universo online de medo e raiva que o ajudou a optar pela violência, argumentação apresentada pela promotoria do caso.

Isso pode ser mais que especulação. Altena é exemplo de um fenômeno intuído há muito pelos pesquisadores: o Facebook torna as comunidades mais propensas à violência motivada por questões raciais. Agora, a cidade faz parte de um estudo com mais de 3 mil pontos de dados que comprovaria essa hipótese.

Os pesquisadores Karsten Müller e Carlo Schwarz, da Universidade de Warwick, na Inglaterra, analisaram cada ataque cometido contra refugiados na Alemanha, 3.335 no total, ao longo de um período de dois anos. Um dado chamou a atenção: as cidades onde o uso do Facebook era acima da média, como Altena, apresentaram mais ataques a refugiados. Isso foi verificado em praticamente todos os tipos de comunidade - cidades grandes e pequenas, ricas e pobres, paraísos liberais ou fortalezas da extrema direita -, indicando que o vínculo se aplica universalmente.

Os dados deles convergiram numa estatística de tirar o fôlego: sempre que o uso individual do Facebook aumentou a ponto de ficar acima da média nacional, os ataques a refugiados tiveram alta de aproximadamente 50%.

Em entrevista, os pesquisadores estimaram que, em todo o país, o efeito foi responsável por um décimo dos episódios de violência contra refugiados.

O estudo levou a um conjunto cada vez mais completo de pesquisas, revelando que o uso das redes sociais perturba a percepção dos usuários em relação aos forasteiros, à realidade e até às noções de certo e errado.

O Facebook não quis comentar o estudo, mas, por e-mail, uma porta-voz da empresa se pronunciou.

"Nossa abordagem em relação ao que é permitido no Facebook evoluiu com o tempo e segue em mudança conforme aprendemos com os especialistas na área".

A empresa aplicou com mais rigor uma série de restrições aos discursos de ódio durante e após o período de amostragem do estudo. Ainda assim, os especialistas acreditam que boa parte do elo com a violência não se dá com o discurso de ódio explícito, mas por meio das formas mais sutis e generalizadas com que a plataforma distorce para os usuários a imagem da realidade e das normas sociais.

Realidade alternativa

Quando os refugiados chegaram, muitos moradores locais se apresentaram como voluntários para ajudar Anette Wesemann, administradora do centro de integração para refugiados de Altena, a ponto de ela não conseguir dar conta de tanto engajamento. Ela encontrava famílias de sírios e afegãos que eram cuidadas por hordas de tutores e voluntários interessados em ajudar na sua adaptação à Alemanha.

"Foi realmente comovente", disse ela.

Mas quando Anette criou uma página do Facebook para organizar a arrecadação de alimentos e eventos para voluntários, esta ficou rapidamente repleta de discursos contra os refugiados. Algumas publicações pareciam vir de forasteiros, aos quais se juntaram alguns moradores locais. Com o tempo, a raiva se mostrou contagiosa, dominando a página.

De acordo com os pesquisadores, os elos entre o Facebook e a violência contra os refugiados seriam indiretos, mas começam com o algoritmo que determina o conteúdo exibido no feed de notícias de cada usuário.

Esse algoritmo é construído em torno de uma missão central: promover conteúdo que aumente ao máximo o envolvimento do usuário. Publicações que se aproveitam de emoções primais como raiva ou medo têm o melhor desempenho e, assim, proliferam.

É assim que o sentimento contrário aos refugiados pode parecer desproporcionalmente comum no Facebook, mesmo numa cidade favorável aos refugiados como Altena. Ainda que apenas uma minoria dos usuários expresse opiniões contrárias aos refugiados, uma vez que esta passa a dominar o feed de notícias, isso acaba trazendo consequências para todos os demais.

As pessoas se conformam instintivamente às normas sociais de suas comunidades, que costumam funcionar como um freio para o mau comportamento. O Facebook embaralha esse processo. A rede isola as pessoas das vozes moderadoras e figuras respeitadas de autoridade, absorvendo-as em grupos de pessoas de mentalidade semelhante e promovendo conteúdo que desperte seu envolvimento emocional.

"Uma pessoa pode ter a impressão de que o apoio à violência seria generalizado na comunidade", disse Betsy Paluck, psicóloga social da Universidade Princeton, em Nova Jersey. "E isso muda sua percepção de supostamente agir sozinha ou como representante de um grupo maior".

Em seu gabinete, o promotor local Gerhard Pauli, de uma geração anterior, olhava cópias de mensagens publicadas nas redes sociais obtidas pela polícia no celular do bombeiro Dirk Denkhaus. Ele enviava constantemente mensagens aos amigos compartilhando artigos e memes que ridicularizavam estrangeiros. 

No começo, eram apenas provocações, referindo-se um ao outro como "mein Führer". Com o tempo, eles parecem ter perdido a noção da fronteira entre brincadeiras de mau gosto e discurso de ódio sincero, um processo conhecido como "envenenamento pela ironia".

"Certo dia ele disse ao cúmplice, 'E agora temos que fazer alguma coisa', disse Pauli. Denkhaus e um amigo espalharam gasolina pelo sótão de um lar coletivo para refugiados e atearam fogo à construção. Ninguém se feriu.

No tribunal, o advogado dele alegou que Denkhaus jamais tinha demonstrado comportamento hostil aos imigrantes até aquela noite. Era somente no mundo virtual que ele se manifestava com ódio.

Ainda que os moradores de Altena tenham condenado as atitudes de Denkhaus, este não foi o último ato de violência. No ano passado, o prefeito foi esfaqueado por um homem que se disse indignado com suas políticas de favorecimento aos refugiados. Pauli suspeitou de um elo com as redes sociais: as páginas locais tinham se enchido de comentários odiosos em relação ao prefeito antes do ataque.

Normas sociais distorcidas

Em Traunstein, cidade nas montanhas da Baviera, o uso do Facebook e a violência contra refugiados estão ambos acima da média. O artista Rolf Wasserman não exerce influência política no sentido tradicional. Embora conservador, ele está longe de ser um extremista. Mas, no Facebook, mantém uma atividade furiosa. É um exemplo do que os pesquisadores chamam de superusuário.

Ele publica ema série incessante de rumores, colunas opinativas e notícias de crimes cometidos por refugiados. Ainda que nada disso entre na esfera do discurso de ódio e das notícias falsas, somados, esses elementos formam o retrato de uma Alemanha sitiada por estrangeiros perigosos.

"No Facebook, é possível comunicar-se com pessoas que não costumam se envolver muito com a política, trazendo informação a elas", disse ele. "Pode-se construir as opiniões políticas de uma pessoa".

Quando os usuários casuais abrem o Facebook, eles costumam enxergar na verdade um universo moldado pelos superusuários. Sua visão de mundo exagerada permite que, enquanto grupo, eles dominem os feeds de notícias.

O algoritmo do Facebook destaca uma classe de superusuários como Wasserman que, coletivamente, dão aos leitores a impressão de que as normas sociais são mais hostis aos refugiados e mais desconfiadas em relação às autoridades do que de fato são.

Natascha Wolff, que leciona num colégio vocacional, descobriu que os jovens são os que manifestam as opiniões mais radicais contra os refugiados. De acordo com ela, este grupo parece se valer daquilo que vê no Facebook - acreditando equivocadamente que os demais concordam com aquilo.

Qualquer rumor ou boato envolvendo estrangeiros "é transmitido rapidamente entre os jovens. Tem-se a sensação de confirmação do próprio ponto de vista", explicou. Ainda segundo Natascha, as bolhas ideológica "são repetidas e curtidas" e podem levar à radicalização.

Na ausência do Facebook

Os pesquisadores da Universidade de Warwick testaram suas conclusões examinando cada interrupção de médio prazo no acesso à internet ocorrida durante o período do estudo.

Sempre que o acesso à internet era interrompido numa área de elevado uso do Facebook, os ataques a refugiados apresentaram queda significativa. E a queda foi proporcional ao estímulo que o uso do Facebook faria ao uso da violência.

No primeiro semestre do ano, houve uma interrupção de dias, ou até semanas, no acesso a internet no subúrbio berlinense de Schmargendorf.

Esperanza Muñoz, que se mudou para lá vinda da Colômbia nos anos 1980, percebeu que a interrupção do serviço proporcionou algum relaxamento. Ela passou mais tempo com os vizinhos e acompanhou menos o noticiário.

"As redes sociais são uma ilusão", disse.

De acordo com Esperanza, as comunidades do Facebook na Colômbia pareciam mais propensas à indignação. "É como se houvesse apenas uma opinião", comentou, descrevendo seu feed de notícias do Facebook durante as recentes eleições na Colômbia. "Somos informados numa única direção, o que não pode ser bom".

Isso aponta para aquela que os especialistas consideram ser uma das lições mais importantes do estudo. Se pudermos associar o Facebook a centenas de ataques até mesmo na Alemanha, seu efeito pode ser muito pior em países como a Colômbia, com instituições mais fracas, menos regras para as redes sociais e histórico mais imediato de violência política.

"Ninguém diria coisas desse tipo cara a cara com outra pessoa", disse Esperanza. "Mas, na internet, é fácil compartilhar". / Shane Thomas McMillan contribuiu com a reportagem.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.