Jenn Ackerman para The New York Times
Jenn Ackerman para The New York Times

O trabalho original de um dos maiores falsificadores de arte

Mostra, que estará aberta até o dia 19 de abril no Hillstrom Museum of Art de St. Peter, foca nos retratos pintados por Elmyr de Hory

Max Horberry, The New York Times

13 de março de 2020 | 06h00

ST. PETER, MINNESOTA – A casa de Mark Forgy nas redondezas de Minneapolis, nos EUA, parece um museu. Obras de arte pendem do teto ao chão. Estão penduradas em escadas, em armários, atrás das portas. Na sala de estar, um busto de bronze do artista, que fez todas as peças, sorri de maneira afetada em um canto, admirando sua obra: um Matisse, um Modigliani, um punhado de Picassos.

Forgy possui a maior coleção de obras de Elmyr de Hory, um dos falsificadores de arte mais notórios do século 20. Nos anos 1950 e 1960, de Hory teria falsificado mais de mil obras dos maiores artistas. Muitas foram tiradas dos museus. Outras, afirmam alguns especialistas, não foram.

Forgy passou anos dedicado à memória de Hory. Escreveu um livro, dá palestras e contribui para mostras sobre falsificação. Tudo isto levou à sua façanha mais recente: expôr em uma mostra a obra original de de Hory. “A obra tentará ser de ninguém mais senão dele mesmo”, explicou Forgy. “Sem fingimento”.

A mostra, que estará aberta até o dia 19 de abril no Hillstrom Museum of Art de St. Peter, focaliza os retratos pintados por de Hory. Trata-se do primeiro vislumbre do artista que se oculta sob o falsificador. Durante toda a sua vida, de Hory lutou para inspirar interesse por sua própria obra. Húngaro de origem, o artista foi para os Estados Unidos em agosto de 1947, e em 1948 expôs algumas obras em Nova York. Só conseguiu vender uma peça.

De Hory, entretanto, vendeu obras falsificadas na Europa. Na década seguinte, assumiu o personagem do aristocrata falido em uma época difícil depois da guerra. Vendeu falsificações de artistas ainda vivos – Picasso, e Matisse – e incontáveis falsificações de Amedeo Modigliani. Centenas de falsificações depois, foi desmascarado pelos marchands que o expulsaram dos EUA. Forgy conheceu de Hory na Espanha em 1960, e os dois se tornaram muito amigos. “Ele foi mais que um pai para mim, mais do que o meu pai verdadeiro”, disse Forgy.

Seis anos mais tarde, ameaçado de extradição para a França, de Hory se matou. Deixou tudo para Forgy, que regressou a Minnesota com cerca de 300 das obras de de Hory. Forgy as emprestou para exposições sobre a arte da falsificação e contou a história de Modigliani. Das falsificações e pastiches de de Hory nasceu um pequeno mercado. Forgy disse que em 2014 um de Hory no estilo de Matisse foi vendido por US$ 28 mil.

Forgy acredita que esta nova exposição poderá trazer a de Hory o reconhecimento que ele buscou durante toda a sua vida. Os quadros foram pintados na Espanha, e muitos são instantâneos de amigos, incluindo vários de Forgy. Alguns ficaram inacabados ou foram retirados do caderno de desenho de de Hory. A variedade de estilos é impressionante.

Julia Courtney, que foi a curadora de uma exposição de falsos nos Museus de Springfield, em Massachusetts, disse que viu na obra de de Hory sua afinidade com Modigliani. Uma tendência semelhante a alongar as feições talvez indique o motivo pelo qual de Hory recorreu para Modigliani tantas vezes.

“A sua obra original abre realmente uma porta para a pessoa que ele era na realidade”, disse Julia Courtney. “Há um claro grau de talento. Ver a mão do artista  é algo atemporal”. A variedade de estilo de de Hory é, ao mesmo, temo uma indicação do talento e da sua dúvida. Depois de passar a vida assumindo a personalidade de outros e mentindo, é difícil definir a obra como algo que pertence realmente a ele.

“A virtude da originalidade é supervalorizada”, insistiu Forgy. Certa vez, quando perguntou a de Hory se ele  achava que  lhe faltavam elementos artísticos. “Talvez imaginação”. O quadro mais revelador da mostra é talvez um autorretrato inacabado de Forgy. A incerteza quanto a como retratar a si mesmo revela de Hory em seu aspecto mais humano, e mais honesto. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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