Bram Van De Biezen/Agence France-Presse
Bram Van De Biezen/Agence France-Presse

Falso arquipélago corrige danos causados por barragem na Holanda

Ilhas projetadas para recolher sedimentos são a resposta do país a uma catástrofe ambiental ocorrida há mais de 40 anos

David Shimer, The New York Times

29 de janeiro de 2019 | 06h00

LELYSTAD, HOLANDA - A vida selvagem voltou a prosperar dentro de um arquipélago artificial num lago ao nordeste de Amsterdã. Trevos vermelhos, juncos e mais de 100 outras espécies de plantas florescem ali, enquanto milhares de pássaros sobrevoam a área, alimentando-se dos insetos e peixes logo abaixo.

Passados mais de 40 anos desde quando as autoridades da Holanda, orgulhosas de suas inovações na gestão das águas, causaram uma calamidade ambiental no lugar atualmente ocupado pelo lago Markermeer, uma solução ambiciosa (e cara) está devolvendo a vida à região.

O governo holandês construiu uma represa em 1976 separando uma parte do lago, um dos maiores e mais rasos volumes de água doce da Europa, mas o dique reteve o sedimento, deixando a água enlameada e prejudicando as espécies que ali habitavam. O governo está empregando uma resposta criativa para o gol contra marcado: a construção de cinco ilhas num arquipélago criado pelo homem.

As ilhas foram projetadas para recolher o sedimento e atrair animais e plantas ao lago. A primeira entrou em funcionamento em meados do ano passado e foi aberta ao público em setembro. As outras quatro ilhas devem ser abertas este ano.

"Nos sentimos parcialmente responsáveis, pois criamos a barragem que sufocou o lago", disse Ben Viveen, funcionário do governo encarregado de supervisionar o esforço de construção das ilhas. Ele disse que o dique era parte de um projeto de reaproveitamento das terras que nunca foi implementado. "Queremos devolver a vida ao lago, trazendo de volta os peixes e pássaros e melhorando a qualidade da sua água".

As ilhas de Markermeer são uma parceria entre o governo e a Sociedade Holandesa para a Preservação da Natureza, uma organização privada que teve a ideia de construí-las. O governo holandês ofereceu cerca de metade do orçamento de € 78 milhões (cerca de R$ 336 milhões) previsto para o projeto, e o restante virá de financiadores públicos e privados.

São necessários cerca de 30 minutos de balsa a partir da cidade holandesa de Lelystad para se chegar às ilhas, que dão uma sensação de isolamento quase completo em relação ao mundo exterior. A luz do sol é refletida na areia das praias, construídas para evitar enchentes e atrair visitantes. Essa margem protege uma vasta área fértil construída em parte com os sedimentos que contaminaram o lago Markermeer.

"Por enquanto, o plano está funcionando", disse a cientista Liesbeth Bakker, do Instituto Holandês de Ecologia, que estuda a biodiversidade do lago Markermeer. "É difícil dizer como será o desenvolvimento com o passar do tempo. Mas, no primeiro ano, parece que o projeto foi um grande sucesso em termos de atrair diferentes tipos de alimento, peixes e aves para o lago".

A construção da primeira ilha teve início em 2016. Sedimentos, areia e argila foram usados para construir o arquipélago, numa área que mede dois quilômetros por cinco quilômetros. Estão em andamento planos para um serviço diário de balsas para a primeira ilha, onde logo será construído um espaço para acampamento e hospedagem. 

O projeto do lago Markermeer se encaixa na grande história da renomada gestão de águas da Holanda. Cerca de 26% da população do país vive abaixo do nível do mar, e 29% estão vulneráveis a enchentes.

Durante séculos, os holandeses vêm construindo diques para moldar suas terras e lidar com as enchentes, e a represa no lago Markermeer representou um raro equívoco ambiental. 

Por meio de projetos variados e financiamento extensivo, o governo evitou enchentes catastróficas desde 1953, quando uma fortíssima maré de tempestade deixou mais de 1.800 mortos.

"Estamos sempre pensando em adaptações climáticas e, no futuro, é provável que precisemos de terras artificiais para manter o país seguro e construir nossa nova natureza, como fizemos no lago Markermeer", explicou o legislador holandês Jesse Klaver, líder do Partido Verde.

A mudança climática pode deixar a Holanda ainda mais vulnerável às marés e tempestades violentas, mas as autoridades holandesas logo enfatizam que a superação de desafios ligados à água está no seu sangue.

"Nossa cultura está intimamente ligada à convivência com a água, que é uma situação permanente", disse Henk Ovink, enviado especial do governo para assuntos ligados a águas internacionais. "Com a barragem, a qualidade da água do lago Markermeer piorou, pois não havia movimento da água. Diante disso, respondemos com uma inovação, essas ilhas, algo que representa a atitude do nosso povo".

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