Jason Horowitz/The New York Times
Jason Horowitz/The New York Times

'Falsos' cardeais invadem as ruas de Roma

Turistas e até alguns funcionários do Vaticano ficaram perplexos quando cardeais de aparência realista - figurantes em uma produção da Netflix - tomaram as ruas da cidade

Jason Horowitz, The New York Times

19 Maio 2018 | 10h30

ROMA - Roma parecia repleta de cardeais; eles estavam em todo lugar, consultando o celular, sentados em suas motonetas, brincando com seus bichos de estimação, com as cruzes peitorais protegidas por plásticos, esperando na fila do almoço em uma ruela fora do Vaticano.

Florence Cooper, uma turista de Vancouver, topou com um grupinho deles, com suas batinas pretas e os botões, a faixa e o solidéu roxos.

“Poderiam tirar uma foto?”,  perguntou Florence, 69. Prestativos, eles passaram o braço sobre seus ombros enquanto o marido batia a foto.

Maravilhada com tanta sorte, ela agradeceu pela cortesia e levantou o medalhão de São Cristóvão pendurado na corrente que trazia ao pescoço para uma bênção. Então, Fausto Maria Rivalta, um dos “prelados”, a interrompeu: “Nós somos figurantes de um filme”, explicou. O sorriso desapareceu do rosto da senhora. “Pensei que fossem cardeais”, ela disse.

Muitas outras pessoas também pensaram.

Grupos de cardeais de faz de conta podiam ser encontrados andando pelas ruas próximas ao Vaticano para o filme da Netflix que estava sendo rodado sobre o relacionamento entre o Papa Francisco, interpretado pelo ator galês Jonathan Pryce, e Bento XVI, na interpretação do também galês Anthony Perkins, durante a transição papal, de 2013.

Roma é a sede da Igreja Católica Romana, e padres e freiras fazem parte da paisagem deste lado da capital tanto quanto as ruínas da Antiguidade e as igrejas barrocas. Entretanto, os cardeais raramente são vistos em público.

Paul Tighe, um bispo autêntico, membro do segundo escalão do Conselho Pontifício para a Cultura do Vaticano, vinha andando pela rua olhando atentamente ao ver tantos chapéus roxos.

“Por um momento”, confessou, “procurei ver se conseguia reconhecer algum deles”.

Diante de um restaurante, Renato Friscotti, 72, no meio de um grupinho de falsos cardeais, explicou como conseguiu o trabalho. “Eles nos escolheram porque temos a aparência adequada para o papel”, afirmou. “O longo nariz aquilino, além do que, parecemos muito velhos”.

Depois do almoço, a equipe de produção conduziu uma procissão de prelados de mentira, Guardas Suíços, freiras e a polícia vaticana sob os arcos do Passetto di Borgo, atravessando a Via dei Corridori. Em seguida, viraram à direita na Via della Conciliazione, a ampla avenida que leva à Basílica de São Pedro, onde turistas e peregrinos os filmaram e acenaram para eles.

Alfiero Toppetti, 76, nas vestes de cardeal, explicou que, acenando como fazia desde Assis, a cidade de São Francisco, não resistiu à oportunidade de personificar um cardeal.

Os atores se prepararam para rodar a cena seguinte, em que Toppetti e Friscotti caminham atrás de Pryce, no papel de Papa Francisco. Antes de a ação começar, um dos agentes da segurança me levou para uma tenda. Ao meu lado estava Pryce, idêntico ao Papa Francisco. Aproveitei para tirar uma foto de uma mulher que passava uma escova sobre a sua mozeta, mas um membro da equipe exigiu que eu deletasse a foto.

“Este”, proclamou, à sombra da Basílica de São Pedro, do Sacro Ofício e residência do Papa Francisco, “é o domínio da Netflix”.

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