Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

Falta de civilidade se alastra no governo Trump

Críticos afirmam que os termos utilizados pelo presidente americano para se referir aos imigrantes ilegais desumanizam as pessoas

Peter Baker e Katie Rogers, The New York Times

01 Julho 2018 | 10h15

WASHINGTON - Recentemente, o presidente Donald J. Trump ofendeu os imigrantes ilegais acusando-os de serem “assassinos e ladrões” que querem “infestar os Estados Unidos”. Não faz muito tempo, chamou-os de “animais”, embora insistisse que se referia aos que fazem parte de gangues violentas.

O discurso rude de Trump parece estimular cada vez mais os adversários a reagir com palavras ofensivas, como a reprovação insultuosa que Robert De Niro lhe dirigiu na cerimônia dos Tony Awards. A política da raiva que alimentou a ascensão política de Trump agora domina o discurso nacional nos Estados Unidos, como ele demonstrou repetidas vezes durante o debate  sobre sua política de “tolerância zero” sobre a imigração com a qual separou filhos de pais apreendidos na fronteira.

“Infelizmente, constatamos um declínio da civilidade e um aumento da incivilidade”, observou Christine Porath, autora de Mastering Civility, um livro sobre comportamento no local de trabalho. “Agora, as pessoas não só respondem como tendem a baixar o nível em lugar de melhorá-lo”.

Christine disse que o atual clima agressivo afeta as pessoas não somente no contexto político, mas se introduz na vida diária em casa e no trabalho. “Sabemos que a falta de civilidade é contagiosa”, ela disse. “É como um bug ou um vírus. Não apenas quando as pessoas são objeto de um ato de incivilidade, mas quando veem ou leem a respeito disso”.

Os termos usados por Trump a respeito dos que tentam entrar no país ilegalmente são tão crus que, segundo os críticos, desumanizam as pessoas. O que nos faz voltar ao dia em que Trump anunciou sua campanha à presidência, em 2015, quando definiu muitos imigrantes mexicanos como “estupradores”.

Recentemente, ele lembrou desta controvérsia. “Lembram quando fiz aquele discurso e fui tão criticado? ‘Oh, que coisa terrível ele disse’”, recordou em tom de caçoada discursando na National Federation of Independent Business, em 19 de junho. “No fim, eu estava 100% certo. Por isso fui eleito”.

Trump classificou o primeiro-ministro do Canadá como “fraco e desonesto”. Afirmou que jornalistas, parlamentares e adversários políticos são “loucos”, “malucos”, “patetas”, “doentes mentais”, “psicopatas”, “gente de quinta categoria” e “corruptos”. E definiu alguns de seus próprios indicados e aliados republicanos como “muito ruins”, “extremamente fracos”, “fracassados” e “sem consistência”.

Retribuir incivilidade com incivilidade nem sempre funcionou bem para seus adversários. Quando os senadores Marco Rubio, da Flórida, e Ted Cruz, do Texas, tentaram fazer isso durante as primárias republicanas em 2016, deram-se mal.

“Somente Trump pode comportar-se como Trump impunemente”, disse Jennifer Mercieca, professora adjunta da A&M University do Texas, que estudou a linguagem do presidente. “Todas as vezes que outras pessoas tentam usar ataques ao autor, ou praguejar ou algo do gênero, soa falso. Além disso, outros políticos tendem a ter mais vergonha, por isso, quando são criticados, preferem não responder. Como todos sabem, Trump não faz isso. E como ele se recusa a envergonhar-se, pode sempre falar o que bem entende”.

O discurso grosseiro na política americana remonta aos dias turbulentos da disputa entre John Adams e Thomas Jefferson. Mas raramente o próprio presidente estabeleceu o tom como Trump faz. Quando o presidente George Bush chamou Bill Clinton de “palhaço”, em 1992, sua fala foi considerada indigna de um presidente.

Alguns liberais sentem arrepios à ideia de que deveriam rebater a uma presidência que consideram bárbara. Jessica Valenti, colunista do Guardian U.S. e autora de livros sobre feminismo, política e cultura, afirmou que o comedimento interessa a Trump. “Esperar que os que estão assustados e revoltados com o que nosso país está se tornando falem com civilidade é um absurdo - a civilidade morreu no dia em que Trump tomou posse”, escreveu. “É como dizer a uma mulher que sorria enquanto está sendo atacada sexualmente na rua”.

Um dos debates mais sensíveis gerados pela política da separação das famílias de Trump foi sobre a adequação das comparações com a política nazista. Quando Michael V. Hayden, que foi diretor da CIA durante o governo do presidente George W. Bush, postou a imagem de um campo de concentração e escreveu: “Outros governos separaram mães e filhos”, deu origem a uma controvérsia com o âncora da CNN Wolf Blitzer, que observou que seus parentes foram assassinados no Holocausto. “Por pior que esta política seja, não tem certamente a ver com Auschwitz”, respondeu Blitzer a Hayden.

Entretanto, dois sobreviventes do Holocausto postaram um vídeo falando sobre o trauma de terem sido separados dos pais. “Sejamos bem claros: Não estamos comparando o que está acontecendo hoje ao Holocausto”, afirmaram. “Mas a separação forçada de pais e filhos é um ato de crueldade em todas as circunstâncias”.

Jonathan Greenblatt, diretor-executivo da Liga Antidifamação, um grupo internacional que combate o antissemitismo, disse que  todo mundo “deveria tomar extremo cuidado” com as comparações com o Holocausto, mas que “há paralelos perturbadores que tocaram um nervo particularmente sensível”.

]“Não percamos o tempo fazendo comparações”, acrescentou. “Em vez disso, hoje, devemos concentrar todas as nossas energias  em lutar por uma série de medidas mais morais”. / Maggie Haberman contribuiu para a reportagem.

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