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Falta de homens põe em risco linha sucessória do império japonês

Pela lei atual, mulheres não podem ascender ao trono, e devem renunciar aos títulos e deixar oficialmente a família real ao casar

Motoko Rich, Hisako Ueno e Makiko Inoue, The New York Times

09 de maio de 2019 | 06h00

TÓQUIO - Durante a breve cerimônia na qual o novo imperador do Japão, Naruhito, de 59 anos, ascendeu ao trono no dia 1.º de maio, ele tinha ao seu lado apenas duas pessoas: o irmão mais novo, o príncipe Akishino, de 53 anos, e o seu tio, príncipe Hitachi, de 83. Enquanto a população do Japão está encolhendo e o número de idosos aumenta, o mesmo acontece com a linhagem masculina de sucessão ao trono da família real. Além do irmão e do tio do imperador, há apenas outro herdeiro: o príncipe Hisahito, o sobrinho do imperador de 12 anos.

Depois da cerimônia da ascensão, o novo imperador fez um breve discurso a um grupo de políticos, juízes, governadores de prefeituras e suas esposas. Desta vez, Naruhito estava acompanhado por 13 membros da família, dos quais 11 eram mulheres. Pela lei atual, as mulheres não podem ascender ao trono, e as mulheres nascidas na família real devem renunciar aos seus títulos e deixar oficialmente a família ao casar. Os seus filhos - até mesmo homens - não podem suceder ao trono.

O imperador Naruhito e sua esposa, Masako, têm uma filha, a princesa Aiko, de 17 anos. Depois que ela nasceu, o governo considerou a possibilidade de mudar a lei a fim de permitir que as mulheres tenham acesso à linha sucessória. Mas quando o príncipe Hisahito nasceu, estas discussões foram abandonadas.

As normas que proíbem as mulheres de liderar linhas de sucessão datam apenas do século 19. Ao longo de 126 gerações de imperadores no Japão, oito mulheres governaram quando não havia homens adultos disponíveis. No início deste ano, Naruhito reconheceu que restam poucos herdeiros. Por outro lado, qualquer mudança na lei imperial deve ser aprovada pelo Parlamento.

Os conservadores se opõem às propostas de admitir mulheres à linha sucessória, citando a tradição e a legitimidade do pureza do sangue. Se as mulheres pudessem ser imperatrizes, afirmou Hudetsugu Yagi, professor de direito e filosofia da Universidade Reitaku, na prefeitura de chiba, “a família imperial não seria diferente de qualquer outra família comum”. “O sistema imperial acabaria”, acrescentou.

No entanto, os que resistem à mudança talvez tenham de ceder à realidade, segundo Kenneth J. Ruoff, historiador e especialista em Japão Imperial da Portland State University, de Oregon. “Todo mundo no Japão agora comenta abertamente que o futuro da linhagem imperial se encontra em grave perigo”, disse. “Em certo momento, não haverá outra escolha senão considerar novamente esta questão”.

Embora toda revisão das leis imperiais deva levar tempo, alguns analistas se perguntam se a nova imperatriz poderá servir de modelo para as mulheres na sociedade. Pouco depois do casamento, a imperatriz Masako, que anteriormente desempenhara o cargo de diplomata, impressionou os observadores quando se sentou entre o presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e o russo Boris N. Iéltsin, em um jantar de Estado, e conversou com desenvoltura com os dois nas respectivas línguas.

Fora do Palácio Imperial depois dos ritos da ascensão, a multidão se reuniu na esperança de conseguir vislumbrar o novo imperador. Algumas pessoas disseram que queriam que a família imperial pudesse mudar o tratamento dispensado às mulheres. “O que há de errado com uma imperatriz?”, perguntou Yukiko Minegishi, de 41 anos, que foi ao palácio com a mãe.

Segundo ela, a proibição da inclusão das mulheres na linha sucessória, assim como outras tradições relacionadas ao gênero no Japão, está fora de compasso com os tempos.“Estas práticas precisam mudar na era moderna”, afirmou Minegishi. “Homens e mulheres deveriam ser tratados de maneira igual”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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