Emile Ducke para The New York Times
Emile Ducke para The New York Times

Falta de segurança dos apartamentos da era soviética gera preocupação

Infraestrutura de moradias em Magnitogorsk vira problema para moradores

Andrew E. Kramer, The New York Times

17 de janeiro de 2019 | 06h00

MAGNITOGORSK, RÚSSIA - Anna P. Timofeyeva acordou assustada com um tremendo estrondo. Tentou acender a luz, mas a energia elétrica havia sido cortada. No escuro, ela e o marido vestiram rapidamente o filho de 2 anos e se prepararam para sair às pressas. “Achamos que algo muito grave havia acontecido”, disse. Mas quando abriram a porta do apartamento no sétimo andar, ficaram paralisados. No degrau da entrada, viram um monte de escombros lá em baixo, o que restava de 25 apartamentos vizinhos.

A explosão que derrubou o edifício de Anna no dia 31 de dezembro na cidade de Magnitogorsk, no sul da Rússia, matou 39 pessoas, e inicialmente foi considerada um ato terrorista. Mas desde então, as autoridades identificaram um perigo maior ainda: a infraestrutura está cedendo, engolindo blocos de apartamentos da era soviética.

Por mais de dez anos, desde que as receitas do petróleo começaram a encher os seus cofres, o Kremlin investe os seus recursos nas forças armadas, reconfigurando e profissionalizando o exército, a marinha e a inteligência militar. Os resultados respaldam a política do presidente Vladimir Putin que quer devolver à Rússia o status de grande potência.

Entretanto, o colapso dos apartamentos e um corte anterior, extremamente impopular, das aposentadorias dos servidores públicos faz lembrar das persistentes dificuldades que os cidadãos russos comuns são obrigados a suportar, particularmente os que vivem no interior do país. No caso do colapso de Magnitogorsk, o que se soube é que foi uma explosão provocada por gás natural, que cortou toda uma seção do edifício, arrasou dezenas de apartamentos, mas deixou o de Anna intacto. "Tivemos sorte”, ela disse.

Na cidade industrial que cresceu consideravelmente nos últimos tempos, construída ao redor de uma gigantesca usina siderúrgica, as habitações, como na maior parte da Rússia, há muito tempo constituem um problema premente. Magnitogorsk - que significa Montanha Magnética, assim chamada por causa de depósitos de minério de ferro tão grandes que, ao que se afirma, distorcem a leitura da bússola - é uma cidade cujo nome diz tudo sobre as dificuldades das regiões industriais russas.

Ela foi edificada como modelo de cidade comunista, povoada por voluntários entusiastas, conhecidos como trabalhadores de choque. Os seus cerca de 415 mil habitantes hoje ganham em média salários de 360 dólares. A Usina de Ferro e Aço de Magnitogorsk tornou-se o orgulho da União Soviética, enquanto os operários moravam em cabanas de barro, nos primeiros anos, e mais tarde em habitações escassas e de péssima qualidade.

O espaço vital sempre foi reduzido em Magnitogorsk. Nos anos 30, o morador em média tinha direito a dois metros quadrados, frequentemente um canto de um quarto ou o espaço para um catre em um enorme barracão de madeira. Hoje, a maioria dos moradores vive em edifícios de concreto em apartamentos alugados, como o que caiu. Construído em 1973 e habitado por cerca de 1.300 pessoas, era um tipo de habitação utilitária, que pode ser visto em todo o antigo Bloco Oriental.

Mas mesmo depois do desastre, os moradores mais antigos ainda elogiavam a estrutura pesada, para a qual se mudaram depois de morarem em barracas ou apartamentos coletivos. Longe de exigirem um edifício novo e mais seguro, muitos deles passaram a semana pedindo às autoridades a permissão de permanecer na parte que ficou de pé.

Entretanto, outros se mostraram mais céticos quando à possibilidade de voltar. Yulia V. Skalvysh, funcionária do setor de contabilidade da siderúrgica, disse que foi avisada de que teria de voltar para o seu apartamento de dois quartos a poucos metros do colapso. As autoridades aparentemente não estão preocupadas com uma rachadura na parede azulejada da sua cozinha que, segundo ela, cresce dia após dia. “Eles disseram: ‘Está seguro, pode voltar’, mas eu não quero voltar”, afirmou. “Quero viver com segurança”.

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