Fotografias da família Reimann
Fotografias da família Reimann

Família cuja empresa lucrou com nazismo tenta se redimir pelo passado

Controlada pela família Reimann, Benckiser vale mais de US$ 20 bilhões

Katrin Bennhold, The New York Times

23 de junho de 2019 | 06h00

Emilie Landecker tinha 19 anos quando foi trabalhar para a Benckiser, empresa alemã de produtos de limpeza industrial que se orgulhava também de eliminar os membros não arianos do seu quadro de funcionários. O ano era 1941. Emilie era judia por parte do pai, e morria de medo de ser deportada. Seu novo chefe, Albert Reimann Jr., foi um dos primeiros discípulos de Adolf Hitler e descrevia a si mesmo como “seguidor incondicional” da teoria racial nazista. Surpreendentemente, os dois se apaixonaram.

A história de Emilie, cujo pai judeu foi assassinado pelos nazistas, e Reimann Jr., cujo nazismo e abuso de trabalhadores forçados não impediu sua família de acumular uma riqueza colossal, é uma história de morte, devoção e contradições humanas. É também a história de uma redenção corporativa contemporânea.

A Benckiser evoluiu e se tornou um dos maiores conglomerados de bens de consumo do planeta. Conhecida atualmente como JAB Holding Company e ainda controlada pela família Reimann, a empresa vale mais de US$ 20 bilhões e é dona de marcas como Krispy Kreme Doughnuts, Pret A Manger, Keurig e outras ligadas ao café da manhã.

O relacionamento entre Reimann Jr. e Emilie foi mantido em segredo durante anos. Ele era casado, mas não tinha filhos com a esposa. Com Emilie, teve três. Seus filhos dizem que, durante décadas, nada souberam a respeito do envolvimento do pai com o nazismo nem dos abusos que ocorreram na empresa.

Reimann Jr. e Emilie, que morreram em 1984 e 2017, respectivamente, nunca falaram a respeito daqueles anos. Mas, conforme a Benckiser cresceu e se tornou a global JAB, seu passado se tornou impossível de ignorar. Peter Harf, que se tornou presidente este ano, e cujo pai era um nazista, disse duvidar que a empresa nada tivesse a esconder.

“Eu conhecia as histórias que eles contavam", disse ele. “Algo cheirava mal.” Somente agora, 74 anos após a 2ª Guerra Mundial, a família e a empresa estão enfrentando seu passado sombrio. Em março, as primeiras revelações a respeito dos abusos cometidos pela empresa contra trabalhadores forçados foram vazadas em um tabloide alemão, despertando a indignação. Os funcionários da JAB - são mais de 180 mil em todo o mundo - disseram ter sido acusados de “trabalhar para nazistas", e a empresa enfrentou ameaças de boicote.

Em uma série de entrevistas concedidas ao New York Times, membros da família Reimann falaram publicamente a respeito do escândalo de envolvimento com o nazismo. Contaram a história do pai judeu de Emilie, Alfred, e descreveram como o assassinato dele obrigou o clã a enfrentar não apenas o passado, mas também o futuro.

Os Reimanns dizem que gastarão parte de sua fortuna para honrar a memória de Alfred Landecker. Uma doação única de aproximadamente US$ 11,3 milhões será entregue a instituições que ajudam ex-trabalhadores forçados e suas famílias. Os Reimanns também estão rebatizando a fundação da família em homenagem a ele.

Harf destacou que viveu em três lugares - Nova York, Londres e Milão - onde o nacionalismo e as divisões étnicas estão em ascensão. Na era do presidente Donald Trump, do Brexit e de Matteo Salvini, disse Harf, as empresas não podem mais fingir que operam em um “espaço livre dos valores". “Estamos novamente em uma época em que todos precisam assumir um posicionamento", disse ele. “Tenho muito medo do que está acontecendo.”

Os Reimanns tinham adotado o nacional-socialismo e o antissemitismo muito antes da ascensão dos nazistas ao poder. Reimann Jr. ouviu Hitler falando em 1923 e se tornou um de seus primeiros defensores. O pai, Albert Reimann Sr., então diretor executivo da Benckiser, entrou para o partido nazista em 1931, seguido pelo filho no ano seguinte. Os dois reformaram a empresa de acordo com os princípios nazistas.

A Benckiser foi beneficiada pelo sistema nazista, aumentando as vendas em mais de 300% no decorrer da década seguinte. A empresa não lucrou com empresas tomadas de proprietários judeus, e nunca usou mão de obra dos campos de concentração. Mas, a partir do fim de late 1940, ose Reimanns se aproveitaram dos trabalhadores forçados: homens e mulheres eram tirados de suas casas e designados pelos nazistas para o trabalho em fazendas e empresas em toda a Alemanha.

Foi mais ou menos nessa época que Emilie Landecker começou a trabalhar na Benckiser, no departamento de contabilidade. Reimann Jr. era seu chefe. Já em 1943, 175 pessoas - um terço do total da força de trabalho - eram trabalhadores forçados. A Benckiser mantinha dois campos de trabalho, um deles supervisionado por um capataz brutal, Paul Werneburg. Sob a supervisão dele, trabalhadoras eram obrigadas a manter posição de sentido nuas diante do alojamento, e aquelas que se recusassem corriam o risco de sofrerem abusos sexuais. Trabalhadores eram espancados e recebiam chutes.

Durante um bombardeio em janeiro de 1945, Werneburg jogou dúzias de operários para fora do abrigo antibombas de um dos campos. Trinta ficaram feridos, e um morreu. Emilie teria testemunhado tudo, de acordo com o filho dela, Wolfgang Reimann. “Ela sobreviveu ao show de horrores em andamento na nossa própria empresa", disse ele. “É provável que estivesse justamente no abrigo de onde Werneburg expulsou os trabalhadores.”

O entusiasmo dos Reimanns diante da ideologia nazista nunca perdeu força. Ainda em 1945, Reimann Jr. acreditava na “Endsieg", a “vitória final” de Hitler. A guerra chegou ao fim em maio daquele ano; um mês depois, ele foi detido e internado pelas potências de ocupação aliadas como parte do processo de desnazificação. Enquanto estava detido, Reimann Jr. escreveu uma carta às autoridades negando as alegações de que seria “um dos primeiros e mais entusiásticos nazistas” - insistindo em vez disso que fora uma vítima dos nazistas.

Funcionou, e Reimann Jr. recebeu permissão para seguir com os negócios. Agora, a família Reimann é a segunda mais rica da Alemanha, com uma fortuna de quase US$ 37 bilhões. Wolfgang Reimann disse que a única coisa que o pai contou a respeito da guerra foi que os trabalhadores gostavam tanto da empresa que choraram quando o conflito chegou ao fim e eles tiveram que partir. É uma bobagem, disse ele, entre palavrões.

Emilie estava trabalhando quando a Gestapo veio e levou seu pai para deportá-lo em abril de 1942. Landecker, veterano da 1.ª Guerra Mundial e contador, era um pai carinhoso. Após a morte da mulher, católica, em 1928, ele cuidou dos três filhos. Emilie era a mais velha. Os nazistas assumiram o governo em 1933. Mais ou menos nessa época, Landecker fez duas coisas que ajudariam muito no futuro. Batizou os filhos como católicos, como a mulher, já morta. E transferiu para o nome deles suas posses, incluindo o apartamento da família, para que não fossem expropriadas.

Landecker narrou as mudanças pelas quais a sociedade passava filha mais nova, que estava na Baviera. “Querida filha", escreveu ele em dezembro de 1938, um mês depois da infame Kristallnacht, quando sinagogas e lares de judeus foram vandalizados. “Os tempos mudaram e, com eles, as pessoas.” Dois dias antes de ser deportado, ele escreveu sua última carta a ela. “Desejo a vocês o melhor dos futuros, cuidem da saúde e tornem-se seres humanos decentes", insistiu ele. “Aprendam outros idiomas!! Vocês têm o futuro pela frente - não o desperdicem.”

Sua última carta aos filhos na Alemanha foi enviada de Izbica, um gueto que servia como ponto de transferência para campos de extermínio na Polônia ocupada. Ninguém sabe quando exatamente começou o caso amoroso entre Emilie e Reimann Jr. Mas, em 1951, o primeiro filho do casal nasceu. Dois outros se seguiriam. Duas vezes por semana, Reimann deixava a mulher para visitar Emilie, que trabalhou na Benckiser até 1965. Naquele ano, Reimann Jr. adotou formalmente os filhos que teve com ela.

Emilie era uma mulher de poucas palavras. Não era de contar muitas histórias. Mas os filhos dizem que, apesar de tudo, ela amava o pai deles. “Nunca entendi por quê", disse Wolfgang Reimann. Durante décadas, os filhos souberam apenas que os pais tinham se conhecido “no trabalho". Sabiam que o avô materno, Alfred, tinha morrido nas mãos dos nazistas. 

Mas, até este ano, eles não sabiam que o próprio pai era nazista. Quando os filhos perguntavam a respeito das raízes judias, Emilie pedia que parassem de falar a respeito de “velharias". “Minha mãe nunca disse nada", disse Wolfgang Reimann. “Durante muito tempo, pensei que a personalidade dela fosse assim.”

Mas ele mudou de opinião. “Se eu tivesse que conviver com o amor da minha vida, como fez minha mãe, e essa pessoa fosse também responsável pelas coisas terríveis que aconteceram durante a guerra, imagino que eu também seria uma pessoa calada", disse ele. Quase todas as empress alemãs que já existem a tempo suficiente têm uma história a contar a respeito da época dos nazistas. Com frequência, a expansão internacional é o gatilho que as leva a acertar as contas com o passado. Foi esse o caso das propriedades dos Reimanns.

Ao longo dos anos, a Benckiser passou por fusões e desmembramentos; juntou-se a outra empresa para se tornar a gigante dos bens de consumo Reckitt Benckiser, conhecida por marcas como o detergente Lysol e os preservativos Durex. Com o tempo, os Reimanns canalizaram boa parte da sua riqueza para a JAB.

As revelações do envolvimento com o nazismo mexeram com a geração mais jovem da família Reimann. “Quando fiquei sabendo das atrocidades cometidas na Benckiser, com aprovação do meu avô, senti vontade de vomitar", disse Martin Reimann, 30, neto de Emilie e Reimann. “Não posso dizer que tinha interesse pela política antes. Apenas vivia minha vida. Mas, depois do que aconteceu, mudei de ponto de vista. Preciso fazer alguma coisa. No conselho da nossa família, a geração mais jovem criou uma pequena rebelião.”

A rebatizar sua fundação em homenagem a Alfred Landecker, a empresa está associando explicitamente a lembrança dos crimes do passado à luta contemporânea pela preservação dos valores da democracia liberal. “Não se trata apenas de pesquisar e lembrar o passado", disse Norbert Frei, presidente do conselho acadêmico de assessoria. “Trata-se de estabilizar e conservar a democracia hoje.”

Harf, presidente da JAB, concorda. Ele disse ter lido recentemente The Order of the Day, romance histórico situado nos anos anteriores à 2ª Guerra Mundial. Uma cena ocorre em fevereiro de 1933, Hitler e o presidente do Reichstag incentivam 24 industriais alemães a doar ao partido nazista. Os empresários - representando empresas que ainda são nomes importantes do universo corporativo alemão, como Siemens, Bayer e Allianz - abrem suas carteiras.

Harf disse que aquilo o fez pensar que não há vozes suficientes se levantando contra o ressurgimento do nacionalismo e do populismo na Europa e nos Estados Unidos. De acordo com Harf, sempre que os líderes empresariais tomam decisões, eles deveriam se perguntar, “O que isso significa para nossos filhos? O que significa para o futuro?” “Na história, os interesses econômicos facilitaram a ascensão dos populistas", acrescentou ele. “Não podemos cometer o mesmo erro hoje.” Ele citou então Simon Wiesenthal, sobrevivente do Holocausto: “Para que o mal floresça, basta que os bons nada façam".

Ele acrescentou, “Como sucessores e descendentes de pessoas que cometeram atos horríveis, é vital que nossa geração aceite o que ocorreu, que possamos fazer todo o possível para trazer tolerância e igualdade para as comunidades nas quais vivemos, e garantir que as ações de Albert Reimann Sr. e Albert Reimann Jr. sejam parte de uma história que jamais se repetirá". Um terrível segredo desconhecido pelos descendentes de uma família. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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