Kayana Szymczak para The New York Times
Kayana Szymczak para The New York Times

Família guarda segredo musical que já dura 400 anos

Os pratos para bateria Zildjian nasceram durante o Império Otomano e são usados por bateristas de todo o mundo

Lara Pellegrinelli, The New York Times

17 Agosto 2018 | 15h30

A maneira mais garantida de conquistar o coração de um baterista são os pratos. "Podemos nos cercar de toda a harmonia do mundo", disse o baterista Brian Blade, "mas apenas os pratos nos fazem escalar o cume dessa montanha".

Blade, conhecido por tocar com a cantora de música country Emmylou Harris e o saxofonista de jazz Wayne Shorter, atribui esse timbre distinto aos instrumentos que ele toca: pratos Zildjian.

A Zildjian foi transformada formalmente numa empresa nos Estados Unidos em 1929, mas sua história tem 400 anos, remontando a 1618, quando um processo secreto de fundição resultou na criação de uma nova liga de bronze para a corte do sultão Osman II, governante do Império Otomano.

"Meu pai sempre disse que o nome é maior que qualquer membro individual da família", disse Craigie Zildjian, diretora-executiva da empresa (a primeira mulher a ocupar o cargo) e integrante da 14.ª geração da família produtora de pratos. "Em outras palavras, somos donos de algo que funciona há 400 anos. Não podemos estragar esse legado".

Já no século 17, uma era de refinamento musical entre os otomanos tinha começado. Foi então que Avedis I, um ferreiro armênio de 22 anos e aspirante a alquimista, aprendeu que a mistura do latão com cobre produzia um som forte e distinto. Mas ele tinha diante de si um problema. "A liga é muito frágil", disse Paul Francis, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Zildjian. "O metal se quebra com facilidade".

Então Avedis I fez uma descoberta que alteraria para sempre a história da música - ainda preservada em segredo pela família -, a qual envolvia a criação de um metal tão flexível que podia ser aquecido, enrolado e golpeado até produzir os melhores instrumentos musicais.

Osman II concedeu ao artesão permissão para fazer instrumentos para a corte e deu a ele o sobrenome armênio Zildjian (que significa "filho do fazedor de pratos"). A família se instalou no bairro litorâneo de Samatya, em Constantinopla, onde o metal chegava em caravanas de camelos e jumentos proporcionavam a força motriz de máquinas primitivas.

O instrumento que se tornou conhecido como "prato turco" foi assimilado pelas orquestras europeias e, na primeira metade do século 19, incorporado a novos estilos de banda militar que integraram Ocidente e Oriente.

Avedis II construiu uma escuna de oito metros para transportar os primeiros pratos com o nome da família até Londres, para a primeira feira mundial, em 1851. O irmão dele, Kerope, assumiu o comando da empresa em 1865, criando uma linha de instrumentos chamada K Zildjian, que ainda é procurada atualmente.

Avedis III, um doceiro de Boston que deixou a Turquia antes do genocídio armênio, relutou em assumir os negócios da família quando seu tio, Aram, o incumbiu disso, em 1927.

Avedis III desenvolveu um prato mais fino, cujo timbre corta através do som de uma big band. E, aos pares, eles assumiram a tarefa de marcar o tempo, antes reservada ao bumbo, técnica inaugurada por Jo Jones, da Count Basie Orchestra. Os novos tipos de prato criados por Avedis - swish, sizzle, bounce e crash - inspirariam uma geração de músicos.

O baterista de bebop Kenny Clarke foi o líder no estilo que mantinha uma batida flexível, furiosa e individualista, provavelmente num prato Zildjian bounce de 43cm. Esse prato, posteriormente batizado de ride, tornou-se um dos alicerces da técnica dos bateristas modernos.

A linha de produtos Gen16, da Zildjian, tenta criar um prato eletrônico com a mesma aparência e comportamento de um prato normal, em vez da sensação artificial das baterias eletrônicas. Um prato de baixo volume, para treino, que parece feito de renda, apresenta boas vendas com o público asiático, que vive em apartamentos de paredes mais finas.

Nos escritórios da empresa, em Norwell, Massachusetts, vemos baterias que já pertenceram a Travis Barker (Blink-182), Tré Cool (Green Day) e Ginger Baker (Cream), além de uma réplica da bateria de Ringo Starr. "Todos sabemos o que ocorreu em 1964", disse Francis, referindo-se à Invasão Britânica. "Tínhamos 90 mil pratos encomendados".

Hoje, cada prato ainda é submetido à aprovação de trabalhadores altamente qualificados, com torneiros mecânicos tirando lascas douradas e verificando se o resultado se enquadra na amplitude de uma determinada escala digital.

O principal encarregado de testar os pratos, Leon Chiappini, que trabalha na fábrica há 57 anos, escuta o timbre de cada peça atentamente, tendo em mente um timbre-padrão específico, separando-os em pares. Mas, como ocorre com os bateristas, não há dois pratos idênticos.

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