REUTERS/Fredy Builes
REUTERS/Fredy Builes

Família poderosa da Colômbia no centro de investigação de um esquadrão da morte

Colombianos enxergam risco para a Justiça

Nicholas Casey, The New York Times

11 Julho 2018 | 15h15

SANTA ROSA DE OSOS, Colômbia - Uma testemunha contou aos promotores a respeito dos corpos flutuando nas águas de um rio no rancho.

Outra testemunha, um peão do rancho, descreveu o líder de um esquadrão da morte que percorria a propriedade montado a cavalo.

Uma terceira testemunha, uma faxineira, contou a respeito da morte de seus dois jovens sobrinhos. 

Pouco depois da meia-noite, disse ela, os dois foram agarrados, amarrados e executados por homens armados.

“Quem deu a ordem?”, indagou um promotor.

“Foi Santiago”, respondeu o peão.

São histórias que poderiam se perder em meio aos incontáveis episódios de crueldade na longa guerra civil da Colômbia, exceto pelo fato de o dono do rancho, “Santiago", ser Santiago Uribe. O irmão dele, o ex-presidente Álvaro Uribe, ressurgiu como importante padrinho político depois que o candidato de sua escolha venceu a eleição presidencial em junho.

Santiago Uribe aguarda julgamento, acusado de ser o comandante de um esquadrão da morte conhecido como Doze Apóstolos, suspeito de envolvimento no assassinato de centenas de pessoas durante a guerra civil. E Álvaro Uribe é investigado pela Suprema Corte por interferência com as testemunhas de um caso envolvendo alegações segundo as quais ele seria o líder de um grupo paramilitar.

Mas, com a volta de Álvaro Uribe ao poder, alguns colombianos se perguntam se o caso será levado a julgamento.

Jaime Granados Peña, advogado de Santiago e Álvaro Uribe, recusou os pedidos de entrevista, mas emitiu um comunicado por escrito no dia 18 de junho dizendo que as acusações eram parte de um ataque político contra os irmãos.

Ele escreveu que o rancho “é uma propriedade com fins exclusivamente agrícolas” e “nunca foi usado para o planejamento ou execução de nenhum tipo de crime".

Mas os relatos das testemunhas, contidos no dossiê da promotoria a respeito dos Doze Apóstolos ao qual o New York Times teve acesso, oferecem detalhes de assassinatos ocorridos no rancho e nos arredores durante os anos 1990. Os arquivos incluem gravações nas quais os funcionários deixam pouca dúvida quanto a quem teriam sido os comandantes dos assassinos.

“Alguém mais dava ordens além de Santiago?” pergunta o promotor.

“Não", responde o peão. Seu nome foi ocultado pelo Times para preservar sua segurança.

Em junho, o candidato escolhido a dedo por Álvaro Uribe para a presidência, Iván Duque, ganhou a eleição. Uribe deve dominar o Legislativo com sua cadeira no Senado, onde o partido fundado por ele, Centro Democrático, obteve a maioria.

Duque e Uribe propuseram substituir os três principais tribunais com um só. Isso eliminaria a Suprema Corte, que está analisando o caso dos Doze Apóstolos.

As investigações têm sido um desafio para o sistema de Justiça. Algumas testemunhas foram mortas; outras voltaram atrás em seus depoimentos. Algumas disseram ter recebido ofertas de dinheiro para apresentar provas contra ou a favor dos irmãos Uribe.

O rancho La Carolina, da família Uribe, fica nas montanhas da província de Antioquia, a uma distância de quatro horas de carro da capital regional, Medellín. Em 1983, o pai dos Uribe foi morto por rebeldes no rancho.

Já em meados dos anos 1990, a ascensão de Álvaro Uribe tinha feito dele governador de Antioquia. Ele promoveu grupos armados de vigilância do bairro que foram posteriormente acusados de massacres contra rebeldes e civis. Uribe disse ter desmontado tais grupos depois que essas alegações vieram à tona.

Cansados da extorsão praticada pelos rebeldes, empresários ricos formaram um grupo conhecido como os Doze Apóstolos, de acordo com moradores e promotores do caso. O grupo, que recebeu esse nome porque um de seus líderes era um padre, trabalhava com a polícia local, que atuava como informante e pistoleira, disseram os moradores.

“Eles mantinham uma lista de alvos, e todos os agricultores do campo era considerados rebeldes", disse um antigo morador, Fernando Barrientos.

O depoimento ao qual o Times teve acesso se concentra num comandante paramilitar fugitivo, José Alberto Osorio Rojas, que, de acordo com os promotores, era um dos líderes dos Doze Apóstolos. Os promotores estavam investigando Osorio Rojas quando encontraram depoimentos ligando-o a Santiago Uribe.  

Jhon Jairo Álvarez, funcionário de agências de defesa dos direitos humanos, lembrou de uma noite em outubro de 1996, quando o grupo paramilitar chegou à cidade de Campamento com 80 homens armados em caminhões com a insígnia do governo provincial de Antioquia. Isso o levou a indagar a respeito do possível envolvimento do então governador Álvaro Uribe.

Mas Barrientos, cujo irmão foi morto pelos Doze Apóstolos em 1994, disse que tinha mais medo do outro irmão Uribe.

“Sempre disseram: ‘Cuidado com Santiago’”, lembrou ele. “‘Pois é ele quem comanda os Doze Apóstolos.’”

Susan Abad contribuiu com a reportagem.

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