Ivor Prickett / The New York Times
Ivor Prickett / The New York Times

Famílias de combatentes do Estado Islâmico vivem à sombra do medo 

Além de milhares de sírios e iraquianos, um dos três campo de detenção mantidos pelo Governo da Síria mantém 12 mil mulheres e crianças estrangeiras

Ben Hubbard, The New York Times

05 de abril de 2019 | 06h00

CAMPO DE AL HOL, SÍRIA - Ela deixou os Países Baixos para se juntar ao Estado Islâmico na Síria, e se casou com um combatente. Ele foi morto, e ela se casou com outro militante, que a engravidou antes de morrer. Então, em março, com o colapso final do Estado Islâmico, ela se rendeu e foi levada ao campo de Al Hol, cujas barracas transbordavam com o remanescente humano do dito califado. “Quero apenas voltar a ter uma vida normal", disse Jeanetta Yahani, de 34 anos, enquanto o filho, Ahmed, de 3 anos, se agarrava à perna dela, tossindo violentamente.

O anúncio da perda do último território do EI foi um marco na batalha contra a rede terrorista. Mas trouxe perguntas quanto ao que deve ser feito com as dezenas de milhares de pessoas que foram à região juntar-se aos jihadistas.

O campo de Al Hol, um grupo de barracas isoladas por uma cerca e guardas armados, tinha cerca de nove mil pessoas em dezembro. Com a queda dos últimos territórios do EI, essa população aumentou rapidamente para mais de 72 mil pessoas. Ao longo de ruas enlameadas e cheias de lixo separando fileiras de barracas na seção de estrangeiros do campo, onde moram mais de nove mil pessoas, mulheres conversavam em inglês, russo, francês, holandês e chinês.

Uma alemã disse ter vindo à Síria com o marido, um médico. Não tinha ideia de onde ele estava, e ficou presa no campo com um bebê e uma criança pequena. Mas ela não queria voltar à Alemanha. “Não quero criar meus filhos numa sociedade totalmente corrupta, onde todos os pecados são promovidos", afirmou, recusando-se a revelar o nome. 

Al Hol é o maior dos três campos de detenção mantidos pelo governo de maioria curda no nordeste da Síria. Além de dezenas de milhares de sírios e iraquianos, o campo mantém 12 mil mulheres e crianças estrangeiras, de acordo com Redur Xelil, representante das Forças Democráticas da Síria, milícia apoiada pelos americanos que combateu os jihadistas.

A instituição também detém mais de oito mil combatentes, entre eles mil estrangeiros, nas suas prisões. Outros campos estão espalhados pelo Iraque e pela Líbia. França, Rússia e Chechênia receberam de volta um pequeno número de seus cidadãos. Mas a maioria dos países fecha as portas para os ex-moradores do califado. Autoridades locais temem que a falta de apoio internacional possa ajudar o EI a se reconstituir.

Ainda que determinar o passado de mulheres e crianças nos campos seja difícil, elas são geralmente consideradas menos perigosas do que os homens. Mas algumas ainda defendem a ideologia dos extremistas. Uma chechena de 22 anos disse que o marido foi morto num ataque aéreo contra o reduto final do EI, mas ela não acha que o projeto dos jihadistas tenha chegado ao fim. “Nossos irmãos estão por toda parte, na Alemanha, na Rússia, nos Estados Unidos. Acreditamos que o al-Dawla al-Islamia retornará", enfatizou, usando o nome árabe do grupo.

Outras manifestaram arrependimento. Galion Su, de Trinidad, estava perto do portão, na esperança de ver o filho adolescente. O marido os trouxe para a Síria em 2014 e o casal se divorciou pouco depois. Ela se casou com quatro homens diferentes, sempre prometendo a ela que poderia continuar com o filho. Quando os jihadistas tentaram forçá-lo a combater, ela o vestiu de mulher e os dois fugiram, mas forças curdas o detiveram. “Quero apenas voltar a ter uma vida normal, numa sociedade normal, dormir em uma cama limpa, comer comida decente, assistir a TV e rir", compartilhou Galion, de 45 anos.

As crianças são quase dois terços dos moradores do campo de Al Hol. Muitas descreveram a morte dos pais. Todas tinham testemunhado episódios de violência, e algumas tinham sido ensinadas a praticá-la. Autoridades do campo dizem estar ocupadas demais na tentativa de garantir abrigo e alimento para todos e não podem se ocupar do ensino, muito menos apoio psicológico para os problemas desenvolvidos por essas pessoas.“Nada mudou", disse Mohammed Bashir, administrador do campo. “As crianças são inocentes, mas, quando chegam a um campo, aprenderão aquilo que seus pais ensinarem".

 

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