Handout via The New York Times
Handout via The New York Times

Famílias imigrantes sofrem com separação na fronteira dos EUA

Secretária de Segurança Interna afirma que dividir as pessoas não é o objetivo, mas uma consequência da nova abordagem do governo

Miriam Jordan, The New York Times

17 de junho de 2018 | 10h30

Quando aterrissou em Michigan no final de maio, tudo que o menino trazia consigo era uma sacola de lixo cheia de roupas sujas dos dias de viagem desde o México, e dois pequenos papéis: um desenho simples da família de Honduras, e um rascunho do pai, detido e afastado dele quando chegaram à fronteira dos Estados Unidos em El Paso, Texas.

Um acompanhante do governo dos EUA entregou o menino de 5 anos, identificado nos documentos de viagem como José, à mulher americana designada como guardiã dele. O menino não quis dar a mão a ela. Não chorou. Nada disse no caminho até o “lar".

Nas primeiras noites, ele chorou até dormir. Então aquilo virou “apenas um lamento interminável", disse Janice, a mãe adotiva. Recentemente, ele dormiu a noite inteira pela primeira vez, embora ainda insista em guardar fotos da família sob o travesseiro.

A separação de José e seu pai faz parte da política de imigração mais debatida do policiamento de fronteira dos EUA. No mês passado, o procurador-geral Jeff Sessions anunciou que o governo processaria na esfera criminal quem tentasse cruzar a fronteira ilegalmente, diretriz que está levando à separação de centenas de famílias de imigrantes e canalizando crianças para abrigos e lares adotivos em todo o país.

Nas duas primeiras semanas da nova política do presidente Donald J. Trump, foram processados 638 pais que chegaram com 658 crianças, de acordo com informação de funcionários do governo repassadas ao congresso.

Kirstjen Nielsen, secretária de segurança interna, disse que separar famílias não era o objetivo, e sim mera consequência da nova abordagem. “Nossa política não é separar pais e filhos", disse ela a uma comissão do senado. “Nossa política é processar aqueles que infringem a lei.”

A política está produzindo momentos dilacerantes e traumas para seus alvos, com pais e filhos muitas vezes sem saber o paradeiro uns dos outros.

A organização KIND, que oferece auxílio jurídico para menores de idade, diz saber de pelo menos seis crianças deixadas para trás após a deportação dos pais, incluindo uma menina de 2 anos.

O sobrenome de José e da sua família adotiva, bem como seu endereço, serão omitidos da publicação em respeito à sua privacidade. Desde o dia em que chegou a Michigan, dizem os parentes, não houve um dia em que ele deixasse de perguntar em espanhol, “Quando verei meu pai?”

Eles respondem com a verdade: não sabem. Ninguém sabe.

“Estou testemunhando a história acontecendo diante dos meus olhos", disse Janice, 53 anos. “É horrível.” 

Janice, o marido dela, Chris, e suas duas filhas adolescentes estão entre uma série de famílias que, nos anos mais recentes, ofereceram lares temporários a menores de idade em busca de refúgio nos EUA.

Nos dois anos mais recentes, 12 crianças diferentes ocuparam o quarto no andar de cima. Todas chegaram aos EUA sozinhas e continuaram sob os cuidados da família até a identificação de alguém capaz de sustentá-las no país, geralmente um parente.

“Elas tinham acesso aos pais diariamente", disse Janice. “Elas conversavam pelo telefone. Fizemos chamadas de vídeo com pais, mães e irmãos de todos que se recebemos aqui, até agora.”

José é a primeira criança recebida por eles que cruzou a fronteira com um dos pais e, em seguida, separado do seu responsável. Em seu voo com destino a Michigan havia dois outros meninos da América Central em condições semelhantes.

A organização Bethany Christian Services está coordenando a designação de lares adotivos para cerca de 100 crianças imigrantes, incluindo José.

Entre outras crianças recebidas recentemente por um lar adotivo ligado às famílias da Bethany está uma menina de um ano e meio que foi separada do pai, que foi detido. Ela chora com frequência.

Um menino de 3 anos afastado da mãe na fronteira estava inconsolável no voo a Michigan, chorando incessantemente ao chegar ao lar adotivo no mês passado, disse Dona Abbott, diretora do programa de refugiados da Bethany. Recentemente, ele começou a formar um elo com a mãe adotiva, de quem agora reluta em se separar. “Ele parece temer outro afastamento", disse Dona.

No começo, José se mostrava triste e pouco dizia. Não quis se desfazer das roupas com as quais chegou, uma enorme camiseta amarela, moletom azul-marinho e casaco cinza, recebidos provavelmente das autoridades que o processaram no Texas.

“Percebi que ele não queria que ninguém tirasse nada dele", disse Janice.

A única coisa que o deixava mais animado era falar de suas “fotos", como ele chamava os desenhos da família.

Ele apresentou os membros da “mi familia", apontando para as figuras que tinha desenhado dos pais, do irmão e da irmã mais nova. Olhando intensamente para o desenho do pai, com um bigode e um boné, ele repetiu seu nome em voz alta.

Eram “apenas eu e ele” na viagem desde Honduras, disse o menino a Janice certa noite quando estava na cama mexendo nas imagens.

O menino começou a frequentar uma escola infantil da Bethany com uma série de outras crianças imigrantes.

Já no começo da segunda semana com a família americana, ele arriscou alguns sorrisos e até gargalhadas.

“Enquanto mãe, é muito difícil para mim ver este garotinho começar a se divertir com as coisas simples", disse Janice. “O pai dele não pode acompanhar esses momentos. É como se essas coisas lhe tivessem sido roubadas. Não sirvo como substituta.”

No início do mês, José finalmente falou com os pais. Foram telefonemas separados: o pai continua preso, e a mãe está em Honduras.

Os telefonemas mudaram tudo. “Isso fez ele reviver todo o trauma da separação”, disse Janice.

Ela tentou fazer com que o menino se interessasse por brinquedos, mas ele permaneceu gritando e chorando na mesa da cozinha por quase uma hora.

Quando a raiva cedeu, ele desabou no chão, soluçando. “Mamá, Papá", repetia ele. Ali perto estavam as fotos da família, que ele tinha jogado no chão.

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