Myriam Meloni para The New York Times
Myriam Meloni para The New York Times

Famosos arquitetos, grupo premiado é feliz atuando com discrição

Vencedores do Pritzker, os três sócios da empresa RCR estão representando sua região em uma Bienal de Veneza, cuja exposição oficial é limitada aos pavilhões dos Estados-nação

Raphael Minder, The New York Times

12 Julho 2018 | 10h00

VENEZA - O Prêmio Pritzker é considerado o maior reconhecimento no campo de arquitetura. Por isso, talvez surpreenda que os premiados do ano passado, os três sócios da firma RCR Arquitectes, apresentem o seu trabalho na Bienal da Arquitetura de Veneza não como uma peça central da exposição, mas em um espaço industrial, na periferia da cidade.

A RCR foi escolhida para criar um pavilhão para a Catalunha, uma das várias regiões que participam de “eventos colaterais” da Biennale, fora da mostra oficial, que está limitada a expoentes de nações-Estado.

Os três sócios da RCR - Carme Pogem, Rafael Aranda e Ramon Vilalta - parecem plenamente satisfeitos em suas instalações, nos arredores. Desde que fundaram seu escritório em 1988, eles evitaram construir estruturas que desafiassem a gravidade e de forte impacto visual.

“A arquitetura não deveria se preocupar em fazer projetos difíceis e edifícios icônicos, mas em criar espaços em que as pessoas possam ter suas próprias experiências e desenvolver a própria criatividade”, disse a arquiteta Carme Pigem em uma entrevista da qual os três participaram em seu estúdio em Olot, na Espanha, em abril.

O pavilhão catalão da RCR, intitulado “Sonho e Natureza”, leva o visitante bem longe dos canais de Veneza, e evoca bosques, campos e o relevo vulcânico da Catalunha. O pavilhão mostra imagens dos 120 hectares de terra da Catalunha que os arquitetos compraram e começaram a transformar no que Aranda definiu como “o nosso legado” - uma propriedade agrícola que pretendem tornar um local de estudos e de reflexão sobre a arquitetura.

O pavilhão mergulha os visitantes em uma paisagem catalã, mas os três arquitetos explicaram que não ignoraram Veneza em seu projeto. Do teto, foram pendurados discos de vidro sobre os quais são projetados textos e imagens. Em alguns, uma parte do vidro é curva de forma a ampliar as palavras chave.

O uso do vidro, segundo os arquitetos, foi um tributo à arte de Murano, uma das ilhas da laguna de Veneza. O piso brilhante do pavilhão e as luzes resplandecentes são outra homenagem à herança bizantina da cidade.

A Catalunha se encontra no centro de uma crise territorial espanhola, que chegou ao ápice em outubro, quando parlamentares separatistas desafiaram sem sucesso o governo da Espanha na tentativa de declarar sua independência.

No entanto, os sócios da RCR deixaram claro que pretendem distanciar sua arquitetura da política da secessão catalã.

Os edifícios da RCR são propositalmente discretos, inclusive o seu estúdio, localizado em uma rua secundária de Olot, a cidade natal dos três. Eles estudaram arquitetura juntos, e criaram uma amizade que, para Carme e Vilalta, se transformou em casamento.

Durante uma entrevista conjunta, várias vezes eles completaram reciprocamente as sentenças uns dos outros. Esta comunhão se estende às finanças do grupo, segundo a ideia de que todo pagamento individual decorrente de eventuais aulas deve ser compartilhado entre os três.

“Chegamos a um ponto em que mesmo que tomemos uma decisão sem que os três estejam presentes, temos a certeza de que os outros concordam e de certo modo sabemos que a decisão será respeitada e todos confiarão nela”, disse Aranda.

A identidade é importante para os parceiros, mas principalmente no que se refere à valorização do ambiente em que trabalham e vivem, em Olot.

“O ponto de partida é conhecer a si mesmo”, explicou Aranda, “o que significa ter raízes fortes e conhecer o próprio lugar, a natureza e as pessoas ao seu redor. Quando você tem consciência disso, pode viajar pelo mundo e saberá compreendê-lo”.

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