Dan Reed/HBO
Dan Reed/HBO

Fãs de Michael Jackson denunciam novo documentário

Fiéis seguidores do Rei do Pop fazem campanha contra 'Deixando Neverland', dizendo que as acusações são um complô para manchar a imagem do astro

Joe Coscarelli, The New York Times

13 de março de 2019 | 06h00

Beyoncé tem a BeyHive, a Colmeia de Abelhas, e Nicki Minaj, as Barbs, grupos de fãs online que atacam como um enxame para defender quem ousa depreciar seus ídolos. Mas na era dos superfãs, talvez nenhum grupo seja mais organizado e aguerrido do que o dos devotos de Michael Jackson, o Rei do Pop, que inclui em seu legado dezenas de anos de insinuações e ações judiciais a respeito do que ele fez ou não com meninos.

Por meio de blogs, podcasts, vídeos no YouTube e principalmente por feeds nas redes sociais, eles fazem circular provas exaustivas que, na sua opinião, eximem o cantor de qualquer culpa, e ao mesmo tempo calam certos veículos de comunicação que consideram incorretos e discriminatórios.

Preparada ao longo de semanas, a sua luta provocou novo estardalhaço no dia 4 de março com a exibição da primeira parte de Deixando Neverland, um documentário da HBO sobre dois homens que afirmam terem sido molestados por Michael repetidas vezes quando crianças.

Cartazes com a hashtag #MJInnocent.com que circulam em ônibus em Londres, e anúncio digitais nos Estados Unidos declaram que “os fatos não mentem, as pessoas sim”. Na hashtag do Twitter #MJFam, dezenas de contas de fãs encorajam a contraprogramação do filme, instruindo os seguidores a ouvir as músicas de Michael Jackson em lugar de assistir ao programa. E na noite em que o espetáculo foi ao ar, os fãs usaram a hashtag #LeavingNeverland com tuítes, massacrando o que chamaram de “mockumentary”, ou um pseudodocumentário, e atacando os dois homens que são as figuras centrais da questão.

No dia 5 de março, Dan Reed, diretor do filme, contou que sua empresa recebeu “dezenas e dezenas e dezenas e dezenas” de e-mails de fãs de Michael Jackson - “um dilúvio de ódio” nos 20 minutos do trailer do filme exibido em janeiro.  Ele e os dois personagens, Wade Robson e James Safechuck, afirmaram que alguns fãs os ameaçaram de violência.

“Só podemos comparar a sua atitude à de fanáticos religiosos”, disse Reed. “Eles são o Estado Islâmico dos fãs”. Os devotos de Michael não veem a questão dessa maneira. Desde que as acusações começaram em 1993, por parte de um menino e sua família e foram encerradas com um acordo de US$ 23 milhões, a linha adotada pelos fãs é que todas as acusações não passam de complôs com a finalidade de extorsão por parasitas determinados a manchar a imagem de Michael e a explorar a sua ingenuidade.

Na esperança de provar a inocência do astro, uma ramificação específica do seu exército de devotos vem vasculhando os mínimos detalhes de sua vida e dos processos, como o de 2005, no qual ele foi absolvido das acusações de ter molestado outro menino. Estes fãs - tanto os jovens quanto os velhos, de Queensland, na Austrália, a Moscou e Huntsville, no Alabama - consideram Deixando Neverland uma obra parcial de sucesso que retoma antigas acusações de fontes inconsistentes.

Além disso, o filme transformou em uma batalha o que, durante anos, foi uma verdadeira obsessão de muitos fãs de Michael. “Os fãs mais antigos já viram este tipo de coisas inúmeras vezes”, disse Casey Rain, 30, músico e YouTuber de Birmingham, Inglaterra. Ele definiu Deixando Neverland uma “tentativa doentia de sequestrar o atual movimento #MeToo”.

Muitos fãs recorrem a mensagens anônimas de ódio visando jornalistas e acusadores de Michael. Outros, como Rain, mostram sua devoção de maneiras mais profundas, montando laboriosamente vídeos e polêmicas épicas que lançam mão de documentos de processos e de entrevistas obscura e depois compartilhando vezes sem fim seu trabalho em múltiplas plataformas. “Não há nada a respeito de Michael que seus fãs desconheçam”, afirmou Rain, cujo post no blog sobre o documentário tornou-se um texto de leitura obrigatória antes mesmo da exibição do filme.

Susanne Baur e Elena Ovchinnikova, coautoras do blog Vingando Michael, disseram que preferem não ser chamadas de fãs de Michael, porque a palavra fã “tem uma conotação negativa de veneração e adoração”, escreveu Susanne, 60, em um e-mail. Em um post sobre Deixando Neverland que totalizou mais de 10 mil palavras, Elena, 65, que mora em Moscow, Alabama, analisou as histórias discrepantes dos dois homens no filme e concluiu que eles são mentirosos.

Alguns de seus partidários reconhecem que as dimensões elaboradas em seus textos e argumentações convidam a comparações com teóricos da conspiração, ou, como observou Damien Shields, a uma “turba delirante”. Mas Shields, autor de um livro sobre as músicas de Michael Jackson, afirmou que é tudo uma questão de perspectiva. “Nós também vemos a mídia como uma turba delirante em certas circunstâncias”.

Segundo ele, o apoio dos fãs nasce de sentimentos de amor e paixão, comparando os das redes sociais ao do fã de Britney Spears, Chris Crocker, que gritou “Deixem Britney em paz!” em um vídeo que se tornou famoso e viralizou. “Estes são os fãs de Michael Jackson no Twitter multiplicados por um milhão”.

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