(Morgan Hornsby / The New York Times).
(Morgan Hornsby / The New York Times).

Os alces voltaram ao Kentucky, trazendo vida para a economia local

Como parte do projeto, estado reintroduziu um cervo que não é visto na área há 150 anos

Oliver Whang, The New York Times - Life/Style

28 de julho de 2020 | 05h00

Em uma luminosa manhã desta primavera, David Ledford estava sentado em sua picape prateada em uma extremidade da ponte de três pistas sobre um profundo desfiladeiro no sudeste de Kentucky. A ponte, que desemboca na Rota 119, foi construída em 1998 pelo ex-governador Paul E. Patton por US$ 6 milhões.

Na época, foi considerada uma rodovia que levava a vários lugares: uma pista expressa, um centro comercial, para os canteiros de obras para a construção de habitações. Hoje, ela entra na propriedade de cerca de 4,8 mil hectares de Ledford, que ele e o seu sócio, Frank Allen, estão transformando em uma reserva natural sem fins lucrativos chamada Boone’s Bridge.

A estrada subia e desaparecia atrás de um morro, e Ledford tirou um instante a mão direita da direção para apreciá-la. “É uma estrada impressionante”, falou. Quando Boone’s Bridge for inaugurada, em 2022, terá um museu e oportunidades para os que apreciam observar pássaros e animais silvestres.

Dois consultores independentes estimaram que ela poderá atrair mais de 1 milhão de visitantes ao ano com um aporte de US$ 150 milhões ao ano para a economia regional. Ela fica no Condado de Bell na área rural de Apalachia, que tem uma taxa de pobreza de 38% e uma renda média por família de pouco menos de US$ 25 mil, o que a torna um dos condados mais pobres dos Estados Unidos.

O declínio da indústria do carvão criou uma buraco de vários bilhões de dólares na economia, e deixou centenas de milhares de hectares de terra devastada. Mas também criou oportunidades. Boone’s Bridge está sendo construída sobre terra recuperada de minas, e um dos seus maiores pontos de venda é um animal de grande porte que só recentemente voltou ao Kentucky: o alce. Foi embora e voltou.

Quando Daniel Boone vagava pela Passagem Cumberland e entrou em Kentucky no final do século 18, o estado tinha uma rica vida selvagem. Boone lembrava de ter encontrado “por toda parte abundância de animais selvagens de toda espécie, nesta vasta floresta”. No Oeste, os animais das pradarias pastavam sem que ninguém os perturbasse. No Leste, vales íngremes cobertos de florestas de árvores de madeira de lei permitiram a formação de biomas únicos, onde viviam espécies que não eram encontradas em nenhum outro lugar: o lagostim Big Sandy, a salamandra do Planalto do Cumberland, o morcego de Virginia de orelhas grandes.

Mas em menos de um século, a colonização das terras e a caça dizimaram ou eliminaram o búfalo, o peru, o cervo de rabo branco, a lontra de rio, águias carecas, a codorna e outros animais. Os alces - cuja presença foi homenageada em nomes de lugares como Elk River e Elkhorn City – foram alguns dos primeiros a desaparecer; o último foi morto antes da Guerra Civil. Nos anos 1900, poucos moradores lembravam de que outrora havia alces no estado.

Em 1944, foi criado o Departamento da Pesca e da Vida Selvagem de Kentucky, encarregado de reintroduzir animais de todas as espécies e regulamentar o seu número para a caça e a conservação. Apenas mil cervos do rabo branco restavam depois da Depressão. Agora, sua população é calculada em mais de um milhão e gera US$ 550 milhões para as receitas estaduais em licenças de caça, turismo e com a venda de rifles e de outra parafernália relativa a este esporte. A sede do departamento está em um grande terreno fora de Frankfort, a capital do estado.

Nele, há o zoológico local, com dezenas de espécies nativas – águias carecas, aves aquáticas, cobras venenosas, ursos pardos, um lince que se abriga sob uma saliência de rocha - todas reintroduzidas com sucesso, com populações estáveis. “Esta é a razão pela qual hoje estamos aqui”, disse Chris Garland, diretor da divisão da vida selvagem da agência. “Começamos recebendo os animais selvagens, e protegendo as poucas espécies remanescentes que encontramos”.

Com a recuperação da maior parte dos animais silvestres ameaçados da região, as atenções voltaram-se para a recuperação de outras espécies, entre elas o alce. Em 1997, a Rocky Mountains Elk Foundation, uma associação de caçadores, ofereceu-se para financiar um plano de seis anos, no valor de vários milhões de dólares, para a reintrodução no Kentucky de mais de 1.500 alces provenientes do oeste dos Estados Unidos. Gabe Jenkins, biólogo do Departamento de Pesca e Animais Selvagens de Kentucky, trabalhou mais de dez anos no programa. “Todos os astros se alinharam para nós para conseguir a decolagem deste projeto”, ele disse.

“Ninguém jamais havia transportado tantos alces em um espaço de tempo tão curto. A nossa se tornou uma grande façanha”. O plano agradou, mais de 90% dos residentes do estado o aprovaram. Só havia um problema. Cada alce consome mais de 20 quilogramas de vegetação por dia e o habitat do oeste de Kentucky onde os animais eram numerosos nos tempos anteriores à colonização, havia sido urbanizado.

Os proprietários das fazendas não queriam que animais de meia tonelada destruíssem suas culturas, e não havia mais terra suficiente para alimentar grandes rebanhos . Mas na metade da região do leste do estado, onde a aspereza das montanhas outrora havia impedido o crescimento das populações de alces, caçadores e conservacionistas receberam de presente um remédio para o problema: as minas de carvão abandonadas.

A reboque do carvão

A atividade nas minas de carvão começou a rarear nos anos 1990 e 2000, e as cidades que haviam sido construídas ao seu redor se depararam com um vácuo econômico, com queda do emprego e uma pobreza cada vez maior. Muitos habitantes que puderam partir, se foram. Mas as minas recuperadas ficaram, transformando montes antes não habitáveis em uma espécie de colcha de retalhos topográfica: picos longos e finos de pedra e árvores de madeiras de lei interrompidas por planaltos ondulados verdejantes. Milhares destes lugares se encontram nos condados no leste de Kentucky.

Escassamente habitados e subdesenvolvidos, eles oferecem um habitat ideal para os alces. “O alce é classificado como um glutão médio”, disse Will Bowling, biólogo especializado em alces da Nature Conservancy. “Ele prefere uma ampla variedade de fontes de alimentos. Pasta, e gosta de variar o seu cardápio com bolotas e frutos que caem das árvores”. Os planaltos recuperados oferecem uma paisagem diversificada: pastos cercados por florestas, que fornecem abrigo e alimentos alternativos.

Desde que o homem não interfira, disse Jenkins, “o alce poderá sobreviver praticamente em toda parte. Ele precisa de algum pasto”. Em 1997, um ano antes da construção da ponte que leva para as terras de Ledford, 4 mil pessoas se reuniram na vertente coberta de grama de uma mina recuperada no condado de Perry, quando Patton escancarou as portas de um trailer e um alce pisou na terra de Kentucky, depois de mais de 150 anos.

Desde então, os alces de Kentucky vêm sendo monitorados por pesquisadores como Jenkins e Bowling. Não existindo predadores reais, a população destes animais explodiu. O estado hoje abriga mais de 13 mil alces nos 16 condados do país do carvão. O impacto ecológico da recuperação desse nicho não foi totalmente mapeado, mas só pode ser positivo, segundo Bowling. “Dispor do habitat adequado à própria espécie é sensacional”, ele disse.

“Para a comunidade conservacionista, esta é uma verdade fundamental na opinião da maioria das pessoas”. O impacto econômico é palpável. O estado agora emite todo ano algumas centenas de autorizações para a caça do alce, e com isto se criou um pequeno mercado – tours para observar os alces, guias para a caça ao alce – c com um aporte de cerca de US$ 5 milhões para as economias locais, segundo o departamento estadual da pesca e da vida selvagem.

A indústria do alce não chegará a substituir o que se perdeu com a saída do carvão, mas “a indústria do carvão não voltará”, disse Rodney Gardner, um naturalista do Jenny Wiley State Resort Park do Condado de Floyd. Boone’s Ridge tem uma história semelhante, e também está repleta de alces. Enquanto Ledford dirigia sua picape, curvou-se para frente, achando ter visto um casal, depois relaxou diante do que chamou de “rochas dos alces”, os grandes blocos de arenito ou calcário que restaram da época em que as minas operavam na região.

“Algumas destas rochas parecem alces, e chegam a enganar a gente; fica chato quando a mesma pedra engana a gente 30 vezes”, comentou. Mminutos mais tarde, ele apontou para um rebanho de 20 alces fazendo saltos acrobáticos em uma vertente do planalto. Os animais escoiceavam com as patas traseiras na corrida, as cabeças imóveis, olhando firmemente para frente. Um macho parou onde a pradaria se tornava montanha, os chifres destacando-se perfeitos no sol. Lá ficou, imóvel e orgulhoso como a crista de rocha atrás dele, depois disparou e desapareceu da vista. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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